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allan de lana

sexta-feira, junho 27, 2003

tá... o blogger acabou de acabar com esse blog, como você pode ver, pelas interrogações no meio do texto. Não posso arrumar essa barbeiragem do programador do blogger, por isso, adeus a todos.

viver por mim: viver sem mim

viver por mim: viver sem mim
o último frio é longe
o primeiro quente não tem fim
o pulso impulsiona

para onde o ponto espera
a dúvida não distenciona
onde longe o amor caminha
quem vive por mim vive longe

não volta com pressa
nem salta do ônibus antes do destino.
O amor que assim ama é virgem sempre

não é estéril, nem inocente;
interrompe o soneto à descoberta.



O que est? acontecendo?
Um jornal se transformou em um livro contra-o-jornal, que conduziu a outro livro, que conduziu a outro. De repente percebi uma relaç?o de tudo aquilo com outro livro ainda e mais cap?tulos avulsos de uns outros três livros. Sem querer, emprestei um livro que n?o seria usado no trabalho, mas que continha exemplos diferentes e documentos mais completos do que outro que estou usando também para tirar casos concretos... etc...
Acaba que aqui do meu lado têm 7 livros s? para esse trabalho mais algumas xerox de textos e s? a introduç?o, que ainda ser? acrescida de uma pré-introduç?o (pref?cio) j? extrapolou o limite de p?ginas da pesquisa. Ahf! E isso porque eu n?o estou desocupado. E isso porque eu estou mesmo é deprimido e de luto. Acho que uma caracter?stica minha companheira é o entusiasmo. Um entusiasmo frio.

sexta-feira, junho 20, 2003

Uma coisa há que se dizer que o Allan Kaprow disse:

"A riqueza e a variedade dos estados de consciência nas artes hoje (1969) são tão grandes que é difícil deixar de admitir os fatos seguintes:"

ele enumera alguns fatos muito relevantes e;

"Que o pó nas camas e os restos nos depósitos industriais são mais atraentes que as exposições (muito em moda hoje) de sucata espalhada."

segunda-feira, junho 16, 2003

pesquisava pela internet quando entrei em uma página do CorreioWeb que falava sobre a revitalização da gravura. Lá, na matéria de fevereiro de 2003, dizia que Maciej Babinski havia morrido há alguns anos. Estranho... Tem menos de um mês que assisti a um pedaço de palestra dele. O auditório estava cheio. Eu não estava vendo fantasma sozinho.

segunda-feira, junho 09, 2003

tem Festival de Internacional de Cinema Ambiental em Goiás Velho de 10 a 15 de junho. Vai ser bom.

a respeito da minha falta de tempo para escrever no blog
Não tenho tempo para escrever sobre isso agora.
Acabei falando sem querer em uma das essências do Minimalismo: não existe mais tempo. O tempo como ainda começamos a nos adaptar é mais uma projeção virtual do espaço (ou dos espaços), uma projeção online e em uma segunda ou terceira instância de desarraigamento. Primeiro a mercadoria produziu o relógio, depois o relógio de pulso (pelo maior de todos os não-artistas brasileiros de todos os tempos), que confortou bastante o humano em seu estado de "quase-coisa", extensão orgânica da ferramenta inorgânica (ou virce-versa, como é sugerido por Bresciani); agora, inacreditavelmente, se recorremos ao passado, só podemos fazê-lo se o colocamos em situação desumana, artificial, concretamente impalpável, cuja reprodução provavelmente terá a mediação da máquina e dos simulacros que ela produz, e caso contrário ainda mais nos será estranha. Entramos em uma terceira morte da natureza, por meio da qual tudo se torna irremediavelmente volátil junto com a nova máquina; já se pode falar de memória humana do computador, a extensão do meu cérebro é o HD. Ele é auxiliar da minha razão, que tem que ser econômica para ser espacialmente viável, porque nada mais é viável em termos de tempo, de gênese, e a vida tende a acabar com tudo o que não seja meramente conceitual, que não despreze a matéria completamente.

sábado, junho 07, 2003

Duchamp: "Aliás, são os outros que morrem".

quinta-feira, junho 05, 2003

Já não é mais entre períodos curtos que a gente se encontra

Antes eu olhava pra você sem saber se estava perto.

Agora só posso vê-la refletida no espelho da minha estufa –

Culpada por esses raios sem-terra não-aprisionados e sem rumo.

Na verdade eu nunca soube da distância que desencontra.

A antítese traça uma linha firme.

Eu não tenho as antíteses desse romance.

Nós estamos rebolados.

quarta-feira, junho 04, 2003

Só nos loucos de revolta e indignação contém felicidade.

Não vou enxertar em mim sua vegetação
Estou cansado a ficar dormente.

Seu brinquedo me vem como ameaça.
Por trás de sua massa grilos assobiam –
Lá de onde você sabe que merece anestesia
Por isso uns adotam sua alegria
Outros sua inquietação.

Por isso eu não passo o tempo assistindo
Seu jornal contado pelo diretor.

Porque ser branco como a sua letargia?
Até os carros passam porque tudo está parado!

E assim é fácil: porque parado pensa estar se mexendo.
É preciso arrancar a capa do chão e pôr na parede.
Talvez os apaixonados estejam tentando demais agarrar a Lua.

Quem se incomoda?
Só nos loucos de revolta e indignação contém felicidade.

sábado, maio 31, 2003

"Oh, vala materna quase repleta de água lamacenta! Belo esgoto fabril! Engoli teu lodo nutritivo; e lembrei-me do abençoado seio negro de minha ama sudanesa... Quando saí - roto, imundo e malcheiroso - de baixo do automóvel emborcado, senti o ferro incandescente da alegria perpassando-me deliciosamente", disse Marinetti pela boca de Rosalind Krauss.


*Boccioni: Forme uniche della continuità nello spazio

domingo, maio 25, 2003

Galeria da CAL. Uma instalação contém linhas pretas a partir do teto que dependuram muitos lápis "faber castel". Aguém disfarçadamente desenha com um lápis na parede branca. O artista ao ver o desenho se revolta ameaçando pintá-lo com tinta branca. Sua obra, não percebe ele, ganhou independência, ao que devia estar contente. Pergunto então:
- Mas o discurso dessa sua instalação não é sobre desenho? Não é de desenho que ela trata?
Nitidamente as linhas em tridimensão pretendiam contrastes que imitavam uma técnica usada também para imitação (o desenho), fazendo, provavelmente sem o artista querer, com que a mímesis reaparecesse (ela havia sofrido atentado já na arte moderna), mas dessa vez ao avesso: a imitação daquilo que já não pretende representar.
- É... É isso. Mas se eu quisesse que alguém riscasse eu haveria deixado isso claro. Eu teria escrito aqui, ó: desenhe. Se ao menos fosse um desenho bonito, mas é essa coisa feia aí!
Fiquei calado. Vendo aquela obra de arte que tinha virado a independência tétrica do Dr. Frankstein. Só agora ela tinha ganhado um sentido revelador e o autor não percebia isso. Mais uma vez o Gombrich estava certo em sua "Arte e Ilusão": as linguagens são instituídas e disseminadas e a nossa expressão vai-se limitando ao que a gente conhece previamente.
- O transgressor pelo menos entendeu o seu recado. Mas deve ter sido mesmo demasiado transgressor - disse eu para consolá-lo.

quarta-feira, maio 21, 2003

Quanto tempo!!! Primeiro meu computador foi atingido por um raio, depois pegou fogo. Depois que voltou não tive mais tempo para respirar prolongadamente e escrever no blog. Entretanto, tenho vivido "artisticamente" (ou emocionada, expressiva e reveladoramente, até o ponto em que sejam sinônimos), em uma obra de arte tensa e dramática, cheia de contrastes. Estou chegando a um clímax, embora possamos achar o "clímax" um tanto arcaico... Quase posso dizer que viver de maneira emocionada e reveladora implica em matar a arte ou pelo menos desfrutar de seu cadáver ou, na melhor das hipóteses, de seu fantasma. Esse é um tema confuso e por isso interessante para ser abordado, mas não agora. Até!

quarta-feira, abril 02, 2003

Existem inquietações que estou muito longe de entender. Talvez a única ansiedade que eu entenda seja a minha, porque na maioria das vezes meu conhecimento de mim mesmo é mais que suficiente, não preciso saber dissecá-la com teorias nem conceitos que desconheço.

Partindo de mim mesmo, então, meu cotidiano de duas semanas pra cá, na UnB gravemente doente por sua decadência, há indignação. Há gente reclamando por todos os lados. Há também ameaça de uma nova greve de servidores. Há epidemias e os que torcem por elas, que em geral são os que já foram contaminados. A mais grave das epidemias é da Síndrome de Barnaut, muito mais grave que a ameaça de um ebola ou da "pneumonia da morte". Ela é a síndrome da desistência que faz educadores se tornarem ridículos, paspalhões, desastrados e prejudiciais. Basta se lembrar de Colingwood para traçar a linha reta da semelhança entre Barnaut e a "morte" do artista e do ser humano colingwoodiana. Pena que no Departamento de Artes Visuais Colingwood não seja parte de nenhuma bibliografia, e talvez isso faça com que muitos professores pensem que nenhuma relação existe entre a arte que fazem e a aula que lecionam.

Colingwood é o que há de mais convincente sobre a responsabilidade ética enorme que tem um artista. Essa responsabilidade é a causa, mais do que a conseqüência, da capacidade de revelação inalienável de qualquer obra, movimento, gesto, pensamento, palavra... artísticos, pois o domínio das linguagens artísticas antes totalmente intuitivas que as ciências da percepção e as artes e filosofias formalistas deixaram abriram um rombo na lona pintada linearmente desde o Renascimento. Como conseqüência, as vozes estão soltas e tanto o mundo do real quanto do imaginário cogitam a possibilidade de esquisofrenia (não é difícil ver alguém claramente normal se chamando de esquisofrênico): a indústria da moda e as ciências do convencimento consumista, irmãs do Marketing e da Publicidade, fizeram-se apropriar do que puderam até hoje dos tais avanços objetivos; já alguns artistas, em euforia consumidora tentam em série engolir códigos de barra e forçar a arte a comê-los. Algumas vezes, isso dá barato, algumas irrefletidas vezes em que se rejeitam os "priori" e se vale da ação.

Sem perder o fio da meada, a ação artística é reflexiva, ela sim vem junto com a (auto)teoria, e isso também quer dizer que se pode falar em arte da vida, arte da gesticulação, arte da matemática... Todas enquadradas em uma esfera maior da arte do entendimento por via da emoção. Aí está a razão pela qual a Estética nada na mesma pscina que a Moral e a Lógica. A falha ou a desistência do senso de realidade humana dos objetos dessas disciplinas (o belo, o bem e a verdade - já desamarrados de sua base positiva) desestruturam o indivíduo. Os constrangimentos ainda podem levar ao abandono da emoção como uma tática de não-sofrimento: entra em ação, segundo o bacana, maravilhoso e magnífico Colingwood, a morte.

Se minha visão é trágica, basta saber do alto índice de envolvimento de franceses e europeus com o extermínio de judeus na época do Fascismo (em que vivia Colingwood) e da conversão inacreditável dos ingleses de hoje de menos de trinta para mais de setenta por cada cem deles ao apoio dos bombardeios, confrontos e demonstrações bélicas que para os chamados aliados são espetaculares como para um ser normal ir ao circo ver o globo da morte. Os que desistiram, não só os iraquianos e boa parte dos registros históricos sobre o nascimento da humanidade e da escrita (logo, da lógica), morreram, não podem mais exercer sua saúde física e material.

Por aí vai a minha ansiedade, essa agonía de estar vivendo entre um certo número de mortos e doentes em estado grave. Não só um dos coordenadores do curso de Artes Plásticas parece ter abandonado o barco dos lúcidos e amantes da arte (e da emoção) como nos corredores inúmeras pessoas reclamam do caos de não haver professores, das turmas estarem abarrotadas, de alunos de fora da universidade estarem sendo levados para assistir aulas no lugar de alunos matriculados que não conseguiram cursar sequer uma disciplina (nem um crédito) por falta de turmas e vagas... Reclamam como se agonizassem, culpam o CA e tudo quanto poderia ser sua alternativa e salvação, mas não conseguem mais nada além de dizer repetidamente que o erro é de fulano. Assim, o tumulto toma ares de cemitério ou de hospital. Sem possibilidades de amadurecimento pelo debate, os hospitais lotam e falta remédio (como ocorre em Brasília) e o cemitério do Plano Piloto é um caos, todos serão enterrados no quintal do VIS.

terça-feira, março 25, 2003

Todo o meu tamanho
Polegadas achatadas
A se desdobrar uma-a-uma

Pode ser todo
Pode ser tudo

Pode não ser
Acabar
Se perder...

Mas se perdurar.
Pode usufruir
Talvez sem dizer
Talvez sem sentir-se obrigado.

Para mim,
Basta o querer
sem sangrar, sem bater,
Jamais ser derrotado.

domingo, março 23, 2003

horizontalidade-verticalidade
Me agrada muito olhar para o Cacto. É um momento de paz difícil de ter atualmente. O nome do meu cacto é Cacto e foi a Dany que me deu ele de presente. Abraçar e beijar a Dany é outra experiência que desacelera minha loucura televisiva, o stress a que o simples fato de eu ler ou ver um jornal me submete.

Cacto

Se viras do avesso és doce
Se olhas para dentro és macio
Se bebes, não te afogas
E ainda há o que tu reservas.

Se reviras ao verso és medroso
Se olhas teu corpo vês espinhos
Se te defendes não te atiras
E sempre há o que tu reservas.

Se viras meu verso, é que és doce
Se olhas meu dentro, é que és tão macio
Se me embebes, jamais me afogas
E ainda há o que me reservas.

Se me reviras ao verso, és meu espelho
Se olhas meu corpo, teus espinhos
Mas se te defendo, sim, me atiro
E sempre há água com que te rego.

quinta-feira, março 20, 2003

QUERIA AMARRAR O BUSH, O HUSSEIN E O BLAIR UNS AOS OUTROS, BEM APERTADO, E TRANCAFIÁ-LOS DENTRO DE UM QUARTO CUBICULAR COM BARULHOS ENSURDECEDORES DE BOMBAS, MÍSSEIS E METRALHADORAS. Depois a gente decidia o que fazia com eles, esses lixos humanos, vírus do Hitler. Será uma epidemia? Pelo menos na África e no Oriente Médio, esse vírus ataca mais e mais fulminantemente do que o vírus da AIDS, que o mundo já está tendo meios de controlar e evitar.

trabalho cumprido 1
Ao todo foram 11 páginas ilustradas, das quais 8 serão usadas na publicação de um livro importantíssimo para a disseminação da nossa história parlamentar e seu dimensionamento exato. São os grandes momentos da Câmara dos Deputados, levantados de um acervo enorme do Centro de Documentação Parlamentar e outros livros, escritos por Casimiro Neto. Esse foi meu trabalhinho de férias, com quinze dias de ralação integral.

Tive uma dedicação das mais contentes e bem aproveitadas de todas. Impressionante é avaliar agora que tudo terminou e perceber que jamais eu sairia tão contente de um trabalho tão difícil se não fosse algo tão importante. Embora seja ilustrativo e prescindível, com toda certeza leva a potência da imagem a acrescentar à mente a capacidade de reconstrução da portentosidade de nossa história. Por isso, imagino, quando terminei não consegui passar pelo fim como se fosse fim.

As aberturas para reconstrução aparecem fortes sobre a superfície descoberta e no esboço a lápis muitas vezes à mostra e inconcluso. A ilustração joga com o tom artístico e o histórico: atualiza, regride, eterniza. Assim discute a linguagem expressiva ao mesmo tempo que afirma um fato histórico. As cenas e personagens mais importantes aparecem como centro de módulos que extrapolam o formato e chegam do indefinido ao definido, do mais abstrato ao mais figurativo das bordas para o centro, do desordenado e complexo para o nítido e simples, do mutável para o fixo... Assim, com vários passados e presentes, é uma ilustração artística e documental.

O livro do Prof. Casimiro Neto, se for lançado, estará disponível na página da Câmara dos Deputados para "download". Será imperdível.

trabalho cumprido 2
A matrícula da UnB acaba amanhã e começou anteontem. Não havia ninguém do CAPLAS disponível nem disposto. Desde muitas matrículas atraz os alunos reclamavam da desordem nesses dias. Mas comigo no CA isso não pode acontecer. Chamei pessoas para ser voluntárias. Interceptamos os documentos da pré-matrícula com ajuda do professor de Design, Evandro, ordenamos por curso e matrícula e grampeamos. Três dias antes disso avisei a 2 coordenadores que iriamos fazê-lo. Um, do curso noturno, quis se opor, o outro, de Licenciatura, gostou muito e agradeceu. Este já me conhecia e acho que confiou mais no CA do que aquele. O fato é que estivemos orientando o pessoal. As informações que circulavam sobre as inúmeras mudanças votadas no colegiado, com minha oposição (sou representante do CA no colegiado), mas com unanimidade de aceitação dos professores, foram feitas de ponta-cabeça e nenhum secretário nem coordenador sabiam informar nada a respeito. Deu trabalho orientar aquele pessoal e foi uma zona o início de tudo, com atrazo de mais de meia hora dos coordenadores. Se não fossem os vountários que ajudaram, a matricula provavelmente começaria só no turno da tarde, com atropelos irreversíveis. Hoje e amanhã, não temos mais voluntários inscritos e eu vou descansar. Tudo está bem mais tranqüilo e fácil de ser resolvido (outra vez: graças a nós, os estudantes da graduação) e não haverão maiores complicações, pois o Maurílio, secretário do VIS, vai estar lá e ele sabe como deve ser o trabalho dos coordenadores, ficando sobrecarregado por isso.

A vantagem de tudo é que agora o CA tem relátorio dessa atividade do dia da matrícula, o que nunca fizeram antes. No semestre que vem os próximos ocupantes deverão ter uma postura fiscalizadora e denunciar negligencias do governo com relação aos profissionais do VIS, além de apoiar o trabalho dos coordenadores para que eles não cheguem no dia da matrícula sem ter um conhecimento mínimo e atrapalhar tudo mais do que já é.

quarta-feira, março 12, 2003

Guerra à história da arte
Os especialistas estão preocupados: a guerra no Iraque provocaria uma pausa na arqueologia não apenas naquele país, mas em todo o Oriente Médio, e poderia levar ao bombardeio e à pilhagem de algumas das mais antigas cidades da Mesopotâmia, que correriam o risco de ser saqueadas a ponto de se reduzirem a ruínas de ruínas. Por John Noble Wilford e Holland Cotter, de The New York Times

quarta-feira, março 05, 2003

ode ao blogue
Um blogue pode ser uma experiência reveladora. É possível designar esse tipo de ocorrência, que promove auto-conhecimento e entendimento, como uma das qualidades que jamais abandonaram a arte. Ainda que uma obra de arte surja em meio a preconceitos, ela mesma não é nada além de um mundo regurgitado e recapturado pelo conhecimento perceptivo. É assim que um Pedro Américo promove um evidente conhecimento de si por meio da retratação da Batalha do Avaí em que aparece vestido de soldado, portando um comportamento e uma expressão, além de possibilitar a propagação temporal longilínea da historicidade de um acontecimento e das preocupações das ciências de sua época e espaço. Usando mídias diferenciadas das do mestre do séc XIX, Nelson Leirner hoje dá motivos para discutirmos sem fracassar pela desistência o papel da religião e da moda e as vicissitudes e vícios das nossas convicções. Já o blogue eleva ou rebaixa à arte da revelação; não é um "reality show", mas costuma ser o registro de experiências válidas de maneira muito mais refinada. Exige não somente a descrição de fatos: ao descrevê-los e nomeá-los, automaticamente, ainda que não haja vontade consciente, ocorre a atuação do estilo como elemento de análise. Em outras palavras, prosaicas e incultas, blogar é reviver, selecionar, estilizar e revelar-se a si mesmo.

homenagem a um blogue morto - seis dos últimos momentos
Hoje deletei meu antigo blogue, mas selecionei alguns dos seus últimos suspiros, um deles já denunciava, no início de setembro de 2002, antes mesmo da imprensa, e anos depois da minha descoberta, roubos na saúde pública do DF que mais tarde, quando passaram a ser feitos sobre a compra de remédios, levaram centenas de pessoas a falecer nos hospitais (Isso mesmo, para quem é de fora ou de outro país, nosso governador é ladrão e assassino). Eis a homenagem::::

* * * * *


O meu T4 está livre e meu TSH, ultrassensível, por isso eu quero escrever poesia
Tire o óide daqui, beibe
A quimioluminescência automática chegou.
Nenhuma iluminura é analógica e todas ficam mais ou menos na minha cabeça
O meu livro das horas.

* * * * *


acho que meu blog tá com vírus do Baba, um árabe filho da pauta... Que porcaria era aquela? Muitas letras, muitas mesmo!!! Alucinações nerds?
Que acontecimento mais macabro!!! Agora aparecem Figurasinhas de colocar em fundo de página encima na esquerda.
Você viu isso?
Diz que viu, pra eu não me desesperar com os 150 ml de chá de cogumelo que eu virei ontem.

* * * * *


Tentaram derrubar a Oficina do Perdiz
Nunca fui lá, mas pretendia ir
Me parece ser melhor do que espaços culturais
Regularmente inscritos nos buracos dos anais
Da Secretaria tola e medrosa
Que coloca a nossa arte no sovaco
Da urna do Estado-Macaco
E essa arte melindrosa, politicamente perdida
Poderia ser salva em alguma casa alternativa
Por isso, se eu fosse o fiscal
Deixava de ser animal
Protegia os bens caídos nos braços da cultura
Como a Oficina do Perdiz
Esquecia também a Marlene Dornas
E a ordem da Secretaria-Chafariz
Tomava dos políticos a cultura
E iria derrubar era a casa do Roriz.

* * * * *


Vamos ser enganados pela "urna", morte à urna.

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Baré cola:
o futuro em nossas mãos!

* * * * *


Me veio à mente um trabalho de campo sobre comunicação empresarial que eu fiz uma vez em um hospital público e quando eu tava interpretando os dados levei um susto que quase caí da cadeira. Voltei ao início, ouvi a fita outra vez... Tava certo, a FHDF tinha um funcionário fantasma na área de imprensa. O que você faz nessa hora? Chama a polícia? A pessoa que me deu a entrevista nem se tocou do que ela tava denunciando (apenas informou números e dados sem análise). Eu não fiz nada, só dei destaque a esse ponto no seminário para concluir que: "informação não é comunicação." e que a área de saúde pública estava sendo usada ilegalmente, apesar do corte total de investimentos em programas de prevenção na época. Isso tudo eu lembrei porque preciso passar o resto dos disquetes pro computador e organizar minha pasta.

domingo, março 02, 2003

Minha ponta de lança
Pé
Dança.

Um passo grande com fé
no pequeno
sem esperança.

segunda-feira, fevereiro 24, 2003

prato Azul-Pombinho
Fui ver a casa de Cora Coralina. Na cozinha, dela, muitos encantos. Uma carta de Jorge Amado a elogia no domínio da arte-culinária (mas provavelmente não seria em esquecimento à sua poesia). Um fogão a lenha. Uma geladeira amarela muito encantadora, daquelas bem gordinhas e baixinhas. Um livro de receitas e uma carta comunicando à Cora de que um de seus pratos à goiana havia sido a melhor receita da quinzena enviada àquela revista. Aquela cozinha é infantil como a cozinha de uma criança e facilmente nos encanta. Mas, ao visitá-la, não quebre nada, pois um adulto pode amarrar um caco do objeto quebrado ao seu pescoço como punição com o qual você poderá se machucar dormindo, como a poetiza lembra em seu escritório com sua louça chinesa modelo "Azul-Pombinho" quebrada.

quarta-feira, fevereiro 12, 2003

batendo as asas sem sair do lugar
"É férias". Essa é a expressão que amanhã deixa de ser expectativa para aproximadamente 600 estudantes do VIS (Departamento de Artes Visuais). Depois de terem entregado desenhos em quantidade além da centena, traçam agora seu caminho leve, aderindo ou não aos contornos carnavalescos extravasados por um preenchimento de muita folia.

Meu último trabalho do semestre teve como pretexto o tema "insetos alados". Aderi à ilusão do vôo e comecei a construir arquétipos da minha personalidade embrionária de inseto. A avaliação foi um sucesso, embora prejudicada por trabalhos entregues com atraso, de modo que pouquíssimo além do que chamei de "pretexto" pôde ser abordado.

O melhor dos desenhos na minha opinião parece praticamente desprezar a técnica e explicita uma abordagem da arte que em quase todos os contextos eu repudiaria: a abordagem idealista, que prega que uma obra de arte só existe em um momento: o da concepção intelectual ou da presença do real, pois a materialização da experiência levando em conta os materiais em que ela ocorre a transformam. Ou, ainda, mais radicalmente: segundo Gombrich "a percepção já estiliza" (entendendo-se a estilização nesse caso como incômoda). Esse desenho mostra como fazer um inseto usando seringas, mola e alfinetes; e suas asas usando plumas, elástico e cartão telefônico. O idealismo é nítido ao fazer do suporte e da matéria sobre ele um mero meio dúctil da idéia de um inseto que se pode construir, fazer bater asas, tornar voluntária sua picada e admirar sua estrutura pouco familiar, relegando o desenho à qualidade de instrução. Maior idealismo ainda é que a idéia fica melhor se executada mentalmente, sem fazer uso de qualquer cartão telefônico, seringa, ou o que seja, reais. De qualquer forma, esse desenho ainda permanece um bom registro de um momento e não perde uma certa estranheza estética. Eu espero tê-lo de volta e fazer uma moldura especial para dependurá-lo em meu quarto. (essa da moldura é brincadeira)

Amanhã ainda vou me despedir dos meus colegas e desejá-los que voem como insetos de verdade... Como o que pousou nos meus desenhos quando eu estava apresentando para admirar seus parentes e amigos dentro da "colméia". Ficarei, então, como aquele inseto que construí na mente, mas materializado. E materializado ele não voa, só bate as asas. Com isso, mudo meus planos de viajar pra São Paulo: trabalhos de férias... E descubro que sou um vagabundo que adora trabalhar.

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