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Minha foto
allan de lana

segunda-feira, setembro 10, 2007

O Rio corre vazio;
A luta de classes continua
Ruinas feias mitos pobres
Quem vive o prazer da natureza sem geografia.

. . .Glauber Rocha, Roma, 1979 - Poemas Eskolhidos


Divulgo o escritor Jason Frutuoso.

a forma final de sua primeira obra a ser publicada, "Samuel e o Bezerro Dourado", tem forte participação familiar - as ilustrações internas feitas por mim, a capa e a contracapa ilustradas e diagramadas pelo Alex (meu irmão) e a constante e intensa revisão geral da estória por nossa mãe.

o enredo, originalíssimo, conta dois dramas principais: o de Samuel diante das situações de iminência da perda de seu querido bezerro, Dourado, e o do narrador-personagem diante da sua iminente morte, que poderia significar a interrupção da narração. em uma análise que relacione vida e obra do autor - conhecido em brasília como psicólogo atuante - notamos que o cenário da trama, inquestionavelmente, são as suas próprias memórias da paisagem mineira e da realidade social das redondezas do Vale do Rio Doce, onde passou a infância.

o livro, já revisado, arte-finalizado e com duas bonecas prontas está em ponto de impressão. assim, estamos iniciando uma busca por patrocinador(es) e editora interessados.

veja mais detalhes no site do autor, www.jasonfrutuoso.com.br. os interessados em saber quando for ocorrer o lançamento podem entrar na "Lista de Interessados".

segunda-feira, setembro 03, 2007

O Vento

Queria transformar o vento.
Dar ao vento uma forma concreta e apta a foto.
Eu precisava pelo menos de enxergar uma parte física do vento: uma costela, o olho...
Mas a forma do vento me fugia que nem as formas de uma voz
Quando se disse que o vento empurrava a canoa do índio para o barranco
Imaginei um vento pintado de urucum a empurrar a canoa do índio para o barranco.
Mas essa imagem me pareceu imprecisa ainda.
Estava quase a desistir quando me lembrei do menino montado no cavalo - que lera em Shakespeare.
Imaginei as crinas soltas do vento a disparar pelos prados com o menino.
Fotografei aquele vento de crinas soltas.

Fonte: Manoel de Barros - Ensaios Fotográficos.


O vento balança as jubas folhosas,
As quais guarnecem jornadas por terra,
Previnem do olhar celeste viagens interiores.

Desbravador que aos topos se lança
Em tais meandros devassa trilhas
E sobe pedras a içar montanhas.
Concretiza nos cumes as ventanias,

Igual cariátide que engolisse um buda,
A sustentar - mais alto do que os píncaros
Que o levaram nas entranhas -
O infinito na ponta dos cabelos.

Fonte: Allan de Lana - caderno de explorações, M.G./D.F., 2007.


trechos de um inventário de ruídos

30: motor, silêncio.
31: parece buzina e latido; vinheta de rádio - futebol.
32: silêncio.
33: silêncio; ruídos muito ao longe.
34: caminhão, assobio esquisito - janela do quarto de barbacena.
35: motor; ruídos muito ao fundo.
36: em busca de rua do Largo do Rosário.
16: Gilson, descompressão, caminhada grav. no bolso, música e carros ao longe, caminhada lenta piano, porta, cão.
17: tráfego.
19: latidos, repetição constante de cliques.
20: indefinição com cliques.
21: idem + latidos a 1'55'', jatos de vapor.
22: ruído constante, motor, clique de trem, trilhos.
88: pássaro perto da cachoeira.
89: água da fonte do IBAMA caindo no ralo.
90: idem, com mais variações.
91: aparentemente, silêncio total.
92: ?
93: pássaros.

terça-feira, agosto 28, 2007

explorações

Freud, em cartas a seu médico Fliess, começa a explanar-lhe o que seria o conceito de exploração, o qual é retomado por Derrida na década de 1960, para compreensão de como a teoria literária poderia contribuir com a psicanálise e valer-se do seu legado nas investigações sobre a leitura e aquilo que se chamou diferencia (uma espécie de ato constante de diferir e construir-se a partir da diferença - em francês, differance). por um lado, teríamos a impressão do que se sente, do que vem de fora (o tato, por exemplo, é sentido nos dedos ao digitarmos no teclado), impressão a cada vez iniciada e apagada, um estímulo não memorizado e recebido sempre como se fosse o primeiro. por outro lado, tal estímulo levaria informação a neurônios do cérebro capazes de armazená-la, porém sempre parcialmente e, a cada estímulo, surgiria a sensação de memória a partir das diferenças entre as suas explorações. exploração é um conceito-chave para pensarmos as transformações do século XX nas artes visuais e performáticas, não só se estivermos focados em literatura, pois dificilmente terminaremos uma lista dos inúmeros artistas que se valeram da citação ou da repetição. Só como um dos exemplos possíveis, buscamos um comentário do crítico português João Lima Pinharanda sobre a pintura de Jorge Martins, ao considerá-la "sombra sem corpo":

Uma dança de espectros assombra, no sentido direto da palavra, a realidade contemporânea.

Usando toda a sorte de duplicações e desmultiplicações, cópias, clones do velho, mortal e gasto corpo humano (de que menos recusamos a admitir a fragilidade heróica, que desejamos esquecer e que desejamos descartar), as sombras são aquilo que podemos designar como o que nos resta, como o lixo.

(...) reproduzimos os seus movimentos [movimentos do corpo] de desesperado e inesperado explendor, projetando-o na tela de um cinema, fazendo-o brilhar no monitor de uma televisão (ecrãs), repetindo-o na tela de uma pintura. Mascarando-(n)o(s).

não obstante esse aspecto assobroso de um duplo ameaçador que se faz tão presente no mundo contemporâneo, a possibilidade de que a memória tenha algo de positivo também estaria, segundo Freud, sujeita à exploração, na qual não há uma origem, um arqui-sujeito. Segundo ele, o "arqui" está riscado, mas, sob riscos, o vemos legível, como isca a atrair-nos para encontrá-lo intacto.

o áudio abaixo resulta do aspecto produtivo e, para mim, positivo da exploração, no qual ela não representa uma perdição em busca do "arqui". tratam-se de fragmentos da obra gradeado, editada hoje, uma exploração a respeito de uma cerca que encontrei próxima de uma rodoviária - cuja imagem lembro vagamente - em volta de um curioso monumento maçonico e também a respeito de uma enorme escultura com metal enferrujado e repleta de vazios, vazios enormes e vazados, da autoria de cildo meireles.




gradeado


domingo, agosto 26, 2007

estou de volta e pretendo fazer postagens ainda mais espaçadas, porém densas (ou com potencial) e legais! agora só preciso descobrir como fazer para postar sons, mas não se preocupem, parece que o blogger tem novas funcionalidades para hospedagem de arquivos e vai me ajudar um pouco com isso. sejam bem-vindos.


o novo formato traz os arquivos do blog para imediatamente após a área de postagem, a qual comportará sempre as três últimas inserções que eu fizer. também incluí, pela primeira vez em todos esses anos, o meu perfil, pois sempre eu soube que não tinha um perfil comportamental, um estilo ou um padrão para ver, ouvir, agir e agregar, só que atualmente eu sei expressar essa situação de uma maneira minimamente compreensível.


qual o assunto das próximas semanas? você pode sugerir algum, mas penso em trazer uma leva de poesias geográficas que estou desenvolvendo junto com reflexões, aquarelas e edições de imagem e som. também trarei alguns desses sons. ao mesmo tempo, acredito que anotações, no momento superficiais, sobre paisagem, linguagem e memória possam ser compartilhadas com os leitores para estimular comentários e quem sabe trocar contribuções com quem estiver interessado no mesmo assunto.


até mais!

terça-feira, março 13, 2007

verni de abertura das obras 'fêmea' (allan de lana) e 'toca' (matias monteiro e luciana paiva)
dia 15/03, a partir das 19h, na casa de cultura da américa latina (CAL) - SCS Q. 4, Ed. Anápolis - telefone (61)3321-5811.

visitação de 16/03 a 17/04 - de terça a sexta, de 12h a 20h; sábados, domingos e feriados de 12h a 18h.

sábado, fevereiro 17, 2007

olhe ali, na metade inferior do post do dia 7 de janeiro... lá está o jardim de epicuro que eu tinha prometido.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

bem... começo aqui, pela primeira vez neste blog, com esse pigarro. o motivo é que eu disse que iria complementar o texto sobre Epicuro com um outro texto a respeito dos amigos que se reúnem em um jardim. ainda não fiz isso e nem, como faço normalmente, apaguei a frase que se refere a esse assunto, o que seria muito mais cômodo pra mim... ocorre que de fato ocorrerá esse acréscimo, porém tenho-o dificultado com uma meta que me impus, de eliminar da vida certas contradições. parece-me que essa 'desterritorialização' não é nada fácil, até que se realize com facilidade. tenho tido alguma dificuldade em retomar um raciocínio prolongado na escrita e nas atitudes em um nível mais agudo do que eu vinha tentando. quando dores no joelho me impediram de continuar tentando alongar minhas lentas e demoradas corridas, notei que algumas categorias ainda estavam tão arraigadas em meus hábitos que meu pensamento, que eu tinha dificuldade de conceber sem que se desse no plano dos objetos e das ações, ocasionava um desgaste físico grande. mas ficar 'parado', sem fazer quase nenhum exercício longo, também leva à degradação do organismo, que fica sedentário, logo impossibilita-se aos pensamentos mais agudos, extendidos e re-generados no corpo. além disso, tal situação promove a ansiedade e a dissipação de energia em pequenos atos auto-flagelatórios e em círculos irresolutíveis do pensamento (lembro-me por isso vagamente da linguagem corporal na criança, tal como abordou Henri Wallon, cuja ausência levaria a um degradante 'circuito perverso' da desmotivação impulsionada pelo não-saber e não atuar). enfim, gostaria de retomar de um modo muito mais vigoroso aquele primeiro pensamento corporal e isso tem cobrado-me esforço e uma desadaptação que acaba levando a um certo abandono temporário de algumas sistematizações. esse grande parágrafo termina aqui e eu partilho de um poema-comentário que recebeu o número sessenta - surgido em um contexto um pouco distinto desse que expus.


60 - resposta aos comentários

queria comentar
sem dizer nada.

e o nada que
não
tenho a dizer
é.

ilustrar
me faz parar
de roer as unhas
(uma terapia),
coisa que também
é prazerosa -

dói sem ninguém ver,
termina secreto
e sem velas
como a saliva
de um enforcado
político.

eu não disse nada.

domingo, janeiro 07, 2007

homenagem ao 2347º aniversário de Epicuro
nascido em Atenas, em janeiro de 341 a.C., epicuro foi para Samos ainda novo e lá conheceu o platonismo, diante do qual não pareceu entusiasmar-se. aos 14 conhece o pensamento de demócrito por Nausifano. efebo, volta a Atenas em 323 a.C. para tornar-se militar. a cidade havia sido derrotada pela Macedônia, sua família, que, ao que se apregoa, fora nobre, perdera então suas terras. Epicuro vai a Colofônio em busca do pai e ali aprofunda-se em uma literatura tradicional que nota não ter mais crédito espiritual entre os seus contemporâneos. Na introdução dos Pensamentos por Johannes Mewaldt (Editora Martin Claret, 2006), mostra-se uma gama de pensamentos astrológicos aos quais se atribui um pessimismo de época, vinculado, ao que nos parece, ao humanismo então predominante e à decadência que representou a derrota de Atenas e influiu na depressão daquele humanismo. porém, a vacina de Epicuro que, em nosso trocadilho, os cínicos (do grego kúón, kunós, cão, pelo latim cynìcus - Dicionário Houaiss) não tomaram - apesar de, segundo relatos, terem vivido com verdadeiro e impressionante desapego - foi o atomismo de Demócrito. a concepção de um universo além e maior que as paixões humanas fornece ao epicurismo uma chave da ataraxia, isto é, da vida feliz no conhecimento e no exercício da razão.

o atomismo de Demócrito (circa 460-370 a.C.) foi desenvolvido a partir dos ensinamentos de seu mestre Leucipo. nessa doutrina, nada nasce a partir do nada e os mundos são numericamente ilimitados, perecíveis e composíveis. o que forma primordial e naturalmente esses mundos são os átomos e o espaço vazio. segundo a doxografia, os átomos têm grandeza e forma. a essas duas características Epicuro acrescentou o peso, que faria os corpos moverem-se. os átomos não seriam divisíveis, porém os corpos que compõem, sim. para Demócrito a natureza dos átomos é estática, o o seu movimento resultaria do choque entre corpos e do impulso decorrente.

o universo de Epicuro é igualmente atômico e sua grandeza vai muito além da capacidade de apreensão do ser humano, que não experimenta seus extremos, e só poderia intuir, assim, a sua infinitude. mas seria um dever desse ser tão pequeno criar as condições de sua felicidade, o que faz do epicurismo um eudemonismo. ele opõe-se a Demócrito no ponto em que este considera que se estamos apartados da verdade, devido à diversidade dos átomos e imagens que só afluem-nos como percepção. Epicuro quer infalíveis os órgãos sensoriais. porém, nas duas concepções, o conhecimento que deve guiar a ordem do espírito está ligado às coisas por meio da sensibilidade. a sensibilidade fornece um tipo de dado empírico dos antigos. a partir do conhecimento dela a vida pode ser guiada pelo prazer, à felicidade (euthimia demócrita). a hedoné, ou prazer, pode ser interpretada como ausência de dor que proporciona o gozo pleno da existência. o epicureu, porém, é o oposto de um promíscuo, o que ele procede é a escolha dos prazeres que lhe são adequados, a partir do conhecimento da natureza em sua totalidade. esse conhecimento seria dado satisfatoriamente pela física atomista.

nessa doutrina, o movimento dos átomos lhes é constante e as qualidades desse movimento têm limite. mas a diversidade de formas atômicas é infinita e sua minúscula dimensão inapreensível. os átomos podem conectar-se e desvencilhar-se, quando são consoantes respectivamente à vida ou à morte.

quanto à vida, o ser humano tem a alma idêntica ao corpo e ao desfazer-se, termina qualquer possibilidade de perpetuação espiritual. o além é uma criação maluca, pois é inconcebível uma existência sem corpos.

a isso parece conectar-se André Comte-Sponville na sua noção de "alegre desespero". pois se a constatação da morte definitiva assustaria, dela Epicuro faz uma justificativa para uma felicidade, assim como a de Demócrito e Leucipo, calcada na tranqüilidade do espírito que nada deve a nenhum além. não há nada com que se exasperar, não haverá punição e os deuses não interferem na vida ou na morte humana, vivem "na sua", no que Epicuro chamou de entremundo.

essa doutrina parece ter chegado até nós graças ao poema latino De Rerum Natura, de Lucrécio, que influenciou sobretudo Virgílio e Horácio. a sua retomada deveu-se à biografia do filósofo publicada por Diógenes Laércio e à obra Epicurea, de Herman Usener.

há ainda outro modo pelo qual Epicuro nos chega, pois milhares dos seus átomos dissipados ou outros semelhantes aos seus, constitu-nos e temos com ele uma ligação cósmica, assim como todos os pensadores da felicidade ou do rancor que o sucederam. isso é uma felicidade e estamos de parabéns por mais esse aniversário de Epicuro! Em breve, registraremos aqui uma hipótese de sua festa no Grande Jardim filosófico do Planalto Central da Atenas brasiliense, rodeado de amigos. a festa será aqui, neste mesmo post do dia sete de janeiro (que não é o dia exato do aniversário).

Bibliografia básica:
EPICURO. Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2006. (Coleção Obra Prima de Cada Autor).
BORNHEIM, Gerd A. (Org.). Os filósofos Pré-Socráticos. 12ª ed. São Paulo: Cultrix, 2003.


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jardim epicureu
é difícil conservar a idéia do jardim de Epicuro nas mentalidades de hoje em dia. um dos motivos principais - além da distância cultural entre nós e ele e das conseqüências da globalização que põem em cheque as fronteiras do público e do privado, da amizade e do desconhecimento - é o excesso afirmativo da doutrina cristã que impregna o pensamento ocidental. é preciso abdicar da idéia de um Deus criador se quisermos pensar em um jardim epicureu, em que os prazeres não podem ser isolados nem em um órgão, nem muito menos nas mãos de um deus.

à diferença de um jardim da idade média, no qual encontra-se a idéia de paraíso (palavra persa que, segundo Kenneth Clark, significa espaço cercado por muros) em que Deus pode ser visto nas pequenas coisas, nos seres menores, o jardim de Epicuro evoca a sabedoria do corpo e do espírito. Clark fala dos jardins de Siena pintados no séc. XII que neles os sujeitos colocava-se entre uma jornada dentro da natureza e uma contenção diante dos perigos de corrupção da Ordem de Deus. daí serem os jardins delimitados, cercados, livrados da peste negra que assolava os miseráveis além dos muros e das tentações de uma natureza obscura. Epicuro, entretanto, um grego que fundou seu jardim filosófico em Atenas, não teve de temer nem a peste negra nem os prazeres. no séc. IV a.C. grego a guerra era mais temível do que a doença. além disso, para o atomista em seu jardim os prazeres não poderiam corromper, como uma natureza cujo âmago reservasse tragédia e perdição aos sentidos.

dentre os 40 aforismos de Diógenes Laércio sobre Epicuro temos alguns a respeito do conhecimento da natureza (os de número 10, 11, 12, 25, 29, 30 e 31 fazem-lhe referência direta) que demonstram um entusiasmo impensável para um cristão preocupado com a gênese. o atomista ocupa seu pensamento e vida investigando o modo como o cosmos e o eu vêm a ser, ignorando a sua origem e libertando-se da angústia perante a morte - ele não deve penitência nem graças aos deuses. o medo da morte é um bloqueio para o prazer da vida no jardim de Epicuro. no fragmento 12, Laércio diz: "É impossível perdermos o medo que temos de nós quando indagamos sobre aquilo que acontecerá no fim da nossa vida, se não estivermos instruídos a respeito da constituição do universo (...). Sem o conhecimento da natureza, não gozaremos, pois, inteiramente, prazer nenhum." assim, se construímos "nossa segurança perante os homens" sem que "os acontecimentos no céu e na terra, isto é, no universo infinito, possam causar-nos algum receio" (D. Laércio, aforismo 13), estaremos abertos ao prazer. a felicidade aqui está baseada em uma vida tranqüila e segura, que nenhum deus, nenhum além, nenhuma morte ou mundo outro poderiam proporcionar, pois pertence ao mundo das coisas limitadas, terrenas, vivas e presentes.

a percepção dos corpos, em Epicuro, deve ser colocada entre os fundamentos de uma fenomenologia que retoma elementos de um pensamento pré-moderno. o jardim, aqui, é mais semelhante a uma vontade de conhecer e estar próximo do que de isolar-se do mundo em crise e estar distante do mal natural oculto. a carne biológica, física, proporciona prazeres fugazes de um desejo infinito, dependente inteiramente de um tempo ilimitado e angustiante, que se repetirá incansavelmente. já o saber, está ligado à sensibilidade da carne, logo à finitude ou a uma delimitação racional do mundo para que este ganhe sentido. o pensamente epicureu não se direciona à sensibilidade pura, mas ao espírito, em sua capacidade de apreender, avaliar, limitar, acabar com toda ilusão de eternidade e com a angústia do desejo insaciável. eis, então, um jardim que nos convida a deleitar e pensar os fenômenos com um grande senso de presença e realidade.
o jardim de Epicuro é do prazer presente. além disso, nada faz sentido, nada enaltece, nada é justo, nem nobre, nem venturoso a priori. toda a justeza humana, que muitas vezes é atribuída a determinações divinas, é fruto de convenções acerca do lugar presente e da necessidade de uma convivência harmônica que deixaria que a felicidade e o prazer fossem preservados. parte do aforismo 20 de Laércio demonstra que há prazer somente enquanto há carne e sentido. "... Verdade é que o homem sensato não evita o prazer, e quando finalmente as circunstâncias o obrigam a deixar a vida, ele não se comporta como se esta ainda lhe devesse algo para a suprema existência." uma tal vida, feliz e plena, só é possível se vivida com paz na alma, característica que Epicuro, no seu fragmento 31, diz ser o mais belo fruto da justiça. assim, o sábio é aquele que cultiva leis para preserva-se das injustiças que ameaçariam a paz de sua alma e dissipariam os seus prazeres.

Por fim, além de brindarmos a segurança do jardim de epicuro - que é dada tanto por uma saída da massa dos homens que têm uma concepção comum de que os deuses proporcionar-lhe-ão felicidade quanto pela existência da amizade - dizemos que lá é um lugar de vida ativa. pois "é sem valor pedir aos deuses aquilo que nós mesmos podemos realizar" (aforismo 19 de Epicuro). o presente e a vida simples são muitas vezes renegados erroneamente como lugares de utopia por uma sociedade que crê no real como uma vasta torre econômica lavrada por um Deus antropomofizado que, por ser justo, determinaria toda injustiça e desigualdade sociais, julgaria os bons como ricos. mas a sociedade assim formada é ilusória, pois o presente é lugar único da satisfação e da saciedade e no qual podemo-nos realizar, enquanto o mundo capitalista é construído inteiramente na possibilidade e na virtualidade econômica e o cristão, igualmente, em um ser que não pertence nem ao presente nem à carne.


"Quem menos necessita do dia vindouro recebe-o com mais alegria." (fragmento 32 de Epicuro)

sexta-feira, janeiro 05, 2007

59 - ocê parada
eu não sei como
é que ocê
olha
para ocê

para olhar
ocê

para...

de olhar
para
ocê parar
de olhar

ocê

para
ser, você
para de olhar
ocê.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

58
chega de imaginar imaginários
eu quero um pouco de realidade inventada


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heresia
na sua origem grega, haíresis siginifica a capacidade de escolher. para um estudante pode ser deleitante pensar nisso, pois talvez a heresia esteja muito próxima do seu universo.

a palavra ganha importância devido aos cânones católicos apostólicos romanos seguidos pelo imperador constantino após ser convertido, que pretenderam conservar intactos os mistérios da trindade e manter entre os fiéis o desconhecimento da natureza de cristo, à qual não se poderia questionar. poderia-se apenas crer nela, pois exprimi-la seria levar a diferenças interpretativas, a relativizações, o que abriria a possibilidade da escolha.

eis aí uma prática de sucesso improvável caso não haja opressão brutal à vida, mas que hoje é um dos combustíveis da nossa academia, muito embora esta seja herética ao perseguir o conhecimento da verdade e da ciência. entretanto, se mudarmos de perspectiva, se olharmos como as linhas de pesquisa tomam contorno e os grupos de pesquisadores segmentam-se e tornam-se até mesmo pessoalmente incompatíveis, notaremos que o destino da universidade inclui uma brutalidade sisuda.

lembramos que a guerra pelo privilégio de umas idéias também envolve a manutenção de campos de conhecimento herméticos que repelem qualquer ameaça e qualquer questionamento. Talvez, mais ainda, tal egoísmo estrutural relacione-se com a domesticação de um público que vai possibilitar uma durabilidade maior de todas as barreiras e limitações de cada um dos nichos sisudos da academia e a garantia de permanência desses no mercado. Essa última característica é quase sempre muito dissimulada - em um desses cursos universitários de artes, por exemplo, esse é um tabú dos maiores e, ao mesmo tempo, um obelisco adorado secretamente.

nesse ambiente, há um herege. claro que os professores e pesquisadores acabam sendo heréticos com relação a algumas verdades estabelecidas - na maioria das vezes essas são heresias mornas, sem paixão -, mas os verdadeiros hereges, os quais fundam seu percurso na capacidade de escolha e de questionamento, são os estudantes. nós, e aqueles que se nos assemelham, somos os responsáveis por todo o fervor existente na academia. nós, dotados de um tesão escroto, temos uma relação de gozo mais intenso com o conhecimento, nós viemos do futuro e tocamos o foda-se.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

57 - supernova
sou uma letra
passada por
letra passada.

curvatura do alfabeto
de alfabetos.

sábado, novembro 11, 2006

aura, explica Walter Benjamin, é uma experiência do eterno sentida no momento transitório e único.

a fotografia tornou reprodutível o que antes era único. acabou com a aura. tirou-a do domínio exclusivo da aristocracia. a fotografia é uma burguesinha.

mas uma foto recupera sua aura, ela pode ter (e tinha) rastros da ação do aparelho (abrir-fechar), possui vida no tempo e se torna acúmulo de vestígios, um objeto com aura.

o contemplador, aquele que a restitui na versão atualizada e imaginária, faz que a imagem exista no momento único e transubjetivada. não adianta não querer, a aura vive!!!

além do discurso da originalidade e da unicidade, passamos à re-velação no instante. para isso, podemos utilizar a experiência do êxtase provocado por adrenalina e força.

não me apego à não-expansão-reposição das idéias de Walter Benjamin e, assim, afirmo que essa é uma estratégia da aura, não uma coisa do sujeito que prova dela.

a experiência do êxtase. o sujeito equivale-se à eternidade do transitório ao fazê-la e ganha a dimensão do cosmos por um pulso - ele é pura faísca presente.

um corpo cruza a linha de chegada e tomba: o chão é leito onde se dissipa o gozo, no momento em que a consciência reencaixa-se, em que a alma se torna novamente uma singular e minha puerilidade torna-se camada fina por chegar novamente no seu auge de energia.

em cada corrida me torno um sopro e, após ela, eu sou mais um.

quinta-feira, outubro 26, 2006

052
exquizencontros são
máquinas de poesia.

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051
concha
no mar é doce
docinho
sal

como eu faço
pra abrir
o oceano?

se abre pra mim
docinho
doce

uma linda foto
do mar se cabe

pra mim
me abre.


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053
cresci
fui trabalhar
parei de ir ao bar.

mas hoje,
agora,
vamos tomar
uma, só uma
cerveja?

eu sei,
você não vai sair de casa hoje,
mas nada custa implorar...


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054
você sabe
nesse doce dia:
lou reed está certo
eu errado.

um café esquentaria
um pouco de solidão
mas eu sei
estamos acordados

eu bem aqui
e lá está você
bem depois da chuva
nevando.

lou reed está certo,
mas berlin está bem longe.


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055
lembrei de perguntar: vc gosta de política?
depende
hehe


partidarismo
bom... há coisas que não gosto de discutir

ms vc gosta das coisas, apesar de não discuti-las?
uhum

então vc tem discussões interiores sobre elas?
obviamente

e vc sempre extrai algo de útil delas?
uhum!!!

e vc toma decisões a partir daí?

...

quero dizer: vc (sempre) toma decisões a partir das discussões interiores?
claro

e vc sempre obedece às decisões?
tenho bastante certeza quanto às minhas opiniões e decisões

e vc tem sempre domínio sobre elas?
como assim?

decide a partir da própria iniciativa.
exato.

sem abandonar a racionalidade extrema.
porquê as perguntas??
... claro que não


te provocar.
ms ainda tenho outra...

...

e depois?
o que?

depois que vc decide e põe em prática, vc decide outra vez sobre a decisão?

(pausa de 3 minutos)

(pausa de mais 1 minuto)

ta bom... eu consegui??


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056
- eu desisto!

- mas como? a gente não ia conversar?

- quando? a questão é que...

- amanhã depois da aula!

- é que eu sou uma pessoa meio ansiosa. quer ver? ... olha pras minhas unhas - todas roídas!

- aiii! calma...

segunda-feira, outubro 23, 2006

crec

ruth souza, 2002
ruth souza, 2002. fotografia.














"(...) de uma forma exemplar, a morte é o acontecimento de todos os acontecimentos, o sentido no estado puro: o seu lugar radica no emaranhado anônimo do discurso; ela é do que se fala, já sempre acontecida e indefinidamente futura, e sem dúvida acontece no ponto extremo da singularidade. o sentido-acontecimento é neutro como a morte" (michel foucault, teatrum filosoficum - nietzsche, freud e marx, p.54).


ruth conta que quando criança escrevia seu nome nas largas folhas da sua árvore de infância, que hoje permanece no quintal de seus pais em sua antiga residência. folhas secam e caem - que sentido nisso? (não responderemos).

repetir a ação - colher o próprio nome no corpo seco, despojado e... um cadáver crocante, como o esqueleto de um sacrificado. ruth conta uma anedota que aprendera com sua avó, em que o cadáver-raiz desprende-se como pássaro - seria esse o percurso ascendente das folhas com seu nome próprio?

para josé miguel wisnik (ao aludir, em 'o som e o sentido', à pesquisa de marius schneider), o ritual de sacrifício mostra as permissões e interdições de uma sociedade onde sofrer e purificar fazem parte de uma mesma e feliz celebração - o sacrificado transforma-se em instrumentos musicais de mediação divina (seu couro, seus ossos ...) e participa da energia cósmica universal.

o seu cadáver é sonoro, como as folhas na sua crocomecânica monocórdia - sua nota variante e inconclusa varia de timbre e intensidade, porém é sempre a mesma. esse cadáver no qual o símbolo não pode fixar-se e que, enfim, é antes um corpo em transe que de tempos em tempos retorna, como a ave enterrada por uma criança e transportada pela raiz da folha novamente até as nuvens e o Sol, o vento e a mesma terra.

há cerca de dois meses, ruth abriu um ambiente construído em três cômodos da casa localizada nos fundos do quintal de seus pais, no Park Way (brasília-df). todo o chão do ambiente foi coberto de folhas secas e, entre vários objetos que lembram pessoas queridas, remetia àquela memória do corpo um dia despojado mas, outra vez, vivente.

a ordem do que vimos foi construída com o zelo daquele que arruma o seu quarto e guarda muito bem as memórias de prazer, as quais podem tornar-se o objeto de uma vida muito íntima. para compreendermos sua natureza, diremos que ela está sempre muito próxima daquele trauma da vida ou da memória que furou todo bloqueio da racionalidade para irromper em nascimento incontido, e um nascimento incessantemente recorrido em lembranças - essas, fragmentárias e jamais conclusas.

dentro de um armário, no segundo cômodo do ambiente-instalação em que entramos, havia um álbum de fotos. Ana estava lá, pequena e querida. guardada e protegida na escuridão negra de um interior em que sua imagem é sempre infância, nunca é Ana.

por um lado, justo a alegria da concepção ou o feliz amor como lembrança corporal, isto é, concretização dos anseios de uma família. por outro, a profunda ausência que nos violenta, sempre reposta como imagem impossível - uma totalidade plana e opaca. o nascimento é um eco sem fim entre essas duas paixões. o prazer da vida aqui é mostrado, portanto, em uma relação ambivalente com a dor, figura de sublimação e de investimento energético simultâneos.

lembramos que nesse aspecto o som é fundamental. uma boneca gira e faz ressoar "yesterday" de uma caixinha de música. a barra do seu pequeno vestido azul, usado por Ana em suas fotos, repete, a cada volta, o contato seco com as folhas, nas quais arrasta-se numa idêntica e constante pulsação.

em dois ambientes encontramos camas. eles são bem distintos. porém, nos parece que as germinações de grãos de feijão na primeira cama e o ramster que deveria mover um aparelho foto-cinético de ruth, ao pé da segunda, instauram a tentativa de separação entre vida e morte.

seria necessário ligar esses cômodos como núcleos anamórficos ou instáveis para presenciarmos a figuração total do corpo-memória que intuímos. fazendo esse esforço de união é que podemos entrever um deslocamento simbólico entre objetos de desejo e a volubilidade do sentido familiar, sempre lembrança - afânise e presença.







allan de lana, copa


allan de lana, folhas
allan de lana, copa
allan de lana, copa e folhas de amendoeira. brasília - altura da 208 sul, próximo ao eixo monumental.

segunda-feira, outubro 16, 2006

mariposa, traças, formigas

terça-feira, outubro 10, 2006

companheirismo
ousei entitular isso que escrevo, porque faz parte de um exercício segundo alguém que não deixaria nada como um amontoado inominável. hannah arent. vou buscar essa companhia tão longe tendo tantas pessoas queridas, mas certamente elas não me punirão.

falo de alguém que está de corpo ausente. mas, se admito a perspectiva de transfiguração da ausência, com nietzsche - a vida como eterno retorno do mesmo - tal como rogério basali fez hoje no minicurso-seminário que proferiu na UnB, diria que arent está aqui: "eu sou todos os homens" (nietzche, em 'ecce homo').

desconcertante, percebo a dificuldade do substantivo em qualificar gêneros - "homens"? diria então, bem entendido: eu sou toda a memória ou toda a ampulheta em uma única "poeirinha da poeira" (idem, em 'a gaia ciência'). talvez a partir daqui fizéssemos a perfeita junção desses dois filósofos - um se recusa a guardar e transvalorar, o outro faz que a vida seja pensamento-vida como acúmulo interminável, com toda a carga de uma pesada questão... de um corpo que um dia se despoja como um dado que não percebemos, um corpo ao qual não resistimos (memória inconsciente). arent + nietzche = ação e memória.

arendt quer-nos mostrar o que é agir e fabricar o mundo. para ela, toda obra existe quando é fabricada (pela ação) e perdura enquanto bem ou coisa material - sua vida ultrapassa a do agente, a do autor, a do artesão. está fora de suas mentes e, poderíamos ousar dizer, o fato de a obra originar-se da razão demonstraria o exercício de liberdade que a aproximaria da política ou pelo menos de um espaço político.

da minha existência poeiril, olho para essa arendt da outra bandeija da nossa libra e imagino que hoje, nesse momento, ela seja a minha mais pesada questão. me força a querer estar "entre o passado e o futuro", mesmo sabendo que esse lugar é apenas uma invenção, assim como os outros. o que agrada nisto senão a companhia? pois não há ação nem liberdade de um só.

as atividades em homenagem ao centenário de arendt tiveram início hoje e vão até 14 de outubro, quando ela completaria 100 anos. a programação pode ser obtida em http://www.amormundi.org/.

domingo, setembro 17, 2006

para onde?
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para onde?



domingo, setembro 03, 2006













050

eu sou uma variação do modelo, não um ser evoluído.
somente uma nota, absoluta e localizada.













sábado, julho 29, 2006



olho de quarto

domingo, junho 25, 2006

desço a barra de rolagem e vejo uma fotografia de um quadro, que não mostra dele senão um mínimo detalhe de aproximadamente 6 x 8 cm. Aquela visão é possível apenas ao mirante do Jacroá. Contemplando a altura das montanhas escorregamos até os vales onde há lagoas - são umas doze ao todo, das quais na imagem que temos aparecem três, encobertas pela neblina da distância, bem a uns 20 Km dali. O acesso é por Marliéria, cidade cuja história nos conta ter sido fundada em 1865, por Guido Marlière, um grande visionário francês. Guido teria subido ao pico de uma montanha pouco íngrime à cavalo. Imagino que sua mãe o acompanhava a partir de um porta-retratos de ouro em forma de pêndulo, guardado no bolso, às vezes confundido com o relógio prateado do desbravador! No cimo, então, esse homem crédulo e benfeitor inflou o diafrágma e arrepiou os supercílios erguendo uma espada que cintilou raios emocionados por todo o seu peito. Naquela tarde porém nublava. Sua vontade maior era insuflar em tudo o Deus, num único ato de heroísmo que reluzisse até os píncaros das mais remotas cabanas, na alma de todos os banhistas das doze e das outras tantas lagoas de água quente. Quem sabe chegaria seu clamor até o organismo das piranhas que também nadavam em nosso detalhe de pintura!!! Desse espírito imbuído, liberou com verves aquele espanto acumulado em suas botas enquanto contemplava os vales se tornarem vales na medida em que galopava para arribar tantas montanhas, que por sua vez iam virando matas. Foi assim que, arrepiado e sem muito fôlego, pensou e sentiu emoção no corpo, enquanto gritava para um mundo inteiro de carrapatos e cobras que o cercava: "Je croix!!!". Um século se passou e algum administrador benevolente homenageou a cidade dando o nome de seu fundador a toda a região alcançada pelo grito, que teve, sem dúvida, uma ressonância débil, fatigada. Depois, um prefeito aproveitou a sabedoria popular para nomear uma área de um monte, muito bem localizada para visagens panorâmicas, de "Pico do Jacroá" - uma transcrição refinada, do berro de Guido, para o bom e velho português mineiro.

À caminho do Pico, uma exuberante vegetação pode ser contemplada sob a frescura de nichos e corredores à sombra, entre paredes levemente desbarrancadas de uma montanha e árvores com diferentes espaçamentos e alturas. O único inconveniente é que, enquanto caminhamos 5 Km de subida, acabamos por suar e reter toda uma camada da estrada de terra em nossa pele a cada vez que um automóvel guiado sem a devida cortesia e educação passa veloz. Mas nada fustiga a alegria de ver espíritos solitários aproximarem-se lentamente, como se geradas do barro e, riscando o espaço, remodelando-o com um simples movimento de caminhada, levarem a emanações de magnetismo. Os corpos, quando se aproximam assim com esse flúido cósmico, realmente vibram e remodelam a posição de suas partículas. Toda sensibilidade renova-se e curva-se, tomando a forma de uma saudação receptiva e curiosa. Toda a natureza, porém, tonifica esse mundo. Nunca me esquecerei daqueles senhores da volúpia e da leveza no caminhar, revestidos por um aveludamento verde-vessie com luz refletida em azul turquesa surgido de um suculento rio ou de uma lagoa cheia de piranhas, que agora creio ser a verdadeira mistura de cores da Vitória de Samotrácia, uma vez que elucidam o mesmo espírito dos ventos. Exitaria em chamá-los de marimbondos, uma vez que isso poderia instigar certos preconceitos. Comportavam-se dóceis e cônscios dos limites territoriais de sua doçura, além de parecerem ter um aguçada visão, o que não existe na maioria dos marimbondos.

Naquela manhã em que eu ia, solitariamente, pisando a terra para regressar do Jacroá às casas de minhas tias em Marliéria, fruí da presença de tais seres com a confiança que se tem em guardiões de algo a intuir-se como a queda de uma pétala a partir das nuvens. Intuição apenas, cujo ímpeto à captura nos envenenaria, trazendo o deleite entorpecente da morte e alucinações idílicas - essa paz que salivamos ao contemplar um ser cujo caminhar é quase um pouso e que assim também se ergue leve no ar enquanto anda com as patas. Sua mecânica é limitada por um cânone estético: nenhum movimento brusco com as asas, para mostrá-las plenamente. Veladuras de vessie trespassadas por nervos em três níveis básicos de espessura, o grosso, o fino e o finíssimo, para os quais avançam e obscurecem, desde suas proximidades, tons de azul da prússia. Arremate alaranjado sobre rugas de um extremo que já quase não se liga ao corpo, doando-se aos humores do vento, como uns rendados tecidos por uma criança de quem a agulha exita e escorrega. Por fim, o movimento galante, cuja cadência às vezes se altera, mas se mantém nos limites do apreensível, de modo que um desenhista animador muito aprenderia observando-lhe por horas. Para mostrar toda exuberância, o movimento não é suficiente para altos vôos, assim os guardiões levitam como espíritos, mantendo suas patas distantes da base o suficiente para que também caminhem, contanto que as asas estejam prestes a transportar suas almas por destinos virtuosos. Às vezes eu me convencia de que toda aquela natureza e o caminho que a cortava eram suspensos pela imponência desses habitantes, além de seguros por suas patas e conduzidos no alto por suas asas!!!

Alguns cruzavam em minha frente, tranqüilos, mas fluíam em sentido contrário quando eu me aproximava.



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hoje é segunda-feira. Se bem que já se foram as 24 horas - é terça, mas vivo ainda o meu astral de hoje, para o qual ainda é uma segunda-feira.

... ou talvez eu me engane: nada melhor do que uma terça para pensar nos prazeres e lamúrias ao longe, como se já nos tivessem pertencido um dia, num sábado, talvez. Domingo...

é certo, porém, que esse conflito não mudará a verdade sobre o dia de hoje. Ele não existe e não me convencerá, nem sequer um perspicaz, da existência dos dias! Assim também são os diários: podemos acumular impressões como se todas elas ocorressem no domingo. Riscamos as seqüências de um a trinta e um, a trinta, a vinte e oito ou nove ao longo das páginas, usando borracha e "liquid-paper", destituímos-nas das orelhas da agenda em todo um mês e mais trezentos dias - são o mesmo e único domingo.

a vida sem os dias é como um alongamento ao acordar de manhã sob uma ducha quente. Sentimos que nossos poros refazem-se levemente, como se abrissem apenas para inflarem-se da disposição de que a luz os mantenham aquecidos e em expansão. É quando dilatamos o nosso espírito de modo a resultar em leves assanhamentos capilares e libidinosos - epifania tântrica.

os dias não passam de simulação incronguente do ritmo circadiano - os ciclos de estações, de dias e noites, de repetições astrais circulares... O que produziram de mais fantástico foi uma peripécia involuntária. Abro a Poética de Aristóteles, que me diz ser a peripécia uma ação que evolui para o seu contrário. Teríamos os dias como registro de ciclos naturais, mas hoje perduram como a marca de esquecimento dos fatos e dos sentidos: acreditamos naquilo que os relógios nos informam e o ciclo perde sua positividade para o diagrama. É assim que vive um cidadão comum.

ora, mas comecei a declarar-me um nostálgico, quando lembrei de caluniar os dias... Mas para mim não há nostalgia sem pensar no que nos tornamos. Porém, a minha não tem nada que reivindique o passado, esse tempo que construo como sinônimo do último domingo, quando tive um dos clímax de uma crise sentimental que se vem arrastando, não por ter-me apaixonado, mas por ter saído dos esquadros bem traçados de um Cronos robótico.

pena que, diante de tantos devaneios meus, chegou a hora de um descanso, motivo pelo qual não irei explorar o assunto principal que propus no início. Objeta-me: "sair assim de sopetão deixará espaços para inúmeras indagações e até conclusões!" e "concluir é um dever moral!". Treplico: quando o sono ataca bem determinadamente, a vaidade e a moral são desligados de modo tão perfeito que sonhamos, com a liberdade dos ventos.




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o que relato em 5 minutos, que é o tempo desse número teatral - um monólogo? Não sei porque, sempre me sinto pendurado por uma linha finíssima que liga uma gaveta de rasgados a um destino em breu. Um fio do qual sinto, pendurado pela haste craniana perfurada de fora a fora, os seus extremos perdidos, sem avistá-los: sei por onde vêm e vão, sinto a sua tônica toda vez que uma paixão me interroga. E uma vez ela mesma me fitava com uma chave-de-fenda enquanto eu acordava num lugar estranho, então pensei nas nossas posses: há algo que possui mutuamente aqueles que se apaixonam e que pode ser levado às últimas conseqüências, pois o amor é um exagero. E se ela me parafusasse na parede? Era de fato o que premeditava e o desfecho que teria nossa história se eu estivesse talvez um pouco mais sujeito e desprotegido. Parafusar-me-ia e apontaria ao próximo a dormir em seu leito: "olha, um quadro sentimental e trágico, cujos efeitos de luz e espaço foram baseados em sonho". Quem discordaria dessa forma de amar? Afirmo que é legítima e verdadeira, por mais que se enrosque em parafusos e, talvez, possamos dizer, seja a forma autoritária de corresponder à seguinte espécie de abertura de espírito, que é a minha: "amo a quem me fizer de luva". Por esse caminho, seria autoritário transformar o outro em uma pele legítima arrancada de um urso ou em um quadro sinistro, pois ao escolher tal caminho pela razão e pela comodidade, deve-se perguntar: "quantos lados tem uma luva e quantas mãos ela simula?".

os 5 minutos se transformaram em 15... Ah, são tantos rasgados!

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