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allan de lana

segunda-feira, fevereiro 24, 2003

prato Azul-Pombinho
Fui ver a casa de Cora Coralina. Na cozinha, dela, muitos encantos. Uma carta de Jorge Amado a elogia no domínio da arte-culinária (mas provavelmente não seria em esquecimento à sua poesia). Um fogão a lenha. Uma geladeira amarela muito encantadora, daquelas bem gordinhas e baixinhas. Um livro de receitas e uma carta comunicando à Cora de que um de seus pratos à goiana havia sido a melhor receita da quinzena enviada àquela revista. Aquela cozinha é infantil como a cozinha de uma criança e facilmente nos encanta. Mas, ao visitá-la, não quebre nada, pois um adulto pode amarrar um caco do objeto quebrado ao seu pescoço como punição com o qual você poderá se machucar dormindo, como a poetiza lembra em seu escritório com sua louça chinesa modelo "Azul-Pombinho" quebrada.

quarta-feira, fevereiro 12, 2003

batendo as asas sem sair do lugar
"É férias". Essa é a expressão que amanhã deixa de ser expectativa para aproximadamente 600 estudantes do VIS (Departamento de Artes Visuais). Depois de terem entregado desenhos em quantidade além da centena, traçam agora seu caminho leve, aderindo ou não aos contornos carnavalescos extravasados por um preenchimento de muita folia.

Meu último trabalho do semestre teve como pretexto o tema "insetos alados". Aderi à ilusão do vôo e comecei a construir arquétipos da minha personalidade embrionária de inseto. A avaliação foi um sucesso, embora prejudicada por trabalhos entregues com atraso, de modo que pouquíssimo além do que chamei de "pretexto" pôde ser abordado.

O melhor dos desenhos na minha opinião parece praticamente desprezar a técnica e explicita uma abordagem da arte que em quase todos os contextos eu repudiaria: a abordagem idealista, que prega que uma obra de arte só existe em um momento: o da concepção intelectual ou da presença do real, pois a materialização da experiência levando em conta os materiais em que ela ocorre a transformam. Ou, ainda, mais radicalmente: segundo Gombrich "a percepção já estiliza" (entendendo-se a estilização nesse caso como incômoda). Esse desenho mostra como fazer um inseto usando seringas, mola e alfinetes; e suas asas usando plumas, elástico e cartão telefônico. O idealismo é nítido ao fazer do suporte e da matéria sobre ele um mero meio dúctil da idéia de um inseto que se pode construir, fazer bater asas, tornar voluntária sua picada e admirar sua estrutura pouco familiar, relegando o desenho à qualidade de instrução. Maior idealismo ainda é que a idéia fica melhor se executada mentalmente, sem fazer uso de qualquer cartão telefônico, seringa, ou o que seja, reais. De qualquer forma, esse desenho ainda permanece um bom registro de um momento e não perde uma certa estranheza estética. Eu espero tê-lo de volta e fazer uma moldura especial para dependurá-lo em meu quarto. (essa da moldura é brincadeira)

Amanhã ainda vou me despedir dos meus colegas e desejá-los que voem como insetos de verdade... Como o que pousou nos meus desenhos quando eu estava apresentando para admirar seus parentes e amigos dentro da "colméia". Ficarei, então, como aquele inseto que construí na mente, mas materializado. E materializado ele não voa, só bate as asas. Com isso, mudo meus planos de viajar pra São Paulo: trabalhos de férias... E descubro que sou um vagabundo que adora trabalhar.

sexta-feira, janeiro 31, 2003

Publicidade para marimbondos
Um inseto morto se assemelha a um pequeno marimbondo. Suas vísceras não podem mais ser vistas através da transparência do exoesqueleto encardido. Bege. Qual ciência os haveria tão habilmente retirado? Seria uma peça de museu envolvida por betume?
A comoção própria do espírito, o que é particular e humano, o tornará modelo. Viva. Aquela casquinha embalsamada. Como que por meio de clonagem de genes ela será matéria nova, continuando mesmo a ser tão... ... ... Betuminosa... Confusa, se multiplica.
O desenho brinca com sua aparência e com sua invasão. De nanquim agora invade, o inseto, a folha cinza. E em cinzas (ou betumes) reacende as línguas. Ressuscita as vistas. Dá cambalhotas sobre o tato das linhas pretas, grossas, cinzas, finas.
Com tanto humor de morto então ironiza em um imenso cartaz de poucos centímetros:

“tome
FERRÃO
e fique...
FORTÃO”.

Animado em sua pose ilusionista, seu braço mostra, cômico halterofilista, o que a legenda indica: o fêmur, a tíbia e os tarsos anteriores. Publicidade para marimbondos. Será que eles acreditam nisso?


tributo a cazuza (queria ir, mas não posso - R$)
Depois do sucesso dos Tributos a Cássia Eller e a Renato Russo, nesta segunda, 27/01 é a vez do SQUARE (Gilberto Salomão - Lago Sul) homenagear CAZUZA, num tributo recheado de artistas.

o poeta está vivo! - tributo a cazuza

bob chacal - indiana - jorge macarrão

márcio bomfim - thaís fread - tino freitas

segunda, 27/01 - 21h - couvert r$ 3,50

informações e reservas - 2480987

sexta-feira, janeiro 17, 2003

Ah, sim, muito tempo...
Muito se passou nesses longos dias. Muito de substancial e experiências das quais algum conhecimento poderia ser apreendido. Saiu, por exemplo, uma notícia sobre o museu Guggenheim. Seria construída a segunda filial do Guggenheim em Nova York. Aí você me pergunta: Mas porque eu me preocuparia com isso, uma obra de US$ 1 bilhão em Nova York? A mim, particularmente, tal fato só chamaria atenção (como chamou) por causa da crise afetando as artes no que elas dependam de algum mercado (o que também tem seus efeitos positivos). No entanto, a notícia pode ser mais interessante, pois mesmo com o cancelamento da obra destinada a revitalizar a zona sul de Manhattan abalada por ataques terroristas teremos, provavelmente, uma filial do museu no Rio de Janeiro.

Outra novidade é que preciso fazer 17 desenhos ótimos no tema "insetos que voam" para o dia 10 do mês que vem. Isso vai dar bastante trabalho, principalmente por eu mesmo me exigir um estudo anatômico de insetos e a seleção dos "esquemas" anatômicos corretos. Então, quem quiser mandar-me qualquer coisa sobre o assunto, aceito e agradeço.

sexta-feira, janeiro 03, 2003

Projeto Prima Obra 2002-2003
Prazo para inscrições extendido: até 3 de fevereiro de 2003

O Projeto Prima Obra destina-se a artistas plásticos das regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

Os interessados encontram o regulamento e a ficha de inscrição na
Coordenação da Funarte em Brasília (+61) 223-2441 / 223-5513 / 226-9228
ou download (formato PDF).
Informações: telefax: (+61) 223-2441 / 223-5513 / 226-9228
ou iarabm@terra.com.br

site da funarte: http://www.funarte.gov.br

terça-feira, dezembro 31, 2002

feLiza ano novo
Um dia, quando na minha rua moravam meninas além das duas que aparecem para dizer oi uma vez por ano, aconteceu uma festinha de meu aniversário aqui em casa muito psicodélica. As mulheres em geral conseguem animar as pessoas quando querem, até para festas psicodélicas. Nesse dia, 14 de outubro, dançamos músicas de festa junina. As meninas fizeram uma vaquinha e compraram um CD encalhado que vinha em uma revista Caras (ou Contigo, sei lá) com músicas natalinas cantadas em português de Portugal, fazendo propaganda do óleo de cozinha Liza. Maravilha aquilo. Tirei as músicas juninas e cortei o barato do povo que tava dançando aquelas maluquices muito legais de situações sertanejas do tipo "olha a cobra!", então coloquei o CD FeLiza Ano Novo, que agüentamos ouvir até a metade. Tirei-o para não apanhar. Ninguém estava dopado, e tomávamos pouca cerveja. A lucidez foi o grande barato daquela noite e sempre é em todas as horas e todos os dias.

Muita lucidez para todos. Usem a droga do Novo como forma de expandir a percepção e o auto-conhecimento, mas não engula nem cheire o novo todo em um só dia. A embriaguez e a dormência exageradas são o avesso da sensibilidade e da hiperestesia.

Desejo para o início de 2003: que Roriz e todos os políticos, comerciantes, bicheiros, grileiros, ladrões de carga, desembargadores e profissionais que o ajudaram a crescer como ladrão ou aceitaram ser comprados sejam punidos e presos, devolvendo os milhões roubados; e Magela no GDF. Sei que é quase impossível, mas acho que pode ocorrer.

Outro desejo meu é aprender mais sobre física e mecânica.

Tudo de bom e felicidades.

segunda-feira, dezembro 30, 2002

Abraham Palatnik.

Palatnik!
Parece A Palavra mágica da cinética.
Palatnik!
Basta dizer com convicção.
Os objetos ganham vida própria,
No escuro, a luz ganha inteligência
e a forma de seu sentido, projeção.
Nada representa Palatnik
Ele conduz à quinta-essência
de que somente a luz é a multicor
em ação.

Nelson Leirner em Brasília
Eu já havia dito que Nelson Leirner estava em Brasília, na galeria ECCO? Não? Pois é, está. E é melhor você ir ver logo, porque não sei até quando ele vai ficar.
Mas cuidado... Muiiiito cuidado para não virar macaco. Não seja um macaco como os que não nos deixam usar Nelson Leirner: abra o zíper! Mas não faça macaquices como a minha de perguntar pra monitora se a gente pode usar as obras, porque ela vai dizer que não e vai ficar vigiando como fez comigo e com o Alex. Apesar de ela ter sido gente fina e dado as costas umas vezes para fazer de conta que não tava vendo que eu tava abrindo e fechando o zíper e apertando a Mona Lisa.

Para ninguém ficar pensando imoralidades, explico. Lúcio Fontana fazia cortes com estiletes em suas telas monocromáticas. Assim, abria o espaço, expandia o vazio. Seu argumento colou e ele ficou famoso. A partir daí, passou a repetir a experiência gestual do corte com estilete em várias telas monocromáticas, incessantemente, como que vislumbrado pelo espaço infinito que criava (ou pelo Glamour obtido a partir da idéia).

Nelson Leirner então sofistica a idéia de Fontana com um ato simples: costura diversos zípers em uma tela, que podem ser abertos ou fechados de diversas maneiras, dispensando a repetição da compra de novos materiais semelhantes para "brincar" com o estilete e possibilitando que a experiência do espaço seja vivida e desfeita. A obra é interativa, mas na galeria não pode ser tocada (que maravilha, não?).


A Mona Lisa (ou as Monas Lisas), mostra a vulgarização de um objeto de arte original que se tornou um mero objeto decorativo e muitas vezes um antiquado símbolo de "status", servido à idolatração do poder vazio das imagens fora de seu contexto original e completamente deturpadas. O mesmo ocorre com a santa ceia.

A exposição ainda vai muito além, levantando questões e ironizando a tão mal usada arte conceitual, confundida cada vez mais com o "cult" e "intelectualizado" modo afrescalhado de ser.

segunda-feira, dezembro 23, 2002

Chegou o recesso de fim-de-ano. Agora todos os dias parecem fins-de-semana. Talvez aí esteja um motivo para eu não ter escrito nada aqui nem ontem nem sábado.
Eu poderia ficar enchendo lingüiça aqui por muito tempo, porque não tenho nenhum compromisso nem para hoje nem para amanhã, apenas preciso terminar o presente da Dany e comprar o do meu amigo oculto de natal, embora eu odeie o papai noel, aquele balofo chato com desequilíbrio térmico. No caso do presente da Dany, agrada-me que dia 25 seja o dia dos nossos seis meses de namoro. Sim, uma metade! E prefiro comemorar uma metade do que comemorar o Espírito Natalino.

Bem... Acabei lembrando sem querer do concurso de poesias do SESC, em que Espírito Natalino foi meu irônico pseudônimo... Anteontem foi o lançamento do livro com as 25 finalistas, entre elas a Trifase. recebi 19 livros mais um. Esse "um" é o meu, que tem uma dedicatória do Nicolas Behr, o meu maior ídolo da geração mimeógrafo de 70. Me felicita e emociona muito que no livro que ele recebeu tenha também uma dedicatória minha, improvisada no momento em que ele me abordou em minha mesa pedindo a página de Trifase.

Fiquei perdido como se meu coração houvesse disparado. Meu coração havia disparado. E como havia! Porque eu ja tinha falado com o Nicolas naqueles ataques de idolatria que desconfiguram a normalidade de algumas pessoas, como eu, vez ou outra, mas jamais pensei que Ele um dia sequer abriria um livro qualquer na página...

"Trinta e quatro. Trifase.", meu pai disse em voz de temperatura ambiente.

Aí eu o desejei uma boa viagem, porque naquela noite algumas pessoas importantes da cerimônia já haviam recorrido a esse uso inadequado de viagem no lugar de leitura.

Agora devo ter uns 14 livros e vou desejar mais umas 14 boas viagens para mais umas 14 pessoas que não sei ainda quem. Não vou decidir agora. Você deve se lembrar que quando comecei a falar do livro do SESC o fiz por um desvio incidental causado pelo "Espírito Natalino". Até aquele momento, eu pretendia falar sobre meu mais novo vício, ou... Minha mania de fim-de-ano.

Porta-copos com gravuras. Fiz o primeiro jogo de porta-copos por influência da... adivinha... Dany. Ela é quem sempre diz: "Lan... por que você não põe em prática aquela sua idéia?" ou "Gostaria que você se inscrevesse em um concurso de poesias."... Dei no amigo oculto da Terèse, minha queridíssima professora de Materiais em Arte 1. A gravura escolhida foi a de um copinho feito com linhas brancas em fundo preto. Aliás, devo fazer uma correção, não foi gravura, mas pintura e monotipia misturadas. Um pouquinho só de gravura em madeira.

Agora pretendi dar continuidade à confecção de porta-copos. Um jogo vem com 7 e custa 8 Reais. Todas as "gravuras" daqui por diante serão resultados de estudos da obra de pintores e outros artistas. Hoje terminei as impressões do Magritte. Amanhã terminarei os porta-copos usando elas. O próximo será o Dalí ou o Da Vinci.

Tenho tembém pesquisado novas formas de impressão em pano e com o passar do tempo elas vão melhorar muito, sobretudo quando eu tiver uma prensinha portátil.

quarta-feira, dezembro 18, 2002

Queridos leitores!!!
De volta ao mundo.

Estava mesmo com saudades desse monitor natimorto com uma imagem de formulário de postagem mais natimorta ainda, principalmente de soprar uma vida neles por meio dos meus dedículos aracnídeos.

Nesse fim-de-semana voltarei a escrever algum texto interessante (que pra mim é interessante) aqui. No mais, só posso deixar como registro agora, uma postura que tenho que me parece exorbitantemente romântica, mas que jamais será negada por aqueles que já se despiram de preconceitos e se deixaram auto-conhecer por uma obra de arte:

A arte é a lucidez
e a viveza extrema
a embriaguez sob a qual há clara destreza
e a confusão hiperestésica das sensibilidades
corpo e percepção
dos quais só a vida é feita emblema.

domingo, dezembro 01, 2002

Introdução à Corrupção da Consciência

Não imagino o motivo de tal inversão. Não começarei esse texto delimitando o tema que já foi delimitado pelo título, nem apresentando minha tese. O fato é que ontem cheguei à conclusão de que sou analfabeto em teatro e em cinema. Isso me induziu agora a lembrar exemplos de vídeos que trabalharam diretamente ou por meio do "não-dito" (princípio que não explicarei, porque assim se tornará dito) com esse assunto. Por isso, resolvi começar pelas recomendações finais. São dois os filmes: Billy Eliot e Língua das Mariposas.

No primeiro, mais simples, direto e negativo, uma criança é levada a repudiar comunistas, induzida ao aborto de sentimentos antes que se tornassem emoção e, mais além, expressão, após e durante a qual há um processo de clarificação, de ganho em autoconhecimento e lucidez. No segundo, cujo desfecho é positivo, há uma conversão do comportamento do pai boxeador cujo filho queria ser bailarino. A superação de um preconceito ocorre no momento em que o adulto resolve "adotar" suas próprias emoções. Diz Aaron Ridley, acerca do conceito Collingwoodiano: "Uma consciência corrompida ou 'falsa', ao contrário, é uma consciência que, em razão da falha em clarificar seus pensamentos e sentimentos, recusa-se a reconhecer suas experiências como suas próprias." (2001, p.17)

Collingwood leva a problemática à arte e ao artista e desses de volta ao mundo. Para ele a arte é a cura oferecida da doença da Corrupção da Consciência e, talvez não tão hiperbolicamente como possa parecer, para a morte a qual essa doença implica - no que discorda, no entanto, Ridley.

Não obstante, o próprio Ridley atribui o que denomina exagero ao clima promovido pelo fascismo europeu dos anos 30. O que é descrito então pelo autor para traduzir os efeitos desse fascismo é assustador. Não que devamos ter medo do passado, mas, no entanto, do presente, do perigo de alguns críticos, de alguns jornalistas, jornais "da comunidade" ou "de Brasília", de consciências fracassadas ao se deixarem corromper. Elas não são mentirosas, nem tampouco enganadoras, mas simplesmente ficaram alheias à sua verdade e conhecimento devido à uma "analogia com o que pode ocorrer entre um intelecto e outro" (Collingwood, citado por Ridley, 2001, p. 18), falhando no conhecimento de si mesmas. Eis a tão trágica realidade dos anos 30 que implicou em uma epidemia dessa doença: "Não apenas na Itália, Alemanha ou Espanha, mas também na Grã-Bretanha, as pessoas estavam sendo impelidas por uma onda de 'sentimentos não-domesticados' a adotar, da boca de demagogos, pensamentos que não eram verdadeiramente seus".

Passe agora os olhos por sobre uma tal América, da qual nada aqui foi dito nem será, a não ser que é capaz de matar a quantos forem como simples, tranqüila e coriqueira publicidade. Constatará, como eu, que Collingwood estava certo?

quinta-feira, novembro 28, 2002

Acabo de redigir um e-mail para a lista do CAPLAS com os assuntos das reuniões de hoje e não pude resistir, apesar de já ser um pouco tarde para continuar aqui matando e fazendo viver o tempo - isso porque não se mata o tempo assim tão fácil, ele é como uma sangue-suga que quanto mais se tenta arrancar de si maior a força com que ela se prende à pele, fica mais vivo nessas horas de cronohomicídio -. Ocorre-me uma intensa necessidade de reler a fala do Nelson Leirner, esfregar meus olhos, ler outra vez, e dessa vez cada letra e combinação sonora das palavras, para tentar fazer com que maior lucidez ainda me atinja, mesmo estando com sono. É quase inacreditável que o que eu tenha tentado dizer várias vezes, mas com grande auto-censura e medo, na minha insignificância, tenha sido tão claramente dito por... um artista consagrado! E o que é, afinal, um artista consagrado? Arranque-o esse título... O que sobra? Textualmente, o "artista", mas em termos reais... alguém. ninguém. Admitir-se assim é admitir uma ética que nos suplica ser vista enquanto artistas (todos nós), sem se deixar morrer na consciência. É esse o assunto: Corrupção da Consciência: sobre o qual desejo tratar. Fica para a próxima postagem. Agradeço a todos os que comentaram o post anterior ou os assuntos dele, a absolutamente todos. Felicidades e até esse fim-de-semana.

quarta-feira, novembro 27, 2002



Se me perguntas o que desejo mais avidamente nesse momento, digo: ir ver Nelson Leirner. SÃO PAULO É A CIDADE DOS SONHOS!!!
Vê uma transcrição de uma fala dele, feita em uma matéria do Obraprima.net:

"(...) Durante três ou quatro anos, começaram a acontecer muitas coisas com a minha carreira; coisas retumbantes, embora estranhas. Notei, por exemplo, que com seis meses de pintura fui premiado num salão. Com um ano de trabalho exponho na melhor galeria de São Paulo, a São Luiz, que apresentou meus desenhos sem vê-los antes. Mais seis meses e entro na Bienal; e Stanislawsky, crítico polonês de fama internacional, acrescenta ao meu trabalho uma longa crítica. Aos poucos, a gente vai percebendo a razão de tudo. A qualidade de meu trabalho não possuía a importância que lhe foi dada. Era uma pura questão de prestígio social. Tinha visão do que fazia então, e sei que era realmente ruim. Quem trabalha seis meses não pode surgir de repente e ter seu trabalho aceito. Pode mostrar apenas que tem talento. Com a consciência do que estava acontecendo, surgiram perguntas sobre critérios de julgamento e sobre a própria obra de arte. Tudo isso punha em xeque e em dúvida o valor das coisas. Compreendi que se pode construir um cara qualquer; até sem ver seu trabalho. Era natural que começasse a soltar tudo o que estava dentro de mim, logicamente num sentido de contestação. Esse foi meu começo"(São Paulo: Paço das Artes, 1994. p. 41-42).

Recomendação para leitura nesse momento caso você tenha ficado tão perplexo(a) e contente quanto eu:
Honoré de Balzac. Ilusões perdidas.

quarta-feira, novembro 20, 2002

Eu quero monitorar a exposição do Athos Bulcão, mas não me puderam nem me deixaram porque eu sou do segundo semestre. Essa verdade não implica em ignorância. Se fazem entrevista para quê serve esse critério grotesco baseado em um aspecto cronológico requisitado de maneira incompleta?

Te interrompes-me
Quando te vejo-me andando atrás das regras

Te sinto-me impróprio
Quando me dizes-te: crianças... Querem o todo
Não sabem de nada... pequenas e piegas.

domingo, novembro 17, 2002

Cheguei de Goiânia
Trazendo 2 CDs novos como minha bisavó na malinha.

A humanização do Design?
O que é uma arte genuinamente brasileira? Isso existe? Espero que sim, mesmo com todas as distorções que na prática essa expressão "genuinamente" apresente. E ainda, admitindo que a "personalidade" do Design (contemporâneo) tenha em sua formação algumas pitadas de arte e contribuição de artistas, será que é possível surgir um Design brasileiro?
Essas questões não podem ser respondidas com um nacionalismo qualquer, um amor fervoroso pela pátria. Aliás, nenhum nacionalismo pode-se dar ao luxo de posicionar-se do lado do sim ou do não. O âmago intencional dessa última pergunta é a identidade cultural - os ritos, os mitos, as ciências científicas e tradicionais, artes, cultura - dos povos que recebem a miscigenação do Design, associado ou não às ciências administrativas e ao Marketing.
Se entramos no campo do Marketing, a identidade cultural não pode ser preservada a não ser sob condição de ser derrubada. O Marketing, esse vírus comercial, muta-se e muta lentamente em função de seu axioma plano o meio em que age, tornando-o vulnerável. Sua única e final intenção não pode ser mais do que: o lucro: ainda que essa faceta que abarca toda a face pareça estar cega e reduzida a uma inofensiva verruga. Para ser sintético, abstenho-me do aprofundamento a esse respeito, já que sempre que se trata de globalização esse assunto é recorrente e muitos autores o tratam muito melhor do que um mero "estudante escritor de blogue" (sendo cruel comigo mesmo).
Por outro lado, o Design não associado ao Marketing, pelo menos em seus princípios morais (que são os de quem o faz), mesmo que sim em sua necessidade de suporte financeiro, pode ser, entre aspas, nacionalizado. Eis abaixo uma sugestão para estruturação simbólica de um "produto" que apresentei em um seminário no semestre passado:


As xícaras são de Mestre Cardoso, citam as cerâmicas, peças da arte marajoara, com símbolos próprios e enraizados na cultura regional de uma época e de um local. Convidei-me a perceber o que a realidade fala sem dizer, ela fala sobre ela mesma. A escolha da arte marajoara fala, sem dizer, que eu busquei uma análise estrutural visando responder: a arte pode dar ao Design a genuinidade nacional?
Muito provavelmente não responderei com toda amplitude essa pergunta, faltam-me conhecimentos sobre história, mas o modo como respondo atualmente já permite escolher um método de elaboração extremamente forte, mas que, como se faz no campo seqüencial e extremamente racional deve ser destruído, por esbarrar em maquiagens do mesmo tipo daquelas das maquiadoras do Marketing. Somente são grandiosos em seu "espírito" (no sentido como não o define Hegel - sarcasmo surrealista) os objetos desenhados sem o uso de qualquer método matemático não numérico (ou numérico).

quarta-feira, novembro 13, 2002

Atualmente, sintiria-me satisfeito comigo mesmo e com meu estágio de inacabamento, mas algo me atormenta, uma voz zumbe e arranha meu córtex:
- Emprego, emprego. Emprego etc.
Preciso de um emprego ou terei que me eliminar. Falta ele para que eu possa ser eu.

domingo, novembro 10, 2002

ADSL
Agora sim, acho que não vai mais dar problema na ADSL. O cara "resetou" (não sei em que sentido) a central e trocou o modem daqui de casa.

China, símbolo e sabedoria
Meu interesse começa na universidade. Um interesse mediano, corriqueiro e multiplicador de uma tradição acadêmica de reprodução de dados científicos objetivando deixar para trás... Derramar no passado dejetos da arqueologia e da estética que meu organismo não recicla, como um aluno ansioso pelas curvas virtuosas do SS. Mas bastou uma vez ter observado fotos de bisontes petrificados ou eternizados nas cavernas por sangue e outros pigmentos para que minha escola habitasse um pouco meus pés, minha animalidade. Talvez um pouco além, minhas mãos encontrariam os arquétipos do fenômeno "contemporaneidade".

E por que não ir em busca sobre a China? Seus machados de bronze e cálices ritualísticos, máscaras de duas faces que pouco se sabe sobre serem mitológicas ou não, a Idade do Jade e uma dívida da arqueologia eurocêntrica para com sua pre-história. Um mundo grandioso em pequenos espaços entorpecentes, o símbolo ciente e a arte da consciência sempre retornando ao seu início. Assim se faz o saber sobre a idéia: ideológico: ideográfico: ideograma: a escrita de filigrana: pintura zen: arte do bem:

E diante de uma enchente de conhecimentos carentes, faltando tudo sobre o Paleolítico negligenciado pela nossa sapiência, eis que eu estou no papel mostrado: a pintura e o entalhe que não são os próprios seres representados: a linguagem do mundo inanimado: o poder da substância:

Recital
Teve recital da Margarida, dia 8, na Praça do Relógio de Taguatinga. Tem outro dia 12/11 na Católica às 19h e estarei recitando outra vez um poema dela em homenagem ao Drummond. Haverá coquetel e creio que um coral também vai cantar.
No dia 8 foram poucas pessoas, mas a maioria adorou. O Presidente da Academia Taguatinguense de Letras estava lá e saudou com alegria aos participantes, assim como outras pessoas que ficaram emocionadas.

domingo, novembro 03, 2002

Meus pés, minha animalidade

Meus pés, minha animalidade,
pisam bem próximos de fundirem-se ao mundo.
Neles estão minhas memórias
meus ancestrais, espíritos gravados nas pedras.

Não são minhas mãos que os anjos alcançam
nas horas em que caminho.
Piso suave na memória que me descansa
mas sinto a preensão tardia
da mão que me quer, ora que me desmancha.

O polegar opositor invade
os monumentos das mãos tecnocratas,
espreme contra o indicador meu caminho,
desinfetado o sensível tão frágil pela chuva ácida,

antes que me esmague a traquéia
ponho-me a gritar as imagens que vejo
perdendo-se nos desconfortários arquitetônicos

e acalmo-me do delírio crônico da cidade
Com os pés reconfortados sobre a vida.

sábado, novembro 02, 2002

Sumi
A ADSL pifou.

Prêmio SESC de poesia
Não fui premiado, mas minha declamação foi um momento de êxtase em que me senti fundido à essência do universo e atingiu muito positivamente algumas pessoas. A qualidade de quase todas as poesias foi louvável, então pensei comigo que minha participação seria por si só interessante, como é mesmo para alguém que está começando na poesia, mesmo sem prêmios e medalhas. No entanto, se eu ganhasse uma menção honrosa, prêmio que seria facultativo aos jurados oferecer, estaria perfeitamente satisfeito, e isso me pareceu bastante possível. E foi quase isso que aconteceu. Posso dizer que ganhei uma quase menção honrosa: trifase esteve dividindo opiniões na banca examinadora, recebeu mais elogios das pessoas do que imaginei, mas não venceu uma outra poesia que não sei se é boa, porque não entendi sua pronúncia pela autora, inventou-se um critério que me pareceu completamente fora dos parâmetros estabelecidos pela regra de somente ser válido o texto: a poetiza tinha mais gente na torcida do que eu, que contava com minha grandiosa platéia composta por duas pessoas que eu adoro: minha mãe e minha namorada. Minha mãe pagou meu ônibus e fez durante 22 anos um grande esforço para me compreender, essa minha cabeça confusa, mas pacata; minha namorada ainda não precisou fazer esforço, mas me fez participar do concurso, me inspirou a abandonar minha timidez e levantou minha auto-estima. Mas foi justamente aquele "quase" que me agradou, já que quem mais aguerridamente defendeu a Trifase foi uma doutora em teoria literária que tem outros títulos reverenciáveis, de quem eu imaginei que jamais obteria sequer uma ponta de cêra de ouvido, mas de quem adoraria ouvir uma ou algumas opiniões, mesmo que disfóricas, sobre o conteúdo e a forma do meu pequeno texto. Pois consegui dela, sem sequer me manifestar, todo tipo de aprovação, olhando nos olhos, percebendo como ela precisava dizer o quanto aquela poesia a havia emocionado. Esqueci então os títulos daquela dama e os recursos poéticos e estilísticos que poderiam impressionar um analista literário sem sensibilidade: eu havia atingido o que pretendia e pretendo a cada dia mais: fazer as pessoas se sentirem vivas. E eu fiz isso com outros poetas, assim com já fizeram comigo também algumas vezes, inclusive nesse evento. Só isso basta: vida, sublime vida. Um livro vai ser editado com os finalistas, inclusive eu, que provavelmente terei meu nome escrito completamente errado e um erro grave de concordância no meu poema (ambos causados pela pessoa que os ditaram - ou digitaram). Dificilmente um ser normal compraria esse livro por minha causa, a não ser duas pessoas, mamãe e Dany; além do mais, com esses erros fatais, não irei indicá-lo, porque suas poesias serão maravilhosas desde que fiéis ao que o autor escreveu.

Trifase

O Sol, narciso, no fim da tarde,
apaga o dia e imprime a tábua,
enquanto foge, o movimento,
do eixo-estaca, e a Lua alarde.

Às duas fases do firmamento -
o que uma grava, outra revela -
segue a terceira no espelho d’água,
que dissimula, como aquarela.

domingo, outubro 27, 2002

Recital adiado
O recital que seria no dia 29 passou para o dia 12, na mesma biblioteca, no mesmo horário.

sábado, outubro 26, 2002

Blogue da Dany
Sou mestre em alterar postes que já foram sacramentados, eu os dessacramentalizo sempre. Agora estou fazendo isso para divulgar o blogue da Dany (e que blogão!), o Poema Lunar, que já tem um texto muito legal (ela escreve muito bem), lembrando a principal atividade do governo Roriz: segundo ele mesmo, o meio ambiente. (gargalhadas).

Comida, poesia e cobertura de "mashmallow"
Hoje tem comida especial na janta por causa do aniversário do Alex, que foi dia 24, como o do Ziraldo.


Hoje também tem ensaio, para o recital do dia 29, 19 horas, na Biblioteca Central da Católica. COMPAREÇA!

Aquele quadro ali encima é do Wayne Thiebaud, de quem eu não sei nem um pingo de história, tem gosto de Mashmallow (é assim que escreve isso?) e um cromatismo lúdico afável junto com a composição quase mística, mas muito divertida.

E, por falar nesses assuntos, dia 30 tem EU no SESC de Taguatinga e você tá convidado(a) para gritar meu nome alucinadamente. Amanhã posto o horário, que não sei qual é. Meu pseudônimo é Espírito Natalino e a minha poesia chama-se Trifase. Só não irei postá-la porque senão ela deixa de ser inédita.

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