...

Minha foto
allan de lana

quarta-feira, outubro 07, 2009

o zero e o nada
Um arriscado legalismo surgiu na Secretaria de Fazenda do Distrito Federal, que doravante considera a concepção de obras artísticas nos mesmos termos de um serviço. Como cidadão que ainda me considero, protesto diante do fato, que registro a seguir. Depois, em outra postagem, arriscarei algum comentário, para sensibilizar acerca do momento em que vivemos de forma um pouco mais analítica.

Ao participar de uma exposição de arte, alguns artistas - cujos nomes manterei em sigilo se os próprios não me permitirem citar - conceberam instalações, mecanismos, esquemas, conceitos e coisas que, no momento, consideraremos sob o nome "obras de arte". Meu relato não tem a ver com o grau de autonomia ou determinação exterior que essa concepção teria. A discussão começa quando essas obras, que podem ser perfeitamente notadas do ponto de vista da sensibilidade humana, foram levadas a público e, para que essa exposição ocorresse, a produtora da mostra incluiu em seu projeto uma ajuda de custo aos artistas, que por sua vez arcaram com despesas decorrentes da concepção, transporte e montagem da própria obra. (Também não citarei o nome da mostra, da produtora e dos curadores, pois pretendo marcar que o presente protesto, no momento, é individual, embora as questões que suscita não sejam restritas ao meu pequeno mundo).

Essa renda ou ganho, claro, precisa ser comprovada e sobre ela incidem impostos entre os quais está o ISS. Para que isso ocorra, precisamos solicitar a emissão de uma nota fiscal, onde se especificam o tipo e percentual do recolhimento. É nessa especificação que se mostra um furo - ou pelo menos um lapso interessante - na prática de nossas instituições. A tributação de ISS considera que exposições (sem restringir tipos de exposição) devem ser taxadas em 2%. Obviamente, os artistas convidados levaram a público coisas que acreditam ser obras de arte, conforme um estatuto que nossa sociedade valida e que em certo sentido contribui para a auto-imagem dos sujeitos que aqui vivem, ainda que boa parte das pessoas chame instalações e "arte contemporânea" de "horríveis", "imateriais", "difíceis de entender e fáceis de fazer" etc. (e a tese da auto-imagem está, por essas críticas, reforçada, pois em nenhum momento jamais se argumentou que a arte de hoje impede que o público se projete nela). Os artistas realizaram, portanto, uma exposição, atividade prevista na lista de serviços do Decreto 25.508 de 19 de janeiro de 2005. Conclusão: exposição seria um serviço. Contudo, por mais simples que isso pareça, os fiscais da Secretaria da Fazenda do Distrito Federal discordam, ou melhor, consideram que não só a exposição deve ser tributada (em 2%), mas a concepção da obra também, alegam, é um serviço. Vejamos suas interessantes alegações, que me apresentaram depois que esperei na fila mais de uma hora para ser atendido e passei mais uns 40 minutos a explicar o enquadramento legal que o leitor viu neste parágrafo.

O fiscal disse que uma exposição de obra de arte com pagamento ao artista que concebesse sua obra especificamente para a tal exposição era contemplada pelo Decreto nos seguintes termos: "Produção, mediante ou sem encomenda prévia, de eventos, espetáculos, entrevistas, shows, ballet, danças, desfiles, bailes, teatros, óperas, concertos, recitais, festivais e congêneres". Nesse caso, a tributação é 5% (mas não é só com esse índice 3% acima que devemos nos preocupar, há algo muito grave escondido aí, que avaliaremos logo-logo, em um outro artigo cuja elaboração é mais complexa). Meu interlocutor disse ainda que artista nenhum recebia por expor sua obra pois, segundo ele, a exposição sempre seria o grande interesse daquele que estaria "divulgando seu trabalho", portanto, possibilitaria conhecimento pelo público e, conseqüentemente, a "venda de quadros". Em face dessa teoria, meu interlocutor afirmou que desconfiaria sempre de minha reivindicação, uma vez que, se "nenhum artista recebe para expor uma obra" (e se considerarmos essa uma verdade inconteste - o que não é, obviamente, cabível, embora o fiscal opte pelo incabível), se for incontestável que a exposição de arte é sempre realizada pelo artista gratuitamente, o caso previsto no Decreto como "Exposição" não se pode referir a exposição de arte, mas à "produção de qualquer exposição", incluindo nessa "produção" a produção de exposições de arte. Percebe, leitor, o universo que a palavra "produção" inclui na discussão? Ocorreu que, quando contestei todos os argumentos que me foram dados, o fiscal solicitou que eu aguardasse e voltou depois de alguns minutos.

Olha, Allan - dizia o rapaz -, eu consultei os meus colegas e eles são unânimes em dizer que ou é nota com 5%, ou é nada, ou cinco ou nada de nota, essa é a nossa opinião aqui dentro. O que você escolhe, me perguntou ele com astúcia no rosto.

Eis o relato, enquanto tentei separá-lo da minha análise e apresentação da gravidade do problema desse tipo de legalismo por opiniões. Fiz a separação para que todos os leitores tenham o mesmo prazer que eu, de poder navegar mentalmente em nosso mundo social (ou pelo menos nessa tentativa de descrever um evento ocorrido nele) como se passeasse em alamedas, eventualmente nadasse em enchentes do Tietê, sentisse o calor provocado pela aceleração do efeito estufa... Enfim, é preciso possibilitar a sensação de que se tem direito à liberdade de sentir. E então, o que você sente aí? Não vá dizer que está anestesiada, que não sente nada! De minha parte, sinto algum temor e, além disso, um pouco de revolta...

Minha avaliação, no momento, é bastante curta mas, em breve, se eu puder, trarei algumas reflexões cruciais sobre complicações que vejo surgirem e permanecerem no campo que temos chamado de "arte contemporânea" e decorrem sobretudo de seu contato com todos os campos da tal "vida contemporânea", coisas que nós, os ditos "artistas", felizmente não temos como frear.

Vejamos... Claramente, há dois erros nas considerações do meu interlocutor que invalidam suas alegações, além de alguns deslizes que mereceriam um destaque maior em outra ocasião.

Primeiro ponto. É provável que a exposição de uma obra de arte seja prevista no decreto sobre recolhimento de ISS sob a denominação "exposições". A alegação de que toda exposição de arte é feita pelo artista gratuitamente talvez não seja verdadeira. Ou ela é falsa, ou então a maioria das pessoas que me disseram ser artistas são falsas. Certo, considerando que nos últimos cinquenta anos várias tentativas de desvincular arte e representação ou levaram à morte literal do autor ou se frustraram, no sentido de aumentar mais ainda o arsenal ilusionista para as gerações futuras, então, sim: todos os artistas não são artistas!!! Ou melhor, todo artista é mentiroso e se diz artista... Ou, quero dizer... Complete você mesmo a reflexão: _____________________________________________________. Até segunda ordem, boa parte dos artistas que são mentirosos recebem dinheiro para expor (eu sei disso, embora nem sempre eu seja mentiroso, só quando preciso de dinheiro). Os pintores muitas vezes são sinceros.

Segundo ponto. Há uma confusão no uso dos termos "produção", "criação" e "exposição". Em primeiro lugar, quando a tabela de serviços da lei cita que sobre "exposições" incide uma alíquota real de 2% de ISS, ela não inclui a expressão "produção de" nos termos do predicado, de modo que a exposição mesma não envolve produção. O fiscal foi quem incluiu essa última palavra, para dar sentido aos argumentos de seus colegas, que, conforme vimos, formaram consenso e, com isso, concederam poder de representação a seu representante. Assim, ele afirmou que o que eu fiz não foi produção da exposição de uma obra, mas criação ou produção da obra mesma mediante encomenda. De fato, "produção" aparece no item ao qual o fiscal atém a defesa do ponto de vista de seu grupo: "Produção, mediante ou sem encomenda prévia, de eventos, espetáculos, entrevistas, shows, ballet, danças, desfiles, bailes, teatros, óperas, concertos, recitais, festivais e congêneres". Para ele, produzir é sinônimo de "conceber". Claro, se olharmos em um dicionário, esse sentido estará no rol de definições. Mas então, por que não há, na interminável frase retirada da tabela de serviços, qualquer menção à produção de objetos ou pelo menos obras fixadas em um suporte ou material? Produção de esculturas ou colagens, por exemplo? É que produzir aí não é o mesmo que conceber. Obviamente, a lei está se referindo à produção como um serviço prestado, um agenciamento de coisas que não interfere de forma alguma em sua natureza, mas as leva para um contato com o público a partir de uma espécie de mediação entre veículo, público mesmo, instituições parceiras e intérpretes, tendo como resultado final o acesso do público à ação dos intérpretes. O modo de imanência das artes visuais não permite que esse mesmo tipo de serviço seja realizado. Uma obra visual pode enfocar a teatralidade do público junto às obras e o espaço negativo entre elas, mas não a interpretação do artista diante do público. Uma partitura em arte visual não é igual a uma partitura presa com alfinetes nas costas de um músico de banda militar, à qual o músico de trás deve interpretar sem que o público tenha acesso. Uma obra dramatúrgica utilizada nas artes visuais (feita ou exposta para ser vista) não teria o mesmo caráter se fosse encenada por atores em um teatro, quando seu valor é de um código oculto do ponto de vista da platéia, mas acessado e transcodificado por uma companhia. A partitura feita para ser vista tem uma objetividade específica que dispensa o intérprete, enquanto a que se destina ao músico e é escondida dos olhos da audiência para que essa tenha uma orquestra fifiricando seus ouvidos requer intérpretes profissionais. Sem esses intérpretes, não faz sentido produzir um espetáculo no sentido que a lei confere à palavra produzir, quando escolhe citar eventos em que de alguma forma o intérprete (ou o porta-voz, no caso da entrevista) está presente. Mas podem ser produzidas exposições, sim e, se isso pode estar incluso entre as atividades a serem tributadas em 5%, a diferença entre produzir e conceber ou entre produzir e expor deveria ser lembrada. E mais, se aquele outro item que cita diretamente a palavra "exposições" tiver de fato, de maneira implícita, a palavra "produção" em seu predicado, o índice do tributo pago pela produtora é 2% e o artista cuja obra é exposta é isento, pois sua atividade não é contemplada na lei.

Contudo, até agora não nos detivemos sobre o significado da expressão "mediante ou sem encomenda", já que o fiscal alegara que determinaria o recolhimento de ISS em 5% porque era a alíquota correta sobre uma obra "produzida sob encomenda". Mas ele esqueceu do "ou sem". "Produção mediante ou sem encomenda". Se produção tivesse o mesmo sentido de concepção, o que ocorreria com os coitados dos falsos artistas, e também com os verdadeiros? Vejamos o esdrúxulo gravíssimo dessa insinuação: mesmo nos momentos em que resolvessem iludir os outros sem que alguém os solicitasse, teriam de recolher 5% de ISS. Mesmo que se inscrevessem em um edital público que oferece espaço, mas não dinheiro para exporem, seriam cobrados pelos amigos do nosso fiscal. Mas, ora, por que um Decreto estabeleceria a tributação de um ganho inexistente? Vejam essa hipótese: aqui neste apartamento, eu viveria elocubrando ilusões e materializando-nas, isto é, produzindo instalações compulsivamente, escrevendo novelas e roteiros, dramas e romances, de modo que eu mesmo tivesse que viver no espaço existente entre a pia e a geladeira, pois não me caberia mais nesta sala, no quarto ou nas áreas comuns do prédio e vagas de estacionamento. Já estou em minha quarta Merzbau e oitava Santa Ceia. Se a produção enquanto criação é um serviço, nunca vi ninguém, nenhum cidadão ou cidadã, que tenha prestado um serviço voluntário tão intenso como o que tenho prestado, pois a minha principal atividade durante a greve dos bancários (eu sou bancário) tem sido produzir produzir e produzir. Porém, esse não é um serviço voluntário qualquer, mas um serviço voluntário tributado em 5%, pois é criação. Além disso, já que o serviço voluntário é voluntário e por ele eu não recebo, somando-se ainda aí o fato de que conceber obras de arte é sempre um serviço tributado mesmo que não seja sob encomenda, a tributação de 5% implica em um valor de zero reais declarado em nota fiscal para recolhimento do tributo, pois fiz uma produção sem encomenda, logo sem pagamento. Por que isso apareceria em um Decreto, repito?

Detalhe. Resolvi perguntar ao meu interlocutor: e se eu não produzisse quadros? Pense mais alto um pouco, imagine que eu sou um artista convidado para uma bienal e estou recebendo quinze mil para levar uma instalação que ocupa um andar inteiro de um grande prédio. A resposta do interlocutor: ah, mas esse caso não está previsto em lei! Você não seria tributado, pois não estaria prestando serviço.

Só mais um detalhe. Hoje eu realizei uma performance que consistiu em recolher pedras de gelo enormes que a tempestade atirava violentamente no chão e colocar no congelador. Eu mesmo, representado pela minha mão direita, que gostou muito do show (e da chuva também) paguei à minha pessoa, representada pelo espaço entre o hálux e o segundo dedo do meu pé esquerdo, o total de cento e quarenta reais, utilizando uma nota de cem e dez de dois, sacadas em caixa eletrônico para contribuir com a pressão exercida pela greve dos bancários na opinião pública e ganhar rapidez de negociação. Minha dúvida é se devo recolher sete reais pela performance ou não.

Na verdade, tenho certo temor com os rumos que um sistema de tributação mal feito pode tomar, se um dia o legalismo sobrepujar a discussão, o espaço do debate, a política no sentido amplo e profícuo do termo. E se um dia, eu pergunto, quando estivermos tomados pela insensibilidade à discussão, uma obra qualquer de qualquer um que agora lê este blog... Se um dia aquele desenho que você fez quando tinha 7 anos de idade for leiloado por algo em torno de cem mil reais? Você aceita pagar pelo valor da obra que criou? Ou então, se você é um artista ativo e um familiar seu resolve vender uma obra - uma pintura - com a qual você o presenteou ontem? Por que a defesa da sensação da liberdade de pensar e exprimir teria ocorrido desde os primeiros tempos de filosofia, desde os tempos da sabedoria, e hoje essa defesa deveria ser tiranizada pelo vício mercadológico? A questão aqui é política: trata-se de decidirmos por uma idéia aceitável de justiça e isso só se faz discutindo.

Agradeço ao meu interlocutor e seus colegas. As piadas deste artigo não se estendem a eles, somente às situações vividas com aquelas pessoas que respeito profundamente. Espero que compreendam a importância do debate desse tipo de assunto em público.

Neste momento, aguardo resposta a uma reclamação que fiz junto ao GDF para saber o dia de amanhã.

terça-feira, setembro 15, 2009

moradas do íntimo

(se clicar, amplia)

terça-feira, setembro 08, 2009

______________________________________



...só mais duas imagens de fragmentos da TS... E só isso e pronto, acabou!


sábado, setembro 05, 2009


Pretendo fazer umas observações enquanto antena, já que me apresento como um particular no gênero delas. Encontrei essa idéia na citação a Jimi Hendrix, feita pela revista Bizz que estava recortada em uma gaveta de velharias. Jimi falava mais ou menos assim: "meus cabelos são radares que captam e enviam ondas para o universo". E digo que aquele que é chamado de "artista" tem oportunidade de fazer uso desse "Enlightement", uma iluminação que lhe é conferida a partir do nome e o autoriza utilizar sua antena ou radar em uma freqüência, digamos, integrada - mesmo que ele se aplique, na maior parte do tempo, a habitar à margem da designação.

Sim, tudo poderia ser diferente, mas o nome e o ser nomeado têm seu flerte com a instituição - sobrevive e é aceito por convenções, por um "ser assim". Tanto é que um ritual de auto-cremação em Bali, descrito por Clifford Geertz em um de seus ensaios publicados na compilação "O saber local", por mais que seja maravilhoso e apresentado pelo autor como acontecimento de natureza artística, dificilmente deixaria veicular-se na Galeria Acervo da CAL. Nem o Povo Balinês, nem as nossas instituições aceitariam, aliás, que a transposição ocorresse e uma mulher vestida em trajes com estampas entorpecentes (como uma floresta barroca cheia de símbolos só vista por nós em algumas catedrais mineiras), depois de picada pela serpente curvasse seu corpo rumo ao abismo incandescente.

Na verdade, nosso edifício reservado à arte é sempre meio ascético. Portanto, ter um espaço de ação legitimada me faz sentir à maneira de um fisiólogo do século XVIII em seu laboratório e com sua liberdade de experimentação. Já Geertz, no seu fazer etnológico, pode experimentar mais "de perto" as variações culturais - significando esse "de perto" que ao aproximar-se da diferença cultural, o que ele aproxima não será jamais um sentido positivo da cultura-verdade mas, possivelmente, aqueles discursos que formam territórios a partir da invisibilidade. Aquele dizer que fez com que o espaço do xamã se delimitasse, devido ao qual dificilmente conseguiremos dissociar território e magia. Olhar o céu e ver o destino (misticismo de origem da linguagem abordado por Walter Benjamin); paralelamente: olhar o edifício e ver a arte, olhar a obra e ver o artista. E quanto tempo demorou para que esta cidade hiperreal do Sonho de Dom Bosco e do Relatório Cruls se tornasse a "Brasília Capital da Esperança" de André Malraux? (A idéia de "ter" uma representação atua ao ser atualizada sob uma roupagem da moda). Ocorre que, nesses lugares atribuídos e sonhados, estão contidas as variáveis estáveis de que precisamos, na medida em que são lugares de identidade por excelência, onde um povo se pensa radicalmente estático e sólido, onde pode, com isso, doar seu corpo para a nossa experiência: sua certeza, minha obsessão!

Desse modo, valendo-se da certeza alheia, um Marquês - da peça "O Veneno do Teatro", escrita pelo catalão Rudolf Sirera e adaptada pela cia. Veneno do Teatro - ordena que o mordomo de sua residência tranque a porta e vá embora com as chaves, com objetivo de testar as próprias teorias fisiológicas em um ator renomado que o aguarda na sala para ser recebido sem saber o motivo do convite que recebera. O anfitrião pretendia dirigir a encenação de um texto seu e, para tal, havia preparado o cenário do local onde o personagem Sócrates narraria a própria agonia após envenenado de cicuta. E seria até mesmo a morte uma representação? O que pretendia o Marquês era chegar à essência de uma encenação última, conquanto fez o próprio ator acreditar-se envenenado, a título de estímulo à familiarização com as idéias de um obsessivo diretor-cientista, para depois, de fato, provocar o envenenamento. O ator, que acreditava poder reproduzir várias vezes perfeitamente uma atuação idêntica, irá representar a cena fatal e única, no palco montado para engrandecê-la e dar-lhe qualidades críveis de uma autêntica imitação. Como seria a humanidade, entretanto, sem representações? Dizia o Marquês (na ambientação de final do século XVIII) que seu status social e fortuna, assim como as desigualdades entre ricos e pobres, também não eram mais que convenções e, portanto, seriam reversíveis. Qual a diferença entre vida e teatro, então? Talvez a de que as convenções deste último têm positividade no discurso, enquanto o que chamamos de "real" omite as idéias de palco, figurino e cena - mas trata-se de omissão, não eliminação... Lembro-me de ter visto certa vez um grupo de dança executando uma ação ao ar livre e, inicialmente, duvidar sobre o que seria aquilo, até colher elementos suficientes para me fazer concluir tratar-se de representação, não somente de pessoas que gostavam de correr para um lado e para outro.

Na década de 60, surge uma arte americana voltada para esses "palcos" de visão - elementos que nos dão uma intenção no olhar e separam um envenenamento real de uma morte teatral -, do qual faz parte a idéia de que a galeria de arte já é, por si, algum tipo de representação estrutural contida no terreno de possibilidades que o saber legitimado lhe reserva. Les Levine realizou um gesto notável: simplesmente instalou duas lâmpadas monocromáticas de vapor de sódio na Fishbach Gallery (Nova York), que desapareciam com a sombra dos espectadores e, segundo Brian O'Doherty (No Interior do Cubo Branco), "recriavam o espaço" - ofereciam-no à visão! O mesmo ocorria com as pessoas que entravam no ambiente, totalmente privado de cor pelas lâmpadas. O grupo Rosário, com um "Ciclo de Arte Experimental", também realizou um experimento alquímico nesse sentido, quando esperou a entrada dos convidados na galeria totalmente branca e vazia para incorporar o mesmo espírito do Marquês que comentamos há pouco. Os integrantes fecharam hermeticamente as portas do recinto e se puseram a observar a reação dos "aprisionados", que depois de cerca de uma hora quebraram os vidros da janela e saíram (Lucy Lippard - Seis Anos: a Desmaterialização do Objeto de Arte de 1966 a 1972 - citada por O'Doherty).

O artista, convenhamos portanto, ocupa seu locus privilegiado, quando os visitantes acreditam poder vê-lo na alma a partir da obra. E como pode ser que a alcunha de "fauve" fosse dada a Matisse - fato lembrado na retrospectiva que está na Pinacoteca. Leram a sua alma a partir de algum medo próprio - fauve, selvagem, bárbaro... Projeção que talvez guarde um pouco de objetividade, ou pelo menos de auto-objetivação no que o Outro (o Matisse) manifesta de não-comum e utópico. Justo nessa ambivalência da afirmação, embebida pelo lugar-comum que a enuncia, ela mesma pode ser utilizada para compor uma noção geral de tal lugar. Muitos diriam hoje: é que o artista foi tão revolucionário que a civilização que o via não o entendia. Esse é só um exemplo, superficial, para mostrar o quanto as almas designadas por palavras absolutas são, na verdade, uma relação de inter-dependência, um ver-a-si em um outro, cujas fórmulas já nos são relativamente familiares ("eu não sou eu, nem sou o outro / Sou qualquer coisa do intermédio" - Mário de Sá-Carneiro...). Trata-se de um campo experimental da arte, deparado com certa indeterminação constitutiva, sobre o qual ouvi a crítica de que é incapaz de mudar a realidade social, acompanhada da acusação de ser elitista. Atua nesse nível uma disjunção radical entre público e arte contemporânea, que às vezes parecem acreditar que o embate neutraliza consequências históricas e culturais e a oposição anula a interdependência dos discursos. Ilusão: por que a discordância também participa na formação de configurações territoriais e históricas.

Realmente, esse tipo de crítico notou, de alguma forma indescritível, um elemento estranhamente mantido em relativo sigilo na prática da intervenção como forma de arte: a atração de altos investimentos do governo e privados, às vezes da ordem dos milhões de dólares, para fazer com que o vazio - o ar, o invisível - se dê a perceber (observo que o vazio costuma aparecer muitas vezes ao lado de uma ideologia de "terceiro setor" e de lindas logomarcas público-privadas). Creio que esse aspecto carrega não só uma simples ambivalência, mas de fato, contradições. As mesmas de que me lembro quando algum doutor em sua própria obra (esse campo hermético e estrito que a Academia inventou, chamado mais apropriadamente de Retórica do Umbigo) lança contra mim a acusação de ser um "funcionário público" e não um "artista". O caso poderia ser matéria das piadas de Ari Toledo. Assim também podemos dizer que Carlos Drummond jamais foi poeta, ou que o campo da poesia mesma seja totalmente irrelevante, tendo o funcionalismo público desenvolvido melhor sua matéria do que os próprios "Escritores de Verdade". Parece insano que alguns professores concursados que nem sempre conseguem vender seus vazios a preços suficientemente caros para se sustentarem com a ostentação ilustrada da alta sociedade brasiliense, apresentem esse tipo de argumentação... Cabe observar que aqueles vultosos investimentos, no Brasil, dificilmente vão direto para os artistas visuais, cujo sustento, observo, vem de outras atividades, muitas vezes mescladas com a venda ou exposição de obras. Por isso a tese de elitismo da arte fracassa não por estar errada, mas por ser simplista. O problema de se almejar uma elite para a arte é bastante complexo e não é à toa que eu, Drummond, Mário de Andrade e outros coitados não somos artistas. Trata-se de um conflito típico da condição doentia onde quem faz a acusação precisa dela em seu campo de alívio, de descarga (alguém tem de espiar por sua insuficiência), já que apesar de alimentar uma condição social desigual e uma sociedade quieta, recusa-se aos sindicatos e associações, os quais são sempre, quando aparecem, realmente uma farsa (será a Ordem dos Músicos um dos melhores exemplos dessas entidades?). Entretanto, a arte-espetáculo, uma estrutura de poder enorme, pode simplesmente bater na mesa e dizer o que quer, como a criança mimada, enquanto aqueles outros pequenos artistas sem muita voz e frustrados - frustrados por que sem privilégios -, nunca estão sozinhos. Sua infelicidade costuma residir na dinâmica da estrutura-poder em que o seu cachê baixo dá trabalho para grupos grandes de pessoas, entre as quais não está ele mesmo em "boa posição financeira". O que ele ganha a vida inteira dando aulas não pagaria 60 segundos de propaganda em uma grande emissora de TV. Esse é o sujeito especulador de hoje: tentará vender sua obra cada vez mais caro, contra a tendência de manter o congelamento do preço baixo de seu trabalho. E nisso está não apenas um dos fatores de queda no nível da docência, mas o motivo pelo qual a arte do poder ideológico que aspira o mundo do espetáculo será sempre subjugada. Talvez por isso, presumo, surja o tema "ser ou não ser" (oh, como dói não ser artista! haha), no qual Wols já dizia, em um poema: "arte, para artistas": que eles tomem conta de seu terreno como pit-bulls universitários e que eu e outras personas continuemos nos apropriando de sua obra - talvez como cientistas malucos ou funcionários apaixonados com "desvio de função" -, é o que interessa, para ver esse "mundo de artistas" se mostrar mais e melhor. (veja só um exemplo de coisa que podemos chamar de "Mostra de Arte", uma grande "aspiração" coletiva: quem quer pão.)

Mas há outro aspecto do denominado "elitismo" que merece atenção (e não está fora das contradições apontadas acima). A arte questiona seus próprios limites, com isso atua no limiar com a vida cotidiana, já que bastaria lançar sobre essa um olhar distanciado para torná-la uma possível obra. Trata-se da retirada do aspecto sacro que envolvia as imagens antigas e levou com que as condições imediatas de acesso à obra, sua materialidade ou imaterialidade, se tornassem acessíveis ao cidadão comum, sem que esse tivesse de dominar um código bíblico ou saber grego ou latim, isto é, sem partilhar de uma noção hegemônica do saber. Mas quando falamos de "condições imediatas", excluímos erroneamente a possibilidade quase sempre recorrente de que toda uma tradição sustenta as obras dos dias de hoje - e sempre foi assim. Desse modo, a acusação de hermetismo não fará sentido quando não considerar o que chamarei por enquanto de "discursos ou comportamentos artistas" - empreendidos pelos que se auto-denominam artistas ou teóricos (theós=deus) de arte (este texto, por exemplo). Talvez por isso, ouçamos com frequência: "se o público não compreende, que troquem o público". Essa espécie de batalha se torna bem evidente em instalações como "Territórios Soprados" e outra que ela cita muito diretamente, "Toca" (realizada também na CAL por Matias Monteiro e Luciana Paiva), como em inúmeras outras. Um testemunho da querela pode ser lido na crônica A Exposição, de Jason Frutuoso. Aqueles dois momentos dividem as opiniões entre os sujetos que conseguiram experimentar algum fenômeno e os que simplesmente se sentiram ludibriados ou não-correspondidos em sua expectativa particularista (para não dizer individualista) de encontrar uma "expressão do Grande Gênio". De fato, porém, pouca gente ousa ir além desse "contato imediato".

Quanto à apreciação da obra esperando dela a emanação de qualquer força que modifique a relação entre classes: pode significar a crença enganosa de que só é válida uma arte panfletária ou que o acesso à cultura dominante veiculada nas galerias pode dar dignidade aos pobres, quando esse acesso só dá conta de uma parte da guerrilha cultural que um dia talvez - assim espero - seja re-instalada. E qual seria afinal o teor dessa "acessibilidade"? Assistencialista? Propagandista? Talvez racista? Mas quem teria que mudar o mundo se o quisesse não seria o próprio público? De que adiantaria colocar uma pintura de Rembrandt pendurada na máquina de caldo de cana de uma pastelaria da rodoviária de Brasília, sob alegação de que ali o fluxo de gente é alto? Não seria isso um atentado ao saber local e à cultura do povo? Afinal, não é a tela que contém a revolução - mesmo que recorramos a uma "Liberdade" heróica de Delacroix ou a um sanguinário massacre do poder instituído pintado pelo anarquista-pontilhista Pissarro (isso seria tornar essas obras uma baboseira sem limites). O povo que se encontrava e sentava para conversar nessa rodoviária projetada para ser o não-lugar por excelência contrariava o fluxo estabelecido e, nesse sentido, sim, poderia ter sido um embrião revolucionário capaz de forçar novas leituras da sociedade e relações de produção diferenciadas. Só não será incoerente querer que a arte transforme, como mágica, a sociedade, no dia em que se assumirem posturas que os mesmos defensores dessa transformação condenam, mas que não são novidade. O mais hilário seria criar um happening anti-governo ou uma série candidaturas-performance capaz de colocar um monte de malucos criativos sem precedentes na Câmara, Senado e, o que parece um pouco mais fácil, na Presidência da República. Bem que não seria pouco engraçado, sobretudo quando uma sociedade cruel e desigual se re-configurasse sob a bandeira de um patriotismo de artista, que tomaria totalmente também os tribunais, substituindo uns facínoras oportunistas atuais por novos.

Esses são os pensamentos que achei importante compartilhar ao término de "Territórios Soprados". São anotações um pouco rápidas, talvez sem muito esmero e por isso com algumas qualidades de um ensaio e aparente insuficiência de crônica jornalística. Mas essa despreocupação parece a única possível no momento em que pretendi anotar e compartilhar muitas impressões que a ocasião me propiciou.

Para não passar em branco, pontuo que foi instigante ter presenciado uma divisão abrupta das opiniões das poucas pessoas que foram até a instalação. Além disso, também pude viver muito frontalmente certa amplitude do que se inclui no termo "representação" e algumas ilusões que a nossa democracia representativa nos reserva, sobretudo quando propus agregar à obra a ser exposta a idéia de não-curadoria. Isso tem tudo a ver com o questionamento de certa configuração territorial legitimada. Tive até mesmo algumas hilárias dores de estômago quando um moço auto-denominado (e por telefone) "representante do curador" avisou que "não pega bem uma exposição sem curadoria" e encomendou textos adesivos com o nome da figura ausente. Acho o Senhor Curador, cuja identificação subscrevia o título "Territórios Soprados", pertinho da expressão "Artista: Allan de Lana" (ah, redenção: Artista com A maiúsculo!) até muito simpático, brincalhão, piadista. Ele, que depois mostrou ter compreendido a obra como ninguém, costuma fazer belos discursos sobre artistas brasileiros, mas sequer sabia o que estava à sua espera na Galeria Acervo da CAL (olhar e conversar pra que, quando se pode ser evocado e representado como Tele-Entidade Elevada mesmo depois da morte ou durante uma simples viagem?) Obviamente, por uma questão de "representatividade", eu mesmo destaquei as letras de seu nome, para não decepcioná-lo, e mantive afixados somente o "a" e o "r" (ar) de uma das sílabas. Esse é um relato importante, pois, não sei por que (pelo menos faço de conta que não sei) a imprensa resolveu divulgar a exposição sob o título "O Claro e o Escuro", em uma tentativa de riscar o seu caráter crítico e sua ambição política (isto significa: tentar abanar o sopro), para estranhamente tentar levá-la a público como se fosse arte sacra. Mais engraçado foi os jornalistas quererem saber: "qual a simbologia da luz no seu trabalho?". E nem sei também por que eu disse que era a auréola de Alá antes de explicar o dogma figurado de Santo Agostinho de que a treva reforça a luz - isto é, de que a Igreja e Deus (luz) precisam tirar proveito da Miséria e Desgraça (treva) - e de minha predileção pela negritude absoluta, já que sem a idéia de iluminação como símbolo a escuridão não figura o mau, mas sim o escuro como uma das possibilidades mais construtivas para a existência humana e a fertilidade do imaginário. Nelson Brissac Peixoto aborda lindamente o assunto em seu livro Paisagens Urbanas ao falar do fotógrafo cego, vivido na íntegra por Eugen Bavcar, que precisa enxergar a partir do contato com as massas de ar, modo como cria sua experiência do real e, no lugar do pousar narcísico dos modelos fotografados crentes de serem exemplares de beleza, faz surgir a cumplicidade do olhar e do deixar-se ver.

Agradeço a Casa da Cultura da América Latina, de coração, por ter deixado que eu utilizasse seu laboratório-galeria para a experiência de cumplicidade do olhar que em parte relatei. Seguem outras fotos...



As imagens mostram:
- módulo "O sopro" - aquarela sobre papel emoldurada e parafuso. Os resíduos do pó oriundo do furo onde foi afixado um parafuso a 1,70m do chão foram deixados sobre e em volta da aquarela emoldurada, que flutuava a uma pequena altura, falsamente recostada na parede;


- módulo "Por favor, não ultrapasse a linha branca!" - corretivo de texto, teku-teku miniatura e pedra.

domingo, agosto 23, 2009

Territórios soprados - algumas notas...

Alguns visitantes têm fobia do com-preender, preender ao estar junto, sentir e conduzir o sentido a partir de sensações atuais. Temos perdido a capacidade de sentir e ganho acuidade em nos esquivar do instante. Temos sufocado o interesse pelo mundo em nome da influência política e de uma academização do olhar como instrumento de sobrevivência de grupos restritos, cuja luta por auto-preservação é tão forte que o que exprimem esses grupos pode ser visto sob a ótica da normalização pura e simples. Eles não podem chegar senão até o amontoado de sucata teórica-retórica que os alimenta, com uma produção intelectual de representatividade (representação enquanto instituição ampla do poder, na qual o objeto ou ser representado mesmo está ausente e só se faz notar em uma dada configuração estrutural. Há uma configuração estrutural que leva a crer em uma produção intelectual inexistente, mas que poderia ser recriada em um mundo fantástico literário - fica minha sugestão).

Na abertura havia uma senhora em busca de atenção e legitimação de seu status como alta representante das relações internacionais. Afirmava que era um absurdo ninguém recebê-la como uma grande representante!!! E que não havia nada para ser visto na galeria vazia. Representações dessa natureza foram neutralizadas por negrume, vazio e anti-curadorismo, o que gerou desconforto e agressividade.

Hoje, Territórios Soprados precisa de manutenção - aperfeiçoei as luminárias que estava utilizando para que não requeiram mais manutenção no futuro. Amanhã devo instalá-las novamente.

domingo, agosto 02, 2009

territórios soprados
de 5/8 a 6/9... apareçam: abre terça-feira 4 às 19h30 na casa da cultura da américa latina - scs q.4, ed. anápolis (rua das lojas americanas) - galeria acervo.

e na galeria cal...
i-m-p-r-e-s-s-o-s, de Carol Lisboa e Thiago Godoi, curadoria de Polyanna Morgana!!!



quarta-feira, julho 08, 2009



nuvens passam...
Se olhamos daqui de longe, vemos-nas quase sempre brancas, mesmo que tenham sombras bastante escuras.




_____________________

meu nome e de outras pessoas foram colocados como signatários em manifesto pela morte morrida da obra de arte, escrito por um alemão Frieder, em 2001. ao que parece, o manifesto foi levado também para exposição em galeria junto com uma privada, na cidade de stuttgart. mas como poderia a obra de arte morrer de morte morrida - morte natural - se ela não é um organismo biológico? o escritor só pode ter sido um killer meio preguiçoso, cheio de preguiça preguicenta - preguiça natural.

quinta-feira, junho 04, 2009

divulgações

1) http://losbois.blogspot.com - dando nome aos bois - revista de arte.

2) em breve, na CAL/UnB...




allan de lana
Territórios Soprados







quarta-feira, abril 15, 2009

76
à noite, vamos devagar,
cegos da treva
planadores sem amar
amarga luz da luz
reluz-ida, luz sem amar
reluz-ida noite, sem amar
o vento é triste
leva longe não sei o que
do meu corpo sem cabeça.
aves populosas choram
essa pausa permanente
de não haver nada entre elas.
não há nada
não há, nada.
está tudo bem,
não tem nada, não!
não tem nada, mesmo!
e voltam a dormir, o sonho.

domingo, abril 12, 2009

paisagem e monumento aos mortos



Os heróis brumavam na bruma
Escondidos, como o rio descendo à garganta
Sob o véu que encobre e acalanta
E atravessa dias, noites... no vento
(Um stratus nevoeiro é que o carrega).



De um lugar em mim, essa voz aos mortos canta

a razão dos vivos, que na terra faz o monumento.

Seu robusto guardião do nada é que anuncia mudo:

Paraíso dos bravos que lutaram...

Um passante ali viaja, dissolvido em fundo alento –

na escuta de seu peito, a palavra dos que amaram:

Oh, dance! dance na escuridão da noite,
Pois o tempo... o tempo nos contará tudo!


Mais acima, há uma estaca onde passavam

elevadas nuvens no muro da vertente,

leves cúmulos de acetinado veludo

que, de tão lentos, o céu ainda transmudam.

Seus cristais são como a rocha, mas desfazem de repente,

como o arquétipo do homem que desbrava

(infinito que sustenta nos cabelos seus, fluentes).

















constelações



domingo, abril 05, 2009

hm, que dúvida acometeu há poucos dias os "diálogos" entre artistas e ministério da cultura! com as novidades propostas pela lei rouanet fica ainda mais evidente que o debate sobre arte e financiamento é indispensável. estamos assistindo e participando de um momento histórico daqueles em que as instituições tomam com mais determinação o seu poder de intervir politicamente na conceituação do que é arte. uma retomada e aprofundamento impressionante do vínculo arte-estado-capital-religião-academia, em que o Estado pede a legitimação da academia mas interfere diretamente nesse processo de validação, comandado por instituições e moralidade religiosas e pelo investimento privado, sempre sob o fundo do capital. o marketing interfere diretamente no conteúdo da arte "permitida", ele autoriza a exposição e faz esse circuito funcionar, enquanto o mercado ainda encontra (pois ainda precisa encontrar) valores de censura e possibilidade, identidades fixas - é necessário aderir a uma cultura do tudo ou nada. retornamos, em algum aspecto, a uma europa neo-clássica talvez muito pouco tropical, nada brasileira, e onde o rei não está nada despido, ele está, na verdade, trajado de grande investidor moralista. pessoalmente, com essa anotação rápida, acho que estamos falando de uma estrutura mercantilista velha que emerge agora à nossa consciência, é um momento de oportunidade, e passo a questionar com mais força se devemos continuar batalhando por uma arte plenamente autônoma e intocável, nos ideais modernistas, uma vez que o que a espera - tão infeliz e inocente -, no fundo, não é a intocabilidade, mas a tocaia como plena tocabilidade, um alçapão que sempre a conterá. pagaremos ou veremos patrocínios absurdos para ouvir, por exemplo, o entorno, o nada, o vazio, a imitação de John Cage pisando em uma banheira, com a diferença de que agora alguém sempre dirá: sou o culto gênio que sabe e pode fazer assim, que está autorizado a batucar em uma panela. a distânica entre arte e público é, em grande parte, solicitada pela mercantilização do nada, quando o nada deveria ser decretado não só um patrimônio imaterial da humanidade, como imediatamente lançado no domínio público e as escolas deveriam alertar para a capacidade tão não-democrática, tão não-autocrática, mas da coisa-pública, não-votável, incandidatável e inelegível que representa a possibilidade de olhar, ouvir, sentir, propor, inventar. o indeterminado pode ser a experiência de todos se a genialidade autoral e a idolatria não sustentarem as possibilidades de manter as roupas do rei intactas. precisamos atenuar o papel das instituições nesse processo, é necessário que o artista participe ativamente das condições sociais de emprego, que não se esquive do comum dos seres e trabalhe para criar fundos que auto-sustente as suas atividades de criação e reflexão. só isso irá acabar com a cisão entre arte e público, só isso também é capaz de não sufocar o que está por vir, de não repisar a contra-cultura transformada em artigo chique, popularesco, massificado e sem desmembramentos políticos mais graves.

___________________


O começo (poema para ler três vezes ao ano e sentir como as camadas da pedra)

Os começos todos são
E só vêm da intenção.

Há graus em que estão
Eles em extensão –

Percorressem idéias,
Mas os fatos, não,

Nem os despertos dias –
Imagens sim, se lhes dão.

O real: ilusão intencional:
Saber os versos que sei
Pensando naqueles que são.

Assim, paisagem e mundo natural
Veram verdade vórtice, disso que direi:
A frase lida se diz da tua extrusão.

Vibe, vida e verdade sós, não tenho,
Senão a imagem que um humano cetro
De tempos velhos e pesado lenho

Colocou em frente aos cheiros e ciclos.
Pois se da noite lhe perfilava um metro
A imagem se aprontava em fogos ligeiros

E de ligeireza permanente até esta ordem:
Que os fogos de dentro parem e a névoa
Dos cumes sejam ser que nem tudo pode!

Desde então é que de névoa há jeito
E de cume, vibe, vida, vórtice e verdade:
Palavras desnaturadas do peito – objetos,

Do fogo ligeiro arrancadas,
Fez-se o começo,

Não só o do vórtice,
Antes fundado em giro,

Da vida que ao viver
girasse até o suspiro,

E por aí veio a ser
Não apenas o da história,
Mas também do adiante,

Até parecer que, talvez,
Tudo não mais levante,

Que isso tudo, uma vez
Fora do queimar ardente,

Não mais recomece
Apesar mesmo do começo.

Que o que se arrefece,
Sendo dado humano o de seu nexo,

Julgar-se mais certo sem errar e chamas.
E o conflito, daí, sem franco amplexo,

Cada ditador tendo a certeza do que é certo
Empunha o cetro, já multiplicado por tramas,
Impermanente, em mãos de poder, do incerto.

E na violência parva fica evidente
Não que os fogos são diferentes
Mas que a mão que do fogo arranca,

Para impor o seu começo, história e ideal
É mão-contingente.
Pensas aceitar dela, nem um real, tostão,

E o fel jogarias naquela amarga circunstância,
Com circunstante e preciso corte, mais pungente,
Ardendo em popas de exógenas significâncias,

Mesmo ao descaber-se a voz do transcendente avesso:
– "És pássaro rijo de vil começo, ou tens de!"
Sem ver as asas que cultivas, de ave sem endereço.

sábado, fevereiro 28, 2009

notas da partida (ou disputa?)
- escrito em outubro de 2008, postagem com pequenas adaptações

um tema recorrente entre os produtores de arte é a integração da obra ao mundo social, coisa óbvia, mas não simples. pode ser notada, porém, enormes variações nos olhares sobre o tema, quase todas de certo modo embrutecidas e simplistas, sustentadas com crenças e afirmações que poderíamos sem problemas converter em perguntas. há nelas, contudo, um ponto de confluência. a opinião geral concorda que o acesso público a bens ou fatos artísticos requer investimentos financeiros ou materiais, que dependem das pretensões de cada projeto e podem até se restringir aos custos de montagem. mas, quando a questão envolve mercado e profissionalização é que se costumam armar campos de batalha sérios, mas sem contribuições a oferecer - prevalece o debate pelo debate. por exemplo: ouço constantemente a idéia, quase nunca aprofundada, de que os grandes patrocinadores beneficiam projetos de menor importância. há um erro aí, como também em toda crença, pois tal pensamento, se possui razões, as omite, expõe somente uma ôca máxima e parte dela para outros argumentos apoiados em um nada. como veremos, esse exemplo permite tocar pontos-chaves da questão inicial: a integração da obra em uma cidade como Brasília ou no mundo regido por relações financeiras muito proeminentes, às vezes mais que todas as outras relações. há uma certa quantidade de artistas - aliás, muito grande - que não sustentam só a própria imagem, sozinha e pura (pretensão que aliás não passa de uma tolice irrealizável, na medida em que certa obra se torna pública e sua identidade, portanto, relativamente aberta), mas só a constroem selada à das instituições, como duas caras de um mesmo ser.

a frase apresentada - "os grandes patrocinadores beneficiam projetos de menor importância" - poderia se tornar um conjunto de questões. em primeiro lugar, caberia perguntar qual é o critério que determina esse menor valor de um projeto em relação a outros e ao meu próprio. tenhamos um cuidado, porém: a questão tem de ser desmembrada em outras, senão levará novamente à afirmação, como ocorre sempre que o questionador se julga vítima e, sob essa imagem, nutre a pretensão de entidade superior e mais confiável que as outras, pois capaz de sofrer como um humano lastimoso. desmembremos: o que é efetivamente esse "valor"? independente da minha própria existência e da outra entidade considerados individualmente, o que seria tal valor, ainda que um artista consagrado morra ou a direção de uma grande empresa mude? que tipo de construção a idéia de valor traz e como poderia assumir sentidos opostos entre a minha razão e a de um outro sujeito, de forma insuspeita, e ser dupla e contraditoriamente determinada? em outras palavras, como algo que dado produtor cultural ou um "grande artista" julgam universalmente inquestionável pode ser, ao mesmo tempo, questionado por um "grande patrocinador"? isso me parece decorrer de uma falha sempre repetida, mas nunca esclarecida. Também remete à existência de forças e poderes que determinam os dramas pessoais, as insatisfações, como um rio caudaloso atrai comunidades para perto de sua foz e torna uma região habitada. Aqui se situam as inquietações sobre o problema do julgamento - estético e, também, moral.

outro conjunto de questões refere-se a tal grandeza de uma entidade. sabemos que essa qualidade não é atribuída só pela quantidade efetiva de dinheiro que a entidade destina aos seus empreendimentos, mas pelas parcelas e promessas de valores que pratica e divulga. entre esses valores está o dinheiro, desde que este não seja considerado só materialmente (como o dinheiro - papel e moeda - que usamos para comprar um misto-quente), mas também e principalmente na forma virtual, como elemento capaz de preencher a grande e medonha bolha econômica que há poucas semanas conhecemos "de fato" (quando escrevi isso, havia mesmo poucas semanas da divulgação da crise). faz parte dessa investigação preliminar destacar o fato de tal dinheiro ser determinado por outros valores. ele mesmo, pelo menos por enquanto, é desprovido de vontade e, ainda que pareça ser e congregar em torno de si toda a espécie humana, há um outro lugar, menos passível de percepção em termos materiais, localizado na causa maior da crise que, como acompanhamos nos jornais, tem raízes no consumo de expectativas. e "consumo de expectativas", "especulação", "empréstimo a juros baixos e longos prazos" e "endividamento" são atributos que nenhum outro animal pôde desenvolver tão bem quanto nós, humanos. outro atributo de grandeza são as posses materiais ou os bens e ativos comprováveis... assim, sei que uma empresa estatal cujo patrimônio líquido ultrapassa os trilhões dificilmente deixará de pagar um de seus contratados - desde os contadores e faxineiros até a companhia teatral que se apresenta carregando sua marca. além disso, poderá cobrir um volume de gastos com um projeto que nenhum empreendimento familiar ou individual tem condições - por isso é tantas vezes privilegiada por todos aqueles grandes produtores que sempre reclamam de burocracia, lentidão, excesso de fiscalização... percebemos imediatamente que essas reclamações tentam forçar a inexistência de controle e auditoria nas instituições - o que obviamente, será sempre um desejo falido. mas também há valores de marca trabalhados pelo marketing, publicidade e outras ações de veiculação, de natureza bem distinta de valores altruísticos que levam ao "apoio incondicional" da cultura. digamos que existe aí um esforço não apenas cognitivo - de compreender as dinâmicas da sociedade e adequar-se nelas - mas, na medida em que se busca aprofundar raízes, o que uma empresa faz está no campo da construção ou, pelo menos, da modelagem - ela tem certa influência sobre os modos de vida e por isso inscreve-se efetivamente no mundo.

o problema que está sugerido, portanto, diz respeito, primeiro, ao julgamento da obra de arte (por que isto ou aquilo é bom e merece ganhar dinheiro para ser visto pelo grande público? Pergunta respondida de formas diferentes dependendo de quem a faz), depois, ao jogo entre produtores e instituições para que o público tenha acesso a espetáculos, obras, diversões, seja qual for a legenda utilizada. essas duas coisas podem ser tratadas em separado, mas interferem-se mutuamente. tal é o campo que pretendo explorar em algumas postagens (sabe-se lá quantas). não se trata de uma escolha à toa, mas de reação ao espanto de notar o quanto as instituições têm ganho qualidades sobrenaturais na cabeça do povo e dos artistas, que muitas vezes se dizem vitimados. Elas acabam sendo sobrevalorizadas como entidades cem por cento estanques, constituídas somente por si mesmas, auto-determinadas, mesmo quando estão sendo criticadas. ao mesmo tempo que lhes é outorgado socialmente o poder de agentes autônomos da arte e da educação artística, há e sempre haverá reclamações constantes de artistas e seus representantes, por não terem se sentido correspondidos de algum modo. espero que a abordagem provoque algumas mentes inquietas a pensarem a própria autonomia e uma outra configuração da economia artística. não julgo a priori que devam ou não continuar existindo instituições, nem artistas, nem mesmo buscarei refletir o grau de participação que os diversos agentes teriam nessa nova economia - embora confesse que isso seria um belo platonismo. mas podemos inquirir se tudo pode ser transformado com a valorização de outras formas de criação poética, produção e publicação das obras - aspectos que hoje em dia se idealizam separados demais, talvez por uma questão contábil, mas na prática permanecem alimentando-se mutuamente.

aqui no eau de parfum, postarei alguns textos espaçados, tratando dos dois tópicos já introduzidos:
- do julgamento; e
- do diálogo, tensão e escolhas situados entre produtores de cultura e instituições.

as perguntas sobre a renovação poética e a economia artística (em sentido lato) virão ao longo dos textos, quando pertinente e também, espero, no fechamento, caso eu chegue na conclusão desse trabalho.

Arquivo do blog