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allan de lana

domingo, novembro 04, 2007

relato sobre gravar

o caminhar realiza a individuação - percebo comandar meu corpo e ter dele consciência. quero dizer: ponho o real em relação a mim... o que se realiza? a consciência - que em nada pressupõe verbalização ou referência ao mundo pela via de um código instituido - forma-se como um "self" que sustenta todo objeto da vivência. Esse, lança perspectiva às coisas que percebo - a pedra, o trigo... -, não importa que sejam independentes, pois são postos mesmo assim em perspectiva. (não temos o objetivo de discorrer sobre husserl e merleau-ponty, mas podemos lembrar que esse retoma aquele para desenvolver tal aspecto fenomenológico - o self a partir do qual se visa).

nosso relato vem indicar a possibilidade de um aprofundamento da individuação. caminhando, tomamos consciência do corpo e de sua consciência, de que o comandamos e ao mesmo tempo nos constituimos como "eu" - não de forma bipolar como revelação, nem binária. caminho em direção a uma árvore e esse ato a aproxima, então posso intuir que aprendi a compreender o corpo nessa autonomia da vontade que dialoga com o universo. processa-se uma gravação dialógica, um temporizar intransitivo: deixo o aspecto propício ao "eu" ganhar forma na duração do self em seu deslocamento exterior. esse, radicaliza as vivências corporais individuais e, na medida em que corresponde à constante movimentação da consciência, mantém vínculo com individualidades e sentidos mais profundos.

o campo da vivência, daquilo que se registra na consciência de determinada maneira, possibilita considerar o horizonte em expasão da formação do "eu". se caminho agora para longe da árvore, tenho o sentido daquilo que fomos enquanto estávamos próximos e de toda a transformação operada em nosso distanciar. se é assim que vejo minha posição agora, como um movimento total, não como recorte ou fotograma de instantes determinados, então para minha consciência não faz sentido separar passado e futuro, pois o tempo está no vivido. Assim, a vivência situa-se em uma rede temporal mais elástica do que o sentido que atribuimos ao momento presente ou ao passado.

na individuação minha vivência consiste em um sentido por adiamento, isto é: viver de trauma e lembrança e constituir a memória agora, sem cindi-la pela noção de passado, enquanto me desloco sobre a vaga ("lugar, espaço que não se encontra ocupado e pode vir a sê-lo", segundo o dicionário houaiss). sei, então, que sou este ser, porque sou capaz de condensar em mim toda a distância vivida desde aquela árvore. contudo, isso também significa protelar a memória - continuar a adiá-la - e habitar a impermanência, com a sensação de proximidade com o que esse longo caminho traz a mim.

Estou mais perto de ser real.
Não dependo das rédeas,
seguro-me nas crinas.


nesses versos de carpinejar (extraídos da obra cinco marias) parece habitar a consciência da proximidade. a dependência das rédeas seria tomar o real como aquela segurança provedora de seio materno. por outro lado, segurar-se nas crinas significa assumir a inconstância, habitar o devir após abandonar as certezas de que seremos salvos da queda como sujeitos passivos na tradição e na cultura. só por reducionismo se pode cindir de nós o futuro...

caminho há vários dias e noites e carrego comigo um gravador. não há ninguém ao meu lado. carros passam. cavalos. pessoas empoeiradas com também já estou. estabeleço relações temporárias em terra alheia onde sinto propriamente constituir uma origem, pois é nela que me permito abandonar as certezas e a fé. a família deixa de carregar o símbolo de verdade, de conformação. toda tradição vira refluxo passível de mostrar-se no agora - não se pode guardar esse presente no aparelhozinho digital que carrego. a mão provedora não me extende seus ídolos, nem seu conforto, e posso habitar o caminho que desconheço - distraio-me e esqueço o aparelho que está a gravar, deixo de tentar comandá-lo.

sou um andarilho na paisagem, uma vaga móvel. caminho e distancio-me - condição propícia para que o trauma fulmine e seu existir irredutível e imemorial revele-se como traço no presente. esse é o caráter de uma lembrança na qual a família não será mais a boa maneira edipiana da castração-educação.

a distância é o que permite que a família e a amizade germinem à diferença das árvores genealógicas, cujos galhos brotam de "lugares certos" e mimetizam ou preenchem a forma segura, idônea. enquanto me distancio desse jogo de espelhos (estabelecido com o passado, com a certeza ou com o ego) encontro o fio cortante dos ídolos e o vivo como traço. o símbolo, que é o real familiar; e o pasto, real da percepção enquanto caminho e o vejo, conectam-se com aquilo de que me aproximo - são protelados. a gravação como prova do real tem um mesmo aspecto de ruína. mas de fato a esqueço, pois a consciência é uma distração para com o que se crê presente. por isso, ela aflora em direção ao horizonte, onde já não está em mim. Lá, constituirá o sentido de um adiamento para o agora no qual implico, como uma espécie de cosmogonia - todos os eus do universo, suas inconstantes gravações e complicados palimpsestos.

domingo, outubro 21, 2007

... poema a anaxímenes...

En
golir
pelo
ar
do

ar

pelo
nariz
riss.

Ar que tudo une:
inspirar o mundo
inspirar moléculas de Platão
inspirar e levar ao pulmão
a pobre que dormiu na várzea.
Inspirar tudo o que já se foi

expirar
e
pirar
e
irar e ar.

ear
que une
os ouvidos.

Peido
que une
intestinos.

O ar.
O uno.

sábado, outubro 13, 2007

A alma que desperta com alvoroço
Faz a poeira levantar.
Os grilos saltam para fora do seu caminho.
Os pássaros, com presságio, voam-se.
Camaleões, cobras, urubus e até a menor criatura
pensa na maldade da alma que se aventura
fora do sonho, fora do mundo dos espelhos -
ela só vê o além-de-si,
por isso tem o diabo estampado no senho
de tão benevolente, mesmo que por princípio insegura.

O mundo dos espelhos no qual ela dormia
é cheio de poeira do lado de fora,
encima.
O primeiro sinal de sua ruptura,
na qual saiu (saiu pra fora!), pé na estrada,
é que isso cria nuvens no mesmo instante
e grandes chumaços de pó
que às vezes lembram teias de aranha.

Mas as nuvens se desfazem
porque retornam à superfície -
são elas que espalham o pó no ambiente.

Essa nova configuração
renova a atmosfera no interior do espelho
e cria-lhe um outro fora, um outro exterior.

E os pássaros?
E as formigas?
E os camaleões?
As cobras?
Acaso eles também não mudaram seu caminho?
Sim, e seus batimentos cardíacos se alteraram.
Algum morreu de infarto... Isso é possível...

Depois desse passeio a alma retorna ao espelho.
Aos poucos as coisas chegam à estabilidade -
o exterior e também ela própria, sua aparência,
que é a expressão do que ela é.
Aos poucos a alma se deposita de novo
em si mesma e segue como um recipiente
cheio de poeira e seres infinitamente pequenos.

terça-feira, outubro 02, 2007

alguns tópicos por desenvolver...

uso e esgotamento da linguagem
uso e esgotamento da política
uso e esgotamento do uso
uso e esgotamento da moda
uso e esgotamento da ética
uso e esgotamento da propriedade
uso e esgotamento do trabalho
uso e esgotamento da criatividade
uso e esgotamento da técnica
uso e esgotamento da objetividade
uso e esgotamento da ciência
uso e esgotamento do arquivo
uso e esgotamento da reprodução
uso e esgotamento da educação
uso e esgotamento da vontade
uso e esgotamento da possibilidade
uso e esgotamento da incidentalidade
uso e esgotamento da leveza
uso e esgotamento do amor
uso e esgotamento da lembrança
uso e esgotamento da transitoriedade e da permanência
uso e esgotamento do mito
uso e esgotamento de si
uso-esgotamento do acesso ao outro
entrega à paixão pela liberdade
uso e esgotamento da paixão
esgotamento do uso.

Bem
que te acompanha
nas sombras da tua orfandade.

Bem
que te desforra
como sombras cobrindo a montanha.

Bem
que te escurece
como o ponto iluminado na intransponível

sombra
que te adia
e faz nasceres no caminho, na distância.

segunda-feira, setembro 10, 2007

O Rio corre vazio;
A luta de classes continua
Ruinas feias mitos pobres
Quem vive o prazer da natureza sem geografia.

. . .Glauber Rocha, Roma, 1979 - Poemas Eskolhidos


Divulgo o escritor Jason Frutuoso.

a forma final de sua primeira obra a ser publicada, "Samuel e o Bezerro Dourado", tem forte participação familiar - as ilustrações internas feitas por mim, a capa e a contracapa ilustradas e diagramadas pelo Alex (meu irmão) e a constante e intensa revisão geral da estória por nossa mãe.

o enredo, originalíssimo, conta dois dramas principais: o de Samuel diante das situações de iminência da perda de seu querido bezerro, Dourado, e o do narrador-personagem diante da sua iminente morte, que poderia significar a interrupção da narração. em uma análise que relacione vida e obra do autor - conhecido em brasília como psicólogo atuante - notamos que o cenário da trama, inquestionavelmente, são as suas próprias memórias da paisagem mineira e da realidade social das redondezas do Vale do Rio Doce, onde passou a infância.

o livro, já revisado, arte-finalizado e com duas bonecas prontas está em ponto de impressão. assim, estamos iniciando uma busca por patrocinador(es) e editora interessados.

veja mais detalhes no site do autor, www.jasonfrutuoso.com.br. os interessados em saber quando for ocorrer o lançamento podem entrar na "Lista de Interessados".

segunda-feira, setembro 03, 2007

O Vento

Queria transformar o vento.
Dar ao vento uma forma concreta e apta a foto.
Eu precisava pelo menos de enxergar uma parte física do vento: uma costela, o olho...
Mas a forma do vento me fugia que nem as formas de uma voz
Quando se disse que o vento empurrava a canoa do índio para o barranco
Imaginei um vento pintado de urucum a empurrar a canoa do índio para o barranco.
Mas essa imagem me pareceu imprecisa ainda.
Estava quase a desistir quando me lembrei do menino montado no cavalo - que lera em Shakespeare.
Imaginei as crinas soltas do vento a disparar pelos prados com o menino.
Fotografei aquele vento de crinas soltas.

Fonte: Manoel de Barros - Ensaios Fotográficos.


O vento balança as jubas folhosas,
As quais guarnecem jornadas por terra,
Previnem do olhar celeste viagens interiores.

Desbravador que aos topos se lança
Em tais meandros devassa trilhas
E sobe pedras a içar montanhas.
Concretiza nos cumes as ventanias,

Igual cariátide que engolisse um buda,
A sustentar - mais alto do que os píncaros
Que o levaram nas entranhas -
O infinito na ponta dos cabelos.

Fonte: Allan de Lana - caderno de explorações, M.G./D.F., 2007.


trechos de um inventário de ruídos

30: motor, silêncio.
31: parece buzina e latido; vinheta de rádio - futebol.
32: silêncio.
33: silêncio; ruídos muito ao longe.
34: caminhão, assobio esquisito - janela do quarto de barbacena.
35: motor; ruídos muito ao fundo.
36: em busca de rua do Largo do Rosário.
16: Gilson, descompressão, caminhada grav. no bolso, música e carros ao longe, caminhada lenta piano, porta, cão.
17: tráfego.
19: latidos, repetição constante de cliques.
20: indefinição com cliques.
21: idem + latidos a 1'55'', jatos de vapor.
22: ruído constante, motor, clique de trem, trilhos.
88: pássaro perto da cachoeira.
89: água da fonte do IBAMA caindo no ralo.
90: idem, com mais variações.
91: aparentemente, silêncio total.
92: ?
93: pássaros.

terça-feira, agosto 28, 2007

explorações

Freud, em cartas a seu médico Fliess, começa a explanar-lhe o que seria o conceito de exploração, o qual é retomado por Derrida na década de 1960, para compreensão de como a teoria literária poderia contribuir com a psicanálise e valer-se do seu legado nas investigações sobre a leitura e aquilo que se chamou diferencia (uma espécie de ato constante de diferir e construir-se a partir da diferença - em francês, differance). por um lado, teríamos a impressão do que se sente, do que vem de fora (o tato, por exemplo, é sentido nos dedos ao digitarmos no teclado), impressão a cada vez iniciada e apagada, um estímulo não memorizado e recebido sempre como se fosse o primeiro. por outro lado, tal estímulo levaria informação a neurônios do cérebro capazes de armazená-la, porém sempre parcialmente e, a cada estímulo, surgiria a sensação de memória a partir das diferenças entre as suas explorações. exploração é um conceito-chave para pensarmos as transformações do século XX nas artes visuais e performáticas, não só se estivermos focados em literatura, pois dificilmente terminaremos uma lista dos inúmeros artistas que se valeram da citação ou da repetição. Só como um dos exemplos possíveis, buscamos um comentário do crítico português João Lima Pinharanda sobre a pintura de Jorge Martins, ao considerá-la "sombra sem corpo":

Uma dança de espectros assombra, no sentido direto da palavra, a realidade contemporânea.

Usando toda a sorte de duplicações e desmultiplicações, cópias, clones do velho, mortal e gasto corpo humano (de que menos recusamos a admitir a fragilidade heróica, que desejamos esquecer e que desejamos descartar), as sombras são aquilo que podemos designar como o que nos resta, como o lixo.

(...) reproduzimos os seus movimentos [movimentos do corpo] de desesperado e inesperado explendor, projetando-o na tela de um cinema, fazendo-o brilhar no monitor de uma televisão (ecrãs), repetindo-o na tela de uma pintura. Mascarando-(n)o(s).

não obstante esse aspecto assobroso de um duplo ameaçador que se faz tão presente no mundo contemporâneo, a possibilidade de que a memória tenha algo de positivo também estaria, segundo Freud, sujeita à exploração, na qual não há uma origem, um arqui-sujeito. Segundo ele, o "arqui" está riscado, mas, sob riscos, o vemos legível, como isca a atrair-nos para encontrá-lo intacto.

o áudio abaixo resulta do aspecto produtivo e, para mim, positivo da exploração, no qual ela não representa uma perdição em busca do "arqui". tratam-se de fragmentos da obra gradeado, editada hoje, uma exploração a respeito de uma cerca que encontrei próxima de uma rodoviária - cuja imagem lembro vagamente - em volta de um curioso monumento maçonico e também a respeito de uma enorme escultura com metal enferrujado e repleta de vazios, vazios enormes e vazados, da autoria de cildo meireles.




gradeado


domingo, agosto 26, 2007

estou de volta e pretendo fazer postagens ainda mais espaçadas, porém densas (ou com potencial) e legais! agora só preciso descobrir como fazer para postar sons, mas não se preocupem, parece que o blogger tem novas funcionalidades para hospedagem de arquivos e vai me ajudar um pouco com isso. sejam bem-vindos.


o novo formato traz os arquivos do blog para imediatamente após a área de postagem, a qual comportará sempre as três últimas inserções que eu fizer. também incluí, pela primeira vez em todos esses anos, o meu perfil, pois sempre eu soube que não tinha um perfil comportamental, um estilo ou um padrão para ver, ouvir, agir e agregar, só que atualmente eu sei expressar essa situação de uma maneira minimamente compreensível.


qual o assunto das próximas semanas? você pode sugerir algum, mas penso em trazer uma leva de poesias geográficas que estou desenvolvendo junto com reflexões, aquarelas e edições de imagem e som. também trarei alguns desses sons. ao mesmo tempo, acredito que anotações, no momento superficiais, sobre paisagem, linguagem e memória possam ser compartilhadas com os leitores para estimular comentários e quem sabe trocar contribuções com quem estiver interessado no mesmo assunto.


até mais!

terça-feira, março 13, 2007

verni de abertura das obras 'fêmea' (allan de lana) e 'toca' (matias monteiro e luciana paiva)
dia 15/03, a partir das 19h, na casa de cultura da américa latina (CAL) - SCS Q. 4, Ed. Anápolis - telefone (61)3321-5811.

visitação de 16/03 a 17/04 - de terça a sexta, de 12h a 20h; sábados, domingos e feriados de 12h a 18h.

sábado, fevereiro 17, 2007

olhe ali, na metade inferior do post do dia 7 de janeiro... lá está o jardim de epicuro que eu tinha prometido.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

bem... começo aqui, pela primeira vez neste blog, com esse pigarro. o motivo é que eu disse que iria complementar o texto sobre Epicuro com um outro texto a respeito dos amigos que se reúnem em um jardim. ainda não fiz isso e nem, como faço normalmente, apaguei a frase que se refere a esse assunto, o que seria muito mais cômodo pra mim... ocorre que de fato ocorrerá esse acréscimo, porém tenho-o dificultado com uma meta que me impus, de eliminar da vida certas contradições. parece-me que essa 'desterritorialização' não é nada fácil, até que se realize com facilidade. tenho tido alguma dificuldade em retomar um raciocínio prolongado na escrita e nas atitudes em um nível mais agudo do que eu vinha tentando. quando dores no joelho me impediram de continuar tentando alongar minhas lentas e demoradas corridas, notei que algumas categorias ainda estavam tão arraigadas em meus hábitos que meu pensamento, que eu tinha dificuldade de conceber sem que se desse no plano dos objetos e das ações, ocasionava um desgaste físico grande. mas ficar 'parado', sem fazer quase nenhum exercício longo, também leva à degradação do organismo, que fica sedentário, logo impossibilita-se aos pensamentos mais agudos, extendidos e re-generados no corpo. além disso, tal situação promove a ansiedade e a dissipação de energia em pequenos atos auto-flagelatórios e em círculos irresolutíveis do pensamento (lembro-me por isso vagamente da linguagem corporal na criança, tal como abordou Henri Wallon, cuja ausência levaria a um degradante 'circuito perverso' da desmotivação impulsionada pelo não-saber e não atuar). enfim, gostaria de retomar de um modo muito mais vigoroso aquele primeiro pensamento corporal e isso tem cobrado-me esforço e uma desadaptação que acaba levando a um certo abandono temporário de algumas sistematizações. esse grande parágrafo termina aqui e eu partilho de um poema-comentário que recebeu o número sessenta - surgido em um contexto um pouco distinto desse que expus.


60 - resposta aos comentários

queria comentar
sem dizer nada.

e o nada que
não
tenho a dizer
é.

ilustrar
me faz parar
de roer as unhas
(uma terapia),
coisa que também
é prazerosa -

dói sem ninguém ver,
termina secreto
e sem velas
como a saliva
de um enforcado
político.

eu não disse nada.

domingo, janeiro 07, 2007

homenagem ao 2347º aniversário de Epicuro
nascido em Atenas, em janeiro de 341 a.C., epicuro foi para Samos ainda novo e lá conheceu o platonismo, diante do qual não pareceu entusiasmar-se. aos 14 conhece o pensamento de demócrito por Nausifano. efebo, volta a Atenas em 323 a.C. para tornar-se militar. a cidade havia sido derrotada pela Macedônia, sua família, que, ao que se apregoa, fora nobre, perdera então suas terras. Epicuro vai a Colofônio em busca do pai e ali aprofunda-se em uma literatura tradicional que nota não ter mais crédito espiritual entre os seus contemporâneos. Na introdução dos Pensamentos por Johannes Mewaldt (Editora Martin Claret, 2006), mostra-se uma gama de pensamentos astrológicos aos quais se atribui um pessimismo de época, vinculado, ao que nos parece, ao humanismo então predominante e à decadência que representou a derrota de Atenas e influiu na depressão daquele humanismo. porém, a vacina de Epicuro que, em nosso trocadilho, os cínicos (do grego kúón, kunós, cão, pelo latim cynìcus - Dicionário Houaiss) não tomaram - apesar de, segundo relatos, terem vivido com verdadeiro e impressionante desapego - foi o atomismo de Demócrito. a concepção de um universo além e maior que as paixões humanas fornece ao epicurismo uma chave da ataraxia, isto é, da vida feliz no conhecimento e no exercício da razão.

o atomismo de Demócrito (circa 460-370 a.C.) foi desenvolvido a partir dos ensinamentos de seu mestre Leucipo. nessa doutrina, nada nasce a partir do nada e os mundos são numericamente ilimitados, perecíveis e composíveis. o que forma primordial e naturalmente esses mundos são os átomos e o espaço vazio. segundo a doxografia, os átomos têm grandeza e forma. a essas duas características Epicuro acrescentou o peso, que faria os corpos moverem-se. os átomos não seriam divisíveis, porém os corpos que compõem, sim. para Demócrito a natureza dos átomos é estática, o o seu movimento resultaria do choque entre corpos e do impulso decorrente.

o universo de Epicuro é igualmente atômico e sua grandeza vai muito além da capacidade de apreensão do ser humano, que não experimenta seus extremos, e só poderia intuir, assim, a sua infinitude. mas seria um dever desse ser tão pequeno criar as condições de sua felicidade, o que faz do epicurismo um eudemonismo. ele opõe-se a Demócrito no ponto em que este considera que se estamos apartados da verdade, devido à diversidade dos átomos e imagens que só afluem-nos como percepção. Epicuro quer infalíveis os órgãos sensoriais. porém, nas duas concepções, o conhecimento que deve guiar a ordem do espírito está ligado às coisas por meio da sensibilidade. a sensibilidade fornece um tipo de dado empírico dos antigos. a partir do conhecimento dela a vida pode ser guiada pelo prazer, à felicidade (euthimia demócrita). a hedoné, ou prazer, pode ser interpretada como ausência de dor que proporciona o gozo pleno da existência. o epicureu, porém, é o oposto de um promíscuo, o que ele procede é a escolha dos prazeres que lhe são adequados, a partir do conhecimento da natureza em sua totalidade. esse conhecimento seria dado satisfatoriamente pela física atomista.

nessa doutrina, o movimento dos átomos lhes é constante e as qualidades desse movimento têm limite. mas a diversidade de formas atômicas é infinita e sua minúscula dimensão inapreensível. os átomos podem conectar-se e desvencilhar-se, quando são consoantes respectivamente à vida ou à morte.

quanto à vida, o ser humano tem a alma idêntica ao corpo e ao desfazer-se, termina qualquer possibilidade de perpetuação espiritual. o além é uma criação maluca, pois é inconcebível uma existência sem corpos.

a isso parece conectar-se André Comte-Sponville na sua noção de "alegre desespero". pois se a constatação da morte definitiva assustaria, dela Epicuro faz uma justificativa para uma felicidade, assim como a de Demócrito e Leucipo, calcada na tranqüilidade do espírito que nada deve a nenhum além. não há nada com que se exasperar, não haverá punição e os deuses não interferem na vida ou na morte humana, vivem "na sua", no que Epicuro chamou de entremundo.

essa doutrina parece ter chegado até nós graças ao poema latino De Rerum Natura, de Lucrécio, que influenciou sobretudo Virgílio e Horácio. a sua retomada deveu-se à biografia do filósofo publicada por Diógenes Laércio e à obra Epicurea, de Herman Usener.

há ainda outro modo pelo qual Epicuro nos chega, pois milhares dos seus átomos dissipados ou outros semelhantes aos seus, constitu-nos e temos com ele uma ligação cósmica, assim como todos os pensadores da felicidade ou do rancor que o sucederam. isso é uma felicidade e estamos de parabéns por mais esse aniversário de Epicuro! Em breve, registraremos aqui uma hipótese de sua festa no Grande Jardim filosófico do Planalto Central da Atenas brasiliense, rodeado de amigos. a festa será aqui, neste mesmo post do dia sete de janeiro (que não é o dia exato do aniversário).

Bibliografia básica:
EPICURO. Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2006. (Coleção Obra Prima de Cada Autor).
BORNHEIM, Gerd A. (Org.). Os filósofos Pré-Socráticos. 12ª ed. São Paulo: Cultrix, 2003.


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jardim epicureu
é difícil conservar a idéia do jardim de Epicuro nas mentalidades de hoje em dia. um dos motivos principais - além da distância cultural entre nós e ele e das conseqüências da globalização que põem em cheque as fronteiras do público e do privado, da amizade e do desconhecimento - é o excesso afirmativo da doutrina cristã que impregna o pensamento ocidental. é preciso abdicar da idéia de um Deus criador se quisermos pensar em um jardim epicureu, em que os prazeres não podem ser isolados nem em um órgão, nem muito menos nas mãos de um deus.

à diferença de um jardim da idade média, no qual encontra-se a idéia de paraíso (palavra persa que, segundo Kenneth Clark, significa espaço cercado por muros) em que Deus pode ser visto nas pequenas coisas, nos seres menores, o jardim de Epicuro evoca a sabedoria do corpo e do espírito. Clark fala dos jardins de Siena pintados no séc. XII que neles os sujeitos colocava-se entre uma jornada dentro da natureza e uma contenção diante dos perigos de corrupção da Ordem de Deus. daí serem os jardins delimitados, cercados, livrados da peste negra que assolava os miseráveis além dos muros e das tentações de uma natureza obscura. Epicuro, entretanto, um grego que fundou seu jardim filosófico em Atenas, não teve de temer nem a peste negra nem os prazeres. no séc. IV a.C. grego a guerra era mais temível do que a doença. além disso, para o atomista em seu jardim os prazeres não poderiam corromper, como uma natureza cujo âmago reservasse tragédia e perdição aos sentidos.

dentre os 40 aforismos de Diógenes Laércio sobre Epicuro temos alguns a respeito do conhecimento da natureza (os de número 10, 11, 12, 25, 29, 30 e 31 fazem-lhe referência direta) que demonstram um entusiasmo impensável para um cristão preocupado com a gênese. o atomista ocupa seu pensamento e vida investigando o modo como o cosmos e o eu vêm a ser, ignorando a sua origem e libertando-se da angústia perante a morte - ele não deve penitência nem graças aos deuses. o medo da morte é um bloqueio para o prazer da vida no jardim de Epicuro. no fragmento 12, Laércio diz: "É impossível perdermos o medo que temos de nós quando indagamos sobre aquilo que acontecerá no fim da nossa vida, se não estivermos instruídos a respeito da constituição do universo (...). Sem o conhecimento da natureza, não gozaremos, pois, inteiramente, prazer nenhum." assim, se construímos "nossa segurança perante os homens" sem que "os acontecimentos no céu e na terra, isto é, no universo infinito, possam causar-nos algum receio" (D. Laércio, aforismo 13), estaremos abertos ao prazer. a felicidade aqui está baseada em uma vida tranqüila e segura, que nenhum deus, nenhum além, nenhuma morte ou mundo outro poderiam proporcionar, pois pertence ao mundo das coisas limitadas, terrenas, vivas e presentes.

a percepção dos corpos, em Epicuro, deve ser colocada entre os fundamentos de uma fenomenologia que retoma elementos de um pensamento pré-moderno. o jardim, aqui, é mais semelhante a uma vontade de conhecer e estar próximo do que de isolar-se do mundo em crise e estar distante do mal natural oculto. a carne biológica, física, proporciona prazeres fugazes de um desejo infinito, dependente inteiramente de um tempo ilimitado e angustiante, que se repetirá incansavelmente. já o saber, está ligado à sensibilidade da carne, logo à finitude ou a uma delimitação racional do mundo para que este ganhe sentido. o pensamente epicureu não se direciona à sensibilidade pura, mas ao espírito, em sua capacidade de apreender, avaliar, limitar, acabar com toda ilusão de eternidade e com a angústia do desejo insaciável. eis, então, um jardim que nos convida a deleitar e pensar os fenômenos com um grande senso de presença e realidade.
o jardim de Epicuro é do prazer presente. além disso, nada faz sentido, nada enaltece, nada é justo, nem nobre, nem venturoso a priori. toda a justeza humana, que muitas vezes é atribuída a determinações divinas, é fruto de convenções acerca do lugar presente e da necessidade de uma convivência harmônica que deixaria que a felicidade e o prazer fossem preservados. parte do aforismo 20 de Laércio demonstra que há prazer somente enquanto há carne e sentido. "... Verdade é que o homem sensato não evita o prazer, e quando finalmente as circunstâncias o obrigam a deixar a vida, ele não se comporta como se esta ainda lhe devesse algo para a suprema existência." uma tal vida, feliz e plena, só é possível se vivida com paz na alma, característica que Epicuro, no seu fragmento 31, diz ser o mais belo fruto da justiça. assim, o sábio é aquele que cultiva leis para preserva-se das injustiças que ameaçariam a paz de sua alma e dissipariam os seus prazeres.

Por fim, além de brindarmos a segurança do jardim de epicuro - que é dada tanto por uma saída da massa dos homens que têm uma concepção comum de que os deuses proporcionar-lhe-ão felicidade quanto pela existência da amizade - dizemos que lá é um lugar de vida ativa. pois "é sem valor pedir aos deuses aquilo que nós mesmos podemos realizar" (aforismo 19 de Epicuro). o presente e a vida simples são muitas vezes renegados erroneamente como lugares de utopia por uma sociedade que crê no real como uma vasta torre econômica lavrada por um Deus antropomofizado que, por ser justo, determinaria toda injustiça e desigualdade sociais, julgaria os bons como ricos. mas a sociedade assim formada é ilusória, pois o presente é lugar único da satisfação e da saciedade e no qual podemo-nos realizar, enquanto o mundo capitalista é construído inteiramente na possibilidade e na virtualidade econômica e o cristão, igualmente, em um ser que não pertence nem ao presente nem à carne.


"Quem menos necessita do dia vindouro recebe-o com mais alegria." (fragmento 32 de Epicuro)

sexta-feira, janeiro 05, 2007

59 - ocê parada
eu não sei como
é que ocê
olha
para ocê

para olhar
ocê

para...

de olhar
para
ocê parar
de olhar

ocê

para
ser, você
para de olhar
ocê.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

58
chega de imaginar imaginários
eu quero um pouco de realidade inventada


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heresia
na sua origem grega, haíresis siginifica a capacidade de escolher. para um estudante pode ser deleitante pensar nisso, pois talvez a heresia esteja muito próxima do seu universo.

a palavra ganha importância devido aos cânones católicos apostólicos romanos seguidos pelo imperador constantino após ser convertido, que pretenderam conservar intactos os mistérios da trindade e manter entre os fiéis o desconhecimento da natureza de cristo, à qual não se poderia questionar. poderia-se apenas crer nela, pois exprimi-la seria levar a diferenças interpretativas, a relativizações, o que abriria a possibilidade da escolha.

eis aí uma prática de sucesso improvável caso não haja opressão brutal à vida, mas que hoje é um dos combustíveis da nossa academia, muito embora esta seja herética ao perseguir o conhecimento da verdade e da ciência. entretanto, se mudarmos de perspectiva, se olharmos como as linhas de pesquisa tomam contorno e os grupos de pesquisadores segmentam-se e tornam-se até mesmo pessoalmente incompatíveis, notaremos que o destino da universidade inclui uma brutalidade sisuda.

lembramos que a guerra pelo privilégio de umas idéias também envolve a manutenção de campos de conhecimento herméticos que repelem qualquer ameaça e qualquer questionamento. Talvez, mais ainda, tal egoísmo estrutural relacione-se com a domesticação de um público que vai possibilitar uma durabilidade maior de todas as barreiras e limitações de cada um dos nichos sisudos da academia e a garantia de permanência desses no mercado. Essa última característica é quase sempre muito dissimulada - em um desses cursos universitários de artes, por exemplo, esse é um tabú dos maiores e, ao mesmo tempo, um obelisco adorado secretamente.

nesse ambiente, há um herege. claro que os professores e pesquisadores acabam sendo heréticos com relação a algumas verdades estabelecidas - na maioria das vezes essas são heresias mornas, sem paixão -, mas os verdadeiros hereges, os quais fundam seu percurso na capacidade de escolha e de questionamento, são os estudantes. nós, e aqueles que se nos assemelham, somos os responsáveis por todo o fervor existente na academia. nós, dotados de um tesão escroto, temos uma relação de gozo mais intenso com o conhecimento, nós viemos do futuro e tocamos o foda-se.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

57 - supernova
sou uma letra
passada por
letra passada.

curvatura do alfabeto
de alfabetos.

sábado, novembro 11, 2006

aura, explica Walter Benjamin, é uma experiência do eterno sentida no momento transitório e único.

a fotografia tornou reprodutível o que antes era único. acabou com a aura. tirou-a do domínio exclusivo da aristocracia. a fotografia é uma burguesinha.

mas uma foto recupera sua aura, ela pode ter (e tinha) rastros da ação do aparelho (abrir-fechar), possui vida no tempo e se torna acúmulo de vestígios, um objeto com aura.

o contemplador, aquele que a restitui na versão atualizada e imaginária, faz que a imagem exista no momento único e transubjetivada. não adianta não querer, a aura vive!!!

além do discurso da originalidade e da unicidade, passamos à re-velação no instante. para isso, podemos utilizar a experiência do êxtase provocado por adrenalina e força.

não me apego à não-expansão-reposição das idéias de Walter Benjamin e, assim, afirmo que essa é uma estratégia da aura, não uma coisa do sujeito que prova dela.

a experiência do êxtase. o sujeito equivale-se à eternidade do transitório ao fazê-la e ganha a dimensão do cosmos por um pulso - ele é pura faísca presente.

um corpo cruza a linha de chegada e tomba: o chão é leito onde se dissipa o gozo, no momento em que a consciência reencaixa-se, em que a alma se torna novamente uma singular e minha puerilidade torna-se camada fina por chegar novamente no seu auge de energia.

em cada corrida me torno um sopro e, após ela, eu sou mais um.

quinta-feira, outubro 26, 2006

052
exquizencontros são
máquinas de poesia.

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051
concha
no mar é doce
docinho
sal

como eu faço
pra abrir
o oceano?

se abre pra mim
docinho
doce

uma linda foto
do mar se cabe

pra mim
me abre.


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053
cresci
fui trabalhar
parei de ir ao bar.

mas hoje,
agora,
vamos tomar
uma, só uma
cerveja?

eu sei,
você não vai sair de casa hoje,
mas nada custa implorar...


____________________


054
você sabe
nesse doce dia:
lou reed está certo
eu errado.

um café esquentaria
um pouco de solidão
mas eu sei
estamos acordados

eu bem aqui
e lá está você
bem depois da chuva
nevando.

lou reed está certo,
mas berlin está bem longe.


___________________


055
lembrei de perguntar: vc gosta de política?
depende
hehe


partidarismo
bom... há coisas que não gosto de discutir

ms vc gosta das coisas, apesar de não discuti-las?
uhum

então vc tem discussões interiores sobre elas?
obviamente

e vc sempre extrai algo de útil delas?
uhum!!!

e vc toma decisões a partir daí?

...

quero dizer: vc (sempre) toma decisões a partir das discussões interiores?
claro

e vc sempre obedece às decisões?
tenho bastante certeza quanto às minhas opiniões e decisões

e vc tem sempre domínio sobre elas?
como assim?

decide a partir da própria iniciativa.
exato.

sem abandonar a racionalidade extrema.
porquê as perguntas??
... claro que não


te provocar.
ms ainda tenho outra...

...

e depois?
o que?

depois que vc decide e põe em prática, vc decide outra vez sobre a decisão?

(pausa de 3 minutos)

(pausa de mais 1 minuto)

ta bom... eu consegui??


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056
- eu desisto!

- mas como? a gente não ia conversar?

- quando? a questão é que...

- amanhã depois da aula!

- é que eu sou uma pessoa meio ansiosa. quer ver? ... olha pras minhas unhas - todas roídas!

- aiii! calma...

segunda-feira, outubro 23, 2006

crec

ruth souza, 2002
ruth souza, 2002. fotografia.














"(...) de uma forma exemplar, a morte é o acontecimento de todos os acontecimentos, o sentido no estado puro: o seu lugar radica no emaranhado anônimo do discurso; ela é do que se fala, já sempre acontecida e indefinidamente futura, e sem dúvida acontece no ponto extremo da singularidade. o sentido-acontecimento é neutro como a morte" (michel foucault, teatrum filosoficum - nietzsche, freud e marx, p.54).


ruth conta que quando criança escrevia seu nome nas largas folhas da sua árvore de infância, que hoje permanece no quintal de seus pais em sua antiga residência. folhas secam e caem - que sentido nisso? (não responderemos).

repetir a ação - colher o próprio nome no corpo seco, despojado e... um cadáver crocante, como o esqueleto de um sacrificado. ruth conta uma anedota que aprendera com sua avó, em que o cadáver-raiz desprende-se como pássaro - seria esse o percurso ascendente das folhas com seu nome próprio?

para josé miguel wisnik (ao aludir, em 'o som e o sentido', à pesquisa de marius schneider), o ritual de sacrifício mostra as permissões e interdições de uma sociedade onde sofrer e purificar fazem parte de uma mesma e feliz celebração - o sacrificado transforma-se em instrumentos musicais de mediação divina (seu couro, seus ossos ...) e participa da energia cósmica universal.

o seu cadáver é sonoro, como as folhas na sua crocomecânica monocórdia - sua nota variante e inconclusa varia de timbre e intensidade, porém é sempre a mesma. esse cadáver no qual o símbolo não pode fixar-se e que, enfim, é antes um corpo em transe que de tempos em tempos retorna, como a ave enterrada por uma criança e transportada pela raiz da folha novamente até as nuvens e o Sol, o vento e a mesma terra.

há cerca de dois meses, ruth abriu um ambiente construído em três cômodos da casa localizada nos fundos do quintal de seus pais, no Park Way (brasília-df). todo o chão do ambiente foi coberto de folhas secas e, entre vários objetos que lembram pessoas queridas, remetia àquela memória do corpo um dia despojado mas, outra vez, vivente.

a ordem do que vimos foi construída com o zelo daquele que arruma o seu quarto e guarda muito bem as memórias de prazer, as quais podem tornar-se o objeto de uma vida muito íntima. para compreendermos sua natureza, diremos que ela está sempre muito próxima daquele trauma da vida ou da memória que furou todo bloqueio da racionalidade para irromper em nascimento incontido, e um nascimento incessantemente recorrido em lembranças - essas, fragmentárias e jamais conclusas.

dentro de um armário, no segundo cômodo do ambiente-instalação em que entramos, havia um álbum de fotos. Ana estava lá, pequena e querida. guardada e protegida na escuridão negra de um interior em que sua imagem é sempre infância, nunca é Ana.

por um lado, justo a alegria da concepção ou o feliz amor como lembrança corporal, isto é, concretização dos anseios de uma família. por outro, a profunda ausência que nos violenta, sempre reposta como imagem impossível - uma totalidade plana e opaca. o nascimento é um eco sem fim entre essas duas paixões. o prazer da vida aqui é mostrado, portanto, em uma relação ambivalente com a dor, figura de sublimação e de investimento energético simultâneos.

lembramos que nesse aspecto o som é fundamental. uma boneca gira e faz ressoar "yesterday" de uma caixinha de música. a barra do seu pequeno vestido azul, usado por Ana em suas fotos, repete, a cada volta, o contato seco com as folhas, nas quais arrasta-se numa idêntica e constante pulsação.

em dois ambientes encontramos camas. eles são bem distintos. porém, nos parece que as germinações de grãos de feijão na primeira cama e o ramster que deveria mover um aparelho foto-cinético de ruth, ao pé da segunda, instauram a tentativa de separação entre vida e morte.

seria necessário ligar esses cômodos como núcleos anamórficos ou instáveis para presenciarmos a figuração total do corpo-memória que intuímos. fazendo esse esforço de união é que podemos entrever um deslocamento simbólico entre objetos de desejo e a volubilidade do sentido familiar, sempre lembrança - afânise e presença.







allan de lana, copa


allan de lana, folhas
allan de lana, copa
allan de lana, copa e folhas de amendoeira. brasília - altura da 208 sul, próximo ao eixo monumental.

segunda-feira, outubro 16, 2006

mariposa, traças, formigas

terça-feira, outubro 10, 2006

companheirismo
ousei entitular isso que escrevo, porque faz parte de um exercício segundo alguém que não deixaria nada como um amontoado inominável. hannah arent. vou buscar essa companhia tão longe tendo tantas pessoas queridas, mas certamente elas não me punirão.

falo de alguém que está de corpo ausente. mas, se admito a perspectiva de transfiguração da ausência, com nietzsche - a vida como eterno retorno do mesmo - tal como rogério basali fez hoje no minicurso-seminário que proferiu na UnB, diria que arent está aqui: "eu sou todos os homens" (nietzche, em 'ecce homo').

desconcertante, percebo a dificuldade do substantivo em qualificar gêneros - "homens"? diria então, bem entendido: eu sou toda a memória ou toda a ampulheta em uma única "poeirinha da poeira" (idem, em 'a gaia ciência'). talvez a partir daqui fizéssemos a perfeita junção desses dois filósofos - um se recusa a guardar e transvalorar, o outro faz que a vida seja pensamento-vida como acúmulo interminável, com toda a carga de uma pesada questão... de um corpo que um dia se despoja como um dado que não percebemos, um corpo ao qual não resistimos (memória inconsciente). arent + nietzche = ação e memória.

arendt quer-nos mostrar o que é agir e fabricar o mundo. para ela, toda obra existe quando é fabricada (pela ação) e perdura enquanto bem ou coisa material - sua vida ultrapassa a do agente, a do autor, a do artesão. está fora de suas mentes e, poderíamos ousar dizer, o fato de a obra originar-se da razão demonstraria o exercício de liberdade que a aproximaria da política ou pelo menos de um espaço político.

da minha existência poeiril, olho para essa arendt da outra bandeija da nossa libra e imagino que hoje, nesse momento, ela seja a minha mais pesada questão. me força a querer estar "entre o passado e o futuro", mesmo sabendo que esse lugar é apenas uma invenção, assim como os outros. o que agrada nisto senão a companhia? pois não há ação nem liberdade de um só.

as atividades em homenagem ao centenário de arendt tiveram início hoje e vão até 14 de outubro, quando ela completaria 100 anos. a programação pode ser obtida em http://www.amormundi.org/.

domingo, setembro 17, 2006

para onde?
.





para onde?



domingo, setembro 03, 2006













050

eu sou uma variação do modelo, não um ser evoluído.
somente uma nota, absoluta e localizada.













sábado, julho 29, 2006



olho de quarto

domingo, junho 25, 2006

desço a barra de rolagem e vejo uma fotografia de um quadro, que não mostra dele senão um mínimo detalhe de aproximadamente 6 x 8 cm. Aquela visão é possível apenas ao mirante do Jacroá. Contemplando a altura das montanhas escorregamos até os vales onde há lagoas - são umas doze ao todo, das quais na imagem que temos aparecem três, encobertas pela neblina da distância, bem a uns 20 Km dali. O acesso é por Marliéria, cidade cuja história nos conta ter sido fundada em 1865, por Guido Marlière, um grande visionário francês. Guido teria subido ao pico de uma montanha pouco íngrime à cavalo. Imagino que sua mãe o acompanhava a partir de um porta-retratos de ouro em forma de pêndulo, guardado no bolso, às vezes confundido com o relógio prateado do desbravador! No cimo, então, esse homem crédulo e benfeitor inflou o diafrágma e arrepiou os supercílios erguendo uma espada que cintilou raios emocionados por todo o seu peito. Naquela tarde porém nublava. Sua vontade maior era insuflar em tudo o Deus, num único ato de heroísmo que reluzisse até os píncaros das mais remotas cabanas, na alma de todos os banhistas das doze e das outras tantas lagoas de água quente. Quem sabe chegaria seu clamor até o organismo das piranhas que também nadavam em nosso detalhe de pintura!!! Desse espírito imbuído, liberou com verves aquele espanto acumulado em suas botas enquanto contemplava os vales se tornarem vales na medida em que galopava para arribar tantas montanhas, que por sua vez iam virando matas. Foi assim que, arrepiado e sem muito fôlego, pensou e sentiu emoção no corpo, enquanto gritava para um mundo inteiro de carrapatos e cobras que o cercava: "Je croix!!!". Um século se passou e algum administrador benevolente homenageou a cidade dando o nome de seu fundador a toda a região alcançada pelo grito, que teve, sem dúvida, uma ressonância débil, fatigada. Depois, um prefeito aproveitou a sabedoria popular para nomear uma área de um monte, muito bem localizada para visagens panorâmicas, de "Pico do Jacroá" - uma transcrição refinada, do berro de Guido, para o bom e velho português mineiro.

À caminho do Pico, uma exuberante vegetação pode ser contemplada sob a frescura de nichos e corredores à sombra, entre paredes levemente desbarrancadas de uma montanha e árvores com diferentes espaçamentos e alturas. O único inconveniente é que, enquanto caminhamos 5 Km de subida, acabamos por suar e reter toda uma camada da estrada de terra em nossa pele a cada vez que um automóvel guiado sem a devida cortesia e educação passa veloz. Mas nada fustiga a alegria de ver espíritos solitários aproximarem-se lentamente, como se geradas do barro e, riscando o espaço, remodelando-o com um simples movimento de caminhada, levarem a emanações de magnetismo. Os corpos, quando se aproximam assim com esse flúido cósmico, realmente vibram e remodelam a posição de suas partículas. Toda sensibilidade renova-se e curva-se, tomando a forma de uma saudação receptiva e curiosa. Toda a natureza, porém, tonifica esse mundo. Nunca me esquecerei daqueles senhores da volúpia e da leveza no caminhar, revestidos por um aveludamento verde-vessie com luz refletida em azul turquesa surgido de um suculento rio ou de uma lagoa cheia de piranhas, que agora creio ser a verdadeira mistura de cores da Vitória de Samotrácia, uma vez que elucidam o mesmo espírito dos ventos. Exitaria em chamá-los de marimbondos, uma vez que isso poderia instigar certos preconceitos. Comportavam-se dóceis e cônscios dos limites territoriais de sua doçura, além de parecerem ter um aguçada visão, o que não existe na maioria dos marimbondos.

Naquela manhã em que eu ia, solitariamente, pisando a terra para regressar do Jacroá às casas de minhas tias em Marliéria, fruí da presença de tais seres com a confiança que se tem em guardiões de algo a intuir-se como a queda de uma pétala a partir das nuvens. Intuição apenas, cujo ímpeto à captura nos envenenaria, trazendo o deleite entorpecente da morte e alucinações idílicas - essa paz que salivamos ao contemplar um ser cujo caminhar é quase um pouso e que assim também se ergue leve no ar enquanto anda com as patas. Sua mecânica é limitada por um cânone estético: nenhum movimento brusco com as asas, para mostrá-las plenamente. Veladuras de vessie trespassadas por nervos em três níveis básicos de espessura, o grosso, o fino e o finíssimo, para os quais avançam e obscurecem, desde suas proximidades, tons de azul da prússia. Arremate alaranjado sobre rugas de um extremo que já quase não se liga ao corpo, doando-se aos humores do vento, como uns rendados tecidos por uma criança de quem a agulha exita e escorrega. Por fim, o movimento galante, cuja cadência às vezes se altera, mas se mantém nos limites do apreensível, de modo que um desenhista animador muito aprenderia observando-lhe por horas. Para mostrar toda exuberância, o movimento não é suficiente para altos vôos, assim os guardiões levitam como espíritos, mantendo suas patas distantes da base o suficiente para que também caminhem, contanto que as asas estejam prestes a transportar suas almas por destinos virtuosos. Às vezes eu me convencia de que toda aquela natureza e o caminho que a cortava eram suspensos pela imponência desses habitantes, além de seguros por suas patas e conduzidos no alto por suas asas!!!

Alguns cruzavam em minha frente, tranqüilos, mas fluíam em sentido contrário quando eu me aproximava.



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hoje é segunda-feira. Se bem que já se foram as 24 horas - é terça, mas vivo ainda o meu astral de hoje, para o qual ainda é uma segunda-feira.

... ou talvez eu me engane: nada melhor do que uma terça para pensar nos prazeres e lamúrias ao longe, como se já nos tivessem pertencido um dia, num sábado, talvez. Domingo...

é certo, porém, que esse conflito não mudará a verdade sobre o dia de hoje. Ele não existe e não me convencerá, nem sequer um perspicaz, da existência dos dias! Assim também são os diários: podemos acumular impressões como se todas elas ocorressem no domingo. Riscamos as seqüências de um a trinta e um, a trinta, a vinte e oito ou nove ao longo das páginas, usando borracha e "liquid-paper", destituímos-nas das orelhas da agenda em todo um mês e mais trezentos dias - são o mesmo e único domingo.

a vida sem os dias é como um alongamento ao acordar de manhã sob uma ducha quente. Sentimos que nossos poros refazem-se levemente, como se abrissem apenas para inflarem-se da disposição de que a luz os mantenham aquecidos e em expansão. É quando dilatamos o nosso espírito de modo a resultar em leves assanhamentos capilares e libidinosos - epifania tântrica.

os dias não passam de simulação incronguente do ritmo circadiano - os ciclos de estações, de dias e noites, de repetições astrais circulares... O que produziram de mais fantástico foi uma peripécia involuntária. Abro a Poética de Aristóteles, que me diz ser a peripécia uma ação que evolui para o seu contrário. Teríamos os dias como registro de ciclos naturais, mas hoje perduram como a marca de esquecimento dos fatos e dos sentidos: acreditamos naquilo que os relógios nos informam e o ciclo perde sua positividade para o diagrama. É assim que vive um cidadão comum.

ora, mas comecei a declarar-me um nostálgico, quando lembrei de caluniar os dias... Mas para mim não há nostalgia sem pensar no que nos tornamos. Porém, a minha não tem nada que reivindique o passado, esse tempo que construo como sinônimo do último domingo, quando tive um dos clímax de uma crise sentimental que se vem arrastando, não por ter-me apaixonado, mas por ter saído dos esquadros bem traçados de um Cronos robótico.

pena que, diante de tantos devaneios meus, chegou a hora de um descanso, motivo pelo qual não irei explorar o assunto principal que propus no início. Objeta-me: "sair assim de sopetão deixará espaços para inúmeras indagações e até conclusões!" e "concluir é um dever moral!". Treplico: quando o sono ataca bem determinadamente, a vaidade e a moral são desligados de modo tão perfeito que sonhamos, com a liberdade dos ventos.




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o que relato em 5 minutos, que é o tempo desse número teatral - um monólogo? Não sei porque, sempre me sinto pendurado por uma linha finíssima que liga uma gaveta de rasgados a um destino em breu. Um fio do qual sinto, pendurado pela haste craniana perfurada de fora a fora, os seus extremos perdidos, sem avistá-los: sei por onde vêm e vão, sinto a sua tônica toda vez que uma paixão me interroga. E uma vez ela mesma me fitava com uma chave-de-fenda enquanto eu acordava num lugar estranho, então pensei nas nossas posses: há algo que possui mutuamente aqueles que se apaixonam e que pode ser levado às últimas conseqüências, pois o amor é um exagero. E se ela me parafusasse na parede? Era de fato o que premeditava e o desfecho que teria nossa história se eu estivesse talvez um pouco mais sujeito e desprotegido. Parafusar-me-ia e apontaria ao próximo a dormir em seu leito: "olha, um quadro sentimental e trágico, cujos efeitos de luz e espaço foram baseados em sonho". Quem discordaria dessa forma de amar? Afirmo que é legítima e verdadeira, por mais que se enrosque em parafusos e, talvez, possamos dizer, seja a forma autoritária de corresponder à seguinte espécie de abertura de espírito, que é a minha: "amo a quem me fizer de luva". Por esse caminho, seria autoritário transformar o outro em uma pele legítima arrancada de um urso ou em um quadro sinistro, pois ao escolher tal caminho pela razão e pela comodidade, deve-se perguntar: "quantos lados tem uma luva e quantas mãos ela simula?".

os 5 minutos se transformaram em 15... Ah, são tantos rasgados!

segunda-feira, maio 01, 2006

in-signos

terça-feira, março 21, 2006

048
e agora, essa gordura de presunto em minhas mãos
uma bomba armada em minha mala
aquele morto subindo a escada rolante
?

049
te amo com as ogivas de minhalma
tenho cautela ao beijar teus seios
sofremos mal de pátria...
e que ninguém nos descubra!

quinta-feira, março 02, 2006

me pergunto:
a leitura em voz baixa é mesmo uma modalidade de leitura?

e ainda:
em voz baixa ou em silêncio?

quem é o interlocutor do meu silenciar?

quem assiste essa minha atividade ou essa minha objetividade, que é insondável, para com as palavras?



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47
quanto mais eu leio, mais percebo não estar vivo.
quanto menos eu leio.



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ponderações
... mas é preciso silenciar às vezes, desde que isso não implique em uma crise de auto-afirmação, numa negação depreciativa do ouvido.
... dizer, afirmar, perspectivar e provocar é precioso - mas perder os ouvidos na própria língua é uma bobagem.
... o george bú é um falastrão - veja a merda...
... severinos e mendoncinhas silenciaram às vezes como sintoma de uma patologia moral (isso indica que eles negaram o ouvido - sentiram a marginalidade de um órgão fundamental)...

... a leitura se dá em silêncio, a vidência no escuro...
o toque - na distância do desejo...

... o amor é uma relação de conhecimento...

... andam procurando escorpiões debaixo dos lençóis - os que querem achá-los com a própria língua perderam não só a cabeça, mas o seu cérebro diluiu-se, depois decantou-se (e agora deve estar boiando) no verbo-de-molas...

quarta-feira, março 01, 2006

a capacidade de conhecer sem ouvir é o teletransporte, fruto de uma das maiores revoluções que a sociedade cristã idiota já presenciou - a loucura.

domingo, fevereiro 12, 2006

a poética da fêmea parece uma expropriação de aristóteles - ela é uma potência imanente na atualidade em movimento, mas um movimento que não apenas se , além disso, suas qualidades também se ligam à impressão.

dinamofêmea
trata-se de uma obra sonora, mas não é um produto cultural cuja linguagem é a música (pois faz parte de intertextos diversos), embora seja harmônica e melódica. letra composta por deslocamentos de dois "lances" aleatórios de texto pertencentes a duas obras filosóficas.

personagens:
pseudo-édipo
esfinge
zaratustra

pseudo-édipo: tu sabes, zaratustra, mas não dizes.
zaratustra: sei, não nego.

esfinge: alethéia, ousia, arké, energeia.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

uma lesma carnívora habita o mastro maior do mundo.



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minha recente atividade
elaborar matérias interceptoras de diferentes freqüências e aparências de vazio, para entrever a fêmea. nela me lanço como gestação desse espaço de vibrações, de armadilhas, e instauro o ritual pré-imagem do meu próprio sujeito.
após racionalizar em parte essas tentativas, denomino-las de miméticas. Mas estou certo, agora, de que elas não consumarão nenhum objeto mimetikos definido, pois esse objeto depende de uma ordem exterior e de credibilidade (e toda crença é fugaz, salvo ameaças fascistas ou cristãs, que forçam, sem escrúpulos, não abandoná-las). daí a natureza necessariamente como produção.
a produtividade humana é maquínica porquanto o Ser ou a veracidade só podem ser a própria transformação (ou movimento) e, desse modo, são verdadeiros, como o amor em noel rosa - para que exista precisa instaurar um campo simbólico da verdade. isso ocorre com a mentira, um artifício catártico de reconciliação.
pode-se aproximar a mímese a um campo ou dimensão das certezas, no qual a fêmea é uma força geradora refratada enquanto pressentimento da imagem.

terça-feira, dezembro 27, 2005

045
Uai!
Depois do quarenta e três
Não é o quarenta e quatro?





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044
Ufa! Se você não avisasse
aqui teria um poema-vácuo.





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045
ALERTA:
Bug do milênio!!!

quinta-feira, dezembro 22, 2005

042
sou exatamente
quem pareço
Ser.





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043
...

- igualzinho ao pai!!!

(que fofo.)






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uma cabeça (em instância)
em instância still de Tobby Damit, dirigido por F. Fellini (fotografia, se não me engano, é de Jean Renoir).

domingo, dezembro 18, 2005

voltamos de cabeça baixa, olhando evasivamente para os lados. Mas os nossos órgãos todos pendiam para um único ponto, tensionados por um mesmo elástico. Quem olharia primeiro, para ser tragicamente arremessado e recolher-se na visagem daquele medo? Quer dizer, em linguagem simples: estivemos longe um do outro, e isso nos incomodava, pois éramos culpados pela distância, e um certamente expiaria por fustigar o silêncio (é esse, o culpado). Então inventei um terceiro com extrema verossimilhança, de modo que ela (a minha companhia) o reconhecera na memória. (Mas não passava, no fundo, da figuração indireta de um andarilho que carregava latas vazias amarradas na cintura). Culpamos-no logo por tudo e no fim das contas foi uma saída simples. Estávamos curados!

quarta-feira, setembro 14, 2005

notação sobre a figura
um sentido: afeita à imitação platônica, a figura se impõe como a verdade objetiva ideal, moral e correta. Ela educa os indivíduos para levá-los ao bem Universal, ensina-os como e o que devem querer. Essa educação é figurativa. O figurativo é o símbolo com característica de mero ícone sem códigos de referência, como a marionete que funcionaria sem um manipulador. É esse conteúdo estranho e não visto que amarra o ímpeto iconoclasta infantil, capaz de estribuchar o estado normal dos elementos em busca de interior. Assim, o educador infantil platônico tem como guia metodológico a necessidade de impor castigo à criança, para proibí-la à experiência com o estranho. Pretende-se prevenir contra a experiência de morte (o vazio, o não-senso), que ao mesmo tempo guarda a possibilidade de descoberta e vitalidade. A relação com o ícone opaco pode ser, ainda, perversa ao destroçá-lo, prática também inibida. Educação figurativa é a coação para o dominante forjado com objetividade.

método e intenção
a educação figurativa ultrapassa a questão da técnica, que enquanto habilidade independe do motivo ou da representação à qual se presta. Entretanto, a técnica acaba por vincular-se à idéia e às premissas morais do artesão ou da instituição que a ensina. As dimensões ideológicas de duas colagens semelhantes, por exemplo, podem ser extremamente distintas. Uma pode deliberar a mímese como movimento bio-fisiológico construtivo, ou projetivo ou, ainda, perverso. Outra instaura a mímese ideal, o modelo de comportamento social, do qual deriva o respectivo plano estético. Esse constitui uma Estética de juízos, não estética de sensações, de sentidos ou de diferenças significantes. Por isso, a figura (diferente de figuração ou figurabilidade) não é um universal contaminador do simples fazer comum da criança que compõe uma casa no campo ensolarado (ela pode estar fazendo isso à diferença do ideal do adulto que tentou condicioná-la, interagindo com a linguagem disponível ao jogar com designações pictóricas pré-existentes). A educação figurativa, como outra qualquer, vai além do método, mas porque parte de intencionalidade exageradamente moral. O que nela se ensina não pode ser arte figurativa, porque ela não pode ser disciplina particular, como a pintura, por exemplo. Para ela disciplina é o sinônimo de obediência. Seu método: punição e crítica; sua intenção: controle.

sexta-feira, setembro 02, 2005

melencolia
Heráclito: "A mais bela harmonia cósmica é semelhante a um monte de coisas atiradas."

Antônio Vieira: "A ironia tem contrária significação do que soa: o riso de Demócrito era ironia do pranto; ria, mas ironicamente, porque seu riso era nascido de tristeza e também a significava; eram lágrimas transformadas em riso por metamorfose da dor; era riso, mas com lágrimas ..."

segunda-feira, agosto 29, 2005

aquele que chegou próximo da escuta estética correu o risco de se tornar especialista, porque em nossa moral não se pode deleitar do sofrimento alheio, nem demonstrar sentir o cortante da fala. Daí uma prática cuja função, na sociedade captalista, é o recalque dos sujeitos que a constituem, dos seus profissionais.

talvez, porém, os surrealistas tenham reivindicado um gozo-de-escuta na fala, na prática da projeção de pensamentos associativos. Esse foi o seu anti-modelo terapêutico. Degringolara, o dada, até que filhos dele descobriram limites expandidos que um plano melancólico e niilista trazia enquanto vontade! O desespero pode ser e parecer amigo do simbólico, ou seja, ser perverso com um círculo que o domina e desdobrar a ordem (o mando) em suas possibilidades mais progressivas, fazer assim o seu método não-estruturalista de educação.

Será possível um método da educação por intermédio da escuta, uma sociedade das falas in-materiais em que o livro de memórias e coisas acabadas não seja mais uma instituição? Será possível levar, ainda, esse ideário além de um plano de harmonias e construí-lo na instabilidade suburbana, como uma escuta marginal?

- respostas a essas perguntas a cargo de outras gerações.

sábado, agosto 27, 2005

metafísica do livro - o ritual
1) oferecemos o corpo, para que as páginas o fatiem;
2) abrimo-nos aos prazeres do não-senso;
3) deixamos que fístulas nos desenraizem e descorporifiquem - a leitura é infecciosa;
4) fazemo-nos vel e névoa a-histórica distendida;
5) cosmificamo-nos;
6) sentimo-nos flutuantes e singulares;
7) por último, desconfiamos que o simbólico nos sujeita - o nosso livro e filosofia resultaram de uma doutrinação hegemônica.

... depois, ainda, além do imaginável, esquecemos - olvido-é-válvula.

"(...) E como, de fato, há no texto [bíblico] tanta coisa obscura e inacabada, e como ele [o crente] sabe que Deus é um Deus oculto, o seu afã interpretativo encontra sempre novo alimento. A doutrina e o zelo na procura da iluminação estão indissoluvelmente ligados ao caráter do relato - este é mais do que mera 'realidade' - e estão, naturalmente, em constante perigo de perder a própria realidade, como ocorreu logo que a interpretação atingiu tal grau de hipertrofia que chegou a decompor o real".

AUERBACH. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 2004. P.12

domingo, agosto 21, 2005

Interessante... Garimpando nos cafundós das minhas lembranças que foram escritas para poderem ser esquecidas encontrei uma mosca e um mosquito. É assim, lendo, que de muito se lembra. Portanto, alguém que leia meu escrito pode lembrar por mim daquilo que eu mesmo sequer imagino que existiu um dia. Mesmo que eu me tenha encarregado de escrever (e esquecer). Segue um novo achado, agora devidamente catalogado e numerado.


039 (A Mosca e o Mosquito)

Zumbido
Mosca
Mosquito

Escondidos
Zumbido
Mosca

Mosquito
Aflito
Zumbido

Mosca
Mosquito
Lixo

Núpcias ao relento
Zumbidos gemidos no vento
Mosca
Mosquito.

segunda-feira, agosto 15, 2005

diagramas
































































id-agramas











domingo, agosto 07, 2005

a fotografia na microexperiência social

"moça, tira uma foto minha ali?"


comportamento típico de mãe curitibana é obrigar suas crianças a fazerem o mesmo...

domingo, julho 31, 2005

romantismo (in)vulnerável


delacroix. liberdade, 1830.
















O Estado brasileiro de hoje quer ser libertador. Mas sua realidade é o positivismo neo-liberal mantido no disfarce de romântico, com toda a sua aura academicista. Por isso ele gasta muito mais em propaganda e marketing do que em educação.









cicatrizes - o Iraque um ano depois


fotografias de anderson schneider - museu oscar niemeyer - curitiba, fev/2005. (foto retirada do folder da exposição).

sexta-feira, julho 22, 2005

Penso que a solidão resolveria boa parte da paranóia social que vivemos.

Certa vez fui andando sozinho do bar até em casa. Eram 2 da manhã e o caminho é tido como perigoso por muita gente. A rua é toda vazia nesse horário e as casas estão fechadas. Há muito medo dos criminosos, mas muitos poucos deles. Como resultado, a noite é desconhecida e o céu nunca tem muitas estrelas, pois elas e tudo o mais só existe para quem os percebe, não para essa classe média, que vive de temores. Fui chamado atenção por me sujeitar ao desconhecido.

Toda percepção do exterior, feita no caminhar, e toda solidão, têm sido substituídas pela segurança. A casa moderna é a simulação da ausência do morador, e é mais cerrada do que a caverna, com objetivo de que o sujeito esconda-se do perigo. Assim também o carro... Tudo sintoma de uma síndrome. A relação com o mundo nesse lugar é guiada pela insegurança e por isso promove-se o excesso de segurança e a tentativa de forjar a privacidade. Resultado: o Estado e a classe média gastam muito mais com segurança do que Deus e o Diabo gastam produzindo marginais perigosos. Mas seria mais econômico para o Estado subornar os criminosos - pagá-los bons salários para que vivessem bem, praticassem um esporte, assistissem filmes, aprendessem um instrumento musical, se iniciassem numa ciência etc. - do que aumentar a polícia e o poder executivo.

Ainda assim, será que a grande paranóia persistiria? Talvez não, se as pessoas redescobrissem a própria solidão. A solidão é um tema fundamental que precisa ser visto pelo povo do Plano Piloto. Ela deixa atuar a mímese, faz parte do distanciamento e da identificação. A saudade e o medo são de certo modo solitários, mas há o ser só de si mesmo. Uma rua molhada, enquanto pura representação pictórica só instaura inseguranças, pois resiste a traduções, mas, por isso, não se pode buscar nela equivalência ao mundo. A lembrança de um crime também é representação da memória, não é idêntica a nada, faz parte da mímese mnemônica e quem a tem só pode fazê-lo estando sozinho - não há imagem idêntica em outra memória.

Sujeitos representados na gravura de Goeldi caminham no sentido contrário ao espectador. Segui-los ou persegui-los, tentar fisgar sua solidão, é ficar só de si mesmo, abandonar-se e, desse modo, entrar no mundo (naquele mundo gravado, de imagem). Assim, podemos dizer que esse espectador é a possibilidade da percepção e da existência, ele anseia pelo fim de toda insegurança, enquanto aquele que se tranca suprime a relação e a vida. Assim, ao nos levar para a experiência com o outro e com o exterior desconhecido, a solidão deve ser, cada vez mais, a nossa casa.

quinta-feira, julho 14, 2005

O medo da morte é bem mais forte do que pinga. Por isso, posso dizer e repetir agora: "eu amo meus amigos". Meu corpo vai mal, ele sente muito.



039
Livro é um moedor de sentimentos
feito de oclusões espiraladas
e quem não é?



038
... sou uma poesia que se alegra com o passado
meu modo de ser é em voz baixa.
quer dizer que minha existência
é o vazio.

... sou toda palavra amontoada ao lado
sem ser lida nunca em lance -
como um dado o qual se atira,
um corpo que voa.

... não narro o meu presente
vivo a morte desfalecendo -
o meu ser em surgimento se perde
- com olhar de criança.

... não tenho inclinações para o concreto
pois sou toda pensamento
e lembrança.

... sou poesia escrita em solidão,
à margem da História.

domingo, julho 10, 2005

Este poste contém:
5 assuntos (ame um e case com ele ou então pegue todos).


a)
pra não perder o costume:

NOVA LEI DE TALIÃO - Nicolas Behr

miopia por miopia
cárie por cárie.


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b)
senhores(as) de Braxília, vão às exposições da CAL e do IdA-UnB. Valem à pena. Destaque para o Moisés (CAL) e a Neila (IdA), como você pode ler aqui pelos olhos do Matias.


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c)
Ah como ser tanta emoção
Na harmonia do abraço
E ser somente esse abraço
Num continente de afeto
O corpo completo sente
Que repleto não se cabe
É o coração em despejo
É a lágrima em seu trajeto
Que zelosa evita o lábio
Para não salgar o beijo.

(O Abraço e a Lágrima - mas sem título é melhor - Lula Queiroga)


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d)
eau de parfum - aqui os posts são sentimentos, se expandem feito o ódio maldido de quem os remói consigo. Seja bem-vindo, a vida é glamurosa.


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e)
037

Amo a quem me usar de luva.

sexta-feira, julho 08, 2005

036 (Sobre o bege e o beijo)

Cobra-me decidir
(quem me cobra? Um-in-sujeito)
entre o bege
e o beijo.

Encontro o em-com-traste.
Não dá pra escapar
porque a lã é bege (Allanbege)
e nessa encruzilhada eu beijo.

Cor feia é o bege
que em oscular se perde
cai dentro entre-pele
sai fora indiferente
como fingisse o que dela se esquece.

Entre o bege e o beijo
mais que um trava-líguas.
É aí que a própria língua escorrega
porque o bege é um sabonete
lambisca, babuja e repete:

Bej.

segunda-feira, julho 04, 2005


035 (Cântico da Taverna)

Só escreve
quem esquece
e não manda
nem obedece.

Só a marginália me apetece!
Só a marginália!
Só a marginália!




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VOLTEI!
Parabéns a São João e São Luiz Gonzaga!

sexta-feira, março 25, 2005

Bibliofagia
Luciana Paiva, Luciana Fernandino, Rebeca Borges e Matias Monteiro.
Exposição com abertura dia 31 de março (quinta-feira), 18:30, na Galeria da Funarte do Eixo Monumental.

.

segunda-feira, março 07, 2005

Nota sobre o ser-em-si
"Só a vontade, cuja obra, ou, antes, cuja imagem é o corpo, é o indestrutível" (Schopenhauer).


Soldado Morrendo. Robert Capa, 1936.

quarta-feira, março 02, 2005

Gonzagão é o pai do Punk Rock, filho ingrato.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Mar é náusea
... e a Lagoa: quantas vezes percorri a lagoa? (45 minutos pra vir, outros 45 pra voltar) Chega daquelas velas, garças e tudo mais. E os três dias de tempo fechado, ainda por cima?

Se me diz "Ulisses", lhe pergunto "qual Ulisses?". Guimarães? Morrer em paz com a tal Iemanjá... Não mesmo! Esse vento leva todo pensamento pra longe. Não me adapto, preciso de feridas durante a meditação.

sábado, fevereiro 12, 2005


Fugidinha
Vou ali malhar o judas e volto já. Considero um ato psicotopossomático, me conheço e sei que sou incompreendido com fama de teimoso. Sempre ali: com medo do mal entendido.

Fui esfaqueado hoje, por vulnerabilidade, mas sem essa de Jovem Werther pro meu lado, calça amarela! Todo essa queixa não pode ser só por causa de um telefonema. Telefonema é pretexto.

Acabei deixando vocês aí sem entender nada. Quem mandou? Foram concordar com essas publicações da vida privada, agora agüentem o desligamento automático. Prometo que é momentâneo. Atenham-se à vantagem de sermos homicidas! O autor não pode conosco, porque somos a própria escrita. Pratiquem todos, publiquem as suas agonias íntimas!

domingo, fevereiro 06, 2005

uma licença poética abusiva
nazi e a sopa de letrinhas

N Z
Z N

pureza, reverência, civilização
quem quer?
eu não










.


segunda-feira, janeiro 31, 2005

Tudo sobre uma árvore



...






...







nada para arvorar o pensamento,

apenas perturbações.


E como os olhos cindem naquela árvore... e naquela outra! Vão direto à bifurcação do tronco - imagem pulsante: mania. Ao mesmo tempo, um mui comum (epocal) estado demasiado emotivo, diria, uma impossibilidade e, sobretudo, fusão importuna, intermitente e alienante da alma. Anima, diz o dicionário, significa princípio de vida.
Por aí, desanimam, enfim.


Árvore engendra uma repetição e uma leve alteração. Penso que signifique vento nórdico, do grego (aér - ar ou atmosfera - mais Bóreas - o deus Bóreas e no sentido de vento nórdico, propriamente). Ar e vento não são sinônimos, mas, em determinada disposição de leitura, se tocam e fazem o ar (atmosfera) mutável, tomado por um de seus elementos moventes. É como Bóreas, que virou a figura de sua tensão animal: de suas duas histórias, a que conheço por alto diz que se transformou em garanhão para deliciar-se com eqüinas que pastavam por campos da Ática.

Talvez toda fusão do tipo arbórea (e as outras) denote certa animalidade, uma regressão do domínio cognitivo. Aqui me parte um vento pulsante, um vento-machado impiedoso, que não permite transportar seivas como Paul Klee, nem fundir de todo. Posso, entretanto, desenhar uma narrativa da insuficiência, uma narrativa da busca por identidade:
qual árvore que não me parte?


Eucalipto é confortante, não bifurca. Poucos quilômetros se caminham à pé daquela primeira árvore da mania até um coletivo de eucaliptos. Com lapso corporal, reduz-se esse caminho a frações disléxicas de chão. Derivei naquelas árvores mais altas e menos bifurcadas. Me vi deitar ali no chão, no asfalto em frente, mas não, era radical, suficiente demais: a retidão extrema. Quem está disposto a arcar com o radicalmente eficaz?

Notei minha alma por perto ali: corpo abalado, pensante, mão direita sobre a testa, olhos vidrados além... Colapsamos linhas na técnica anima sobre paisagem. Uma linha dessas sai pela L3 Norte, só uma, abstrai-se até sumir, vez em quando acaba simulando vísceras (vai, volta, pára, cria paralelas trêmulas, incertas) e torna a desaparecer. Ziguezagues (inquietações). Mas, se não a capacidade para radicalizar, então a calma em conformar. Eis a cura.

Mais um pouco tempo e em frente estava "a" árvore. Bruta, por aspecto e posição de contra-luz com o sol, não por espessura. Curvava o caule para a esquerda. Meio sem cobertura, a copa dizia com o nariz: para lá! Era o ato da tomada de consciência: a curvatura para além do plano. Me abriguei na forma aberta. (Ali ao lado está a outra, a primeira, tenebrosa, pensei ainda). O vislumbre foi um caminhar, seguir aquela pista lançada ao vão.





Texto com alterações, publicado originalmente em:
LANA, Allan de. Tudo Sobre uma Árvore, In PAIVA, Luciana. AR VES. Brasília: Clasta & Clepta Edições, 2004.
Publicação disponível na BCE - Universidade de Brasília.

domingo, janeiro 30, 2005




I



em suma
"É que a gente vai
E fica a obra.
Mas eu persigo o que falta
Não o que sobra."




II



panorama invertido de qualquer pessoa humana.
de modo que não me encontro.




III




férias
pé na jaca.

















CONCLUSÃO



conformação é a munha do gosto
o passo se dá no abandono
quando viajo busco desencontros
o mais é um saco cheio que não derrama.


segunda-feira, janeiro 10, 2005

Agora cheguei da Universidade (já passou de 23:30h) e podia estar no banho pensando em cama. Mas não resisto, e vocês não vão ler isso, porque pensaram que eu só escreveria outra vez em fevereiro e, quando lerem, não poderão comentar. Ótimo, eu adoro calar o silêncio aos outros (na Internet calar tem essa dupla transitividade - e como eu gozo dela!). Vos digo, não sou o Mr. Hide, nem criação de um Dr. Uterson desvairado (e como acreditar nessas negações? Tomem-nas pelo (an)verso, se quiserem). É tudo verdade.

Eu sou. Por isso escamoteio o que passou. Quem vive maltrata o passado consigo mesmo.

Era isso... Algo errado?

Agora posso pensar em dormir. Muito obrigado, palavrinha.

sexta-feira, dezembro 31, 2004

Até daqui a um mês, mais ou menos. Boas festas. (...eu sobreviverei).

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Estética Heimlich Transcendental
Obs.: este texto faz referência a uma parte específica da exposição do grupo "Eu, Você, Nós, Eles", que está acontecendo na CAL (Casa da Cultura da América Latina), no Setor Comercial Sul. Ao mesmo tempo é um convite, pois a exposição vai até o fim de janeiro de 2005.

Kant pós-freudiano? Caro leitor, isso não é deriva, mas uma um surto espaço-temporal. Surto eu. Surtara você ao ver o garfo do Matias Monteiro ou então ao querer usar seus óculos? Se sim, concordará em que há neles um estranhamento que acena, que quase se ergue como ameaça a realizar-se, quase torna seus objetos animados e duplicados.

O ato de ver não só transforma o visto, mas deve proteger o olho. Por isso, a ilusão nunca se realiza: ela aponta faminta para todas as nossas azeitonas, mas não pode fisgá-las. O limite, que é o sentido comum, o ver e conformar-se, é o que Freud atribuiu ao heimlich, familiar. Naqueles objetos siameses do Matias encenam-se quase além desses limites: nascimento e heimlich.

hum) nascimento: dois corpos nascidos não podem fundir-se, nascer é consolidar-se como organismo vivo, unidade, por isso, como para a Nazareth Pacheco, nossos corpos são emborrachados, têm pele, proteção contra a morte.

dois) heimlich: Freud mostra como na história do uso da expressão "heimlich" essa começou a assumir outro sentido, oposto do familiar, o que viria a originar o unheimlich: esse, estranho, aparece como algo oculto no familiar, ameaça que deverá ser encoberta.

* * * * *

A intuição transcendental ocorre sem objeto, ela se realiza no tempo e no espaço, que restam se supomos não haver mediações dos cinco sentidos.

hum) o tempo segundo Kant: é uma intuição "a priori" que estabelece sucessões nas quais um mesmo objeto está presente em seus vários momentos, sem, no entanto, perder sua unidade.

dois) O espaço segundo Kant: é uma intuição "a priori" na qual existem vários objetos que jamais se sobrepõem e só podem existir uma única vez, separados por suas distâncias.

* * * * *

Assim, espaço e tempo são indivisíveis e, neles, as coisas são unidades (espaço) e estabelecem relações internas, tensões, se movem (tempo). É no espaço e no tempo que as formas podem ser percebidas e que as coisas unas se dão aos sentidos do sujeito cartesiano. Mas aquele que vê e sente o que Matias apresenta quase rompe os próprios órgãos dos sentidos. Ao mesmo tempo que vê configurar-se uma aberração, o nascer de um duplo real, também pressente (caso considere absurda a primeira visão) a fusão mortífera. Impossível fugir do unheimlich.

Em lugar de tempo e espaço cartesianos como "intuições 'a priori'", esses aparecem como recalques: sua unidade reconforta a consciência da vida e da potência (reforçada pela unidade do sujeito), mas é mera proteção imaginária. O espaço sem recalques se confunde com o tempo. A expressão "espaço de tempo" é um ato falho da cultura, que indica nessa dubiedade seus prazeres e horrores ocultos por força da linguagem. Prazeres, sim, porque o duplo evoca relações narcísicas do eu.

* * * * *

Se o objeto dos sentidos (seja um garfo, um óculos ou um tênis) se oferece à sensibilidade duplamente, de modo absurdo e abusivo, há uma solução para senti-lo e outra para rejeitá-lo:

hum) a solução para negá-lo é o abrigo da cultura, dizê-lo absurdo para não causar vexame;

dois) a solução para senti-lo é oculta: duplicar também os sentidos, dobrar a sensibilidade kantiana e admitir, assim, o romper dos prazeres e das mortes.

Se aceitamos, secretamente, a segunda solução, duplicamos também, secretamente, os órgãos dos sentidos. Somos Narcisos monstruosos, receptivos a tudo. Surtamos espaço-temporalmente, admitimos o espaço como tempo-espaço. Surge em nós o corpo verdadeiro, que é o corpo erótico, onde ocorrem "a priori" todas as possibilidades. Não é mais um corpo desejante: para ele existe a fruição e o prazer da morte (sem pesares).

terça-feira, dezembro 07, 2004

Nunca falei de mim mesmo: tudo o que digo e escrevo sou eu (provisório). Não é egoísmo, mas talvez narcisismo por mim (ou por um "eu") esfacelado. Quantas interpretações para essa declaração? Que implicações isso tem? Antes de tudo, rejeitei às belas, eloqüentes e bem intencionadas verdades, fiquei sem princípios, mas não sei o suficiente sobre mim. Você sabe? Quase transcendo, como em momento de auto-esquartejamento espaço-temporal. Só posso aliviar a pressão não levando nada com seriedade, isso relaxa meus tendões, posterga o rompimento da última fibra solitária. Penso seriamente que vou a termo de propósito. Caso contrário, me viro contra-baixo e durmo essas cordas de som parco e sem sustento. É um ápice, um momento de silêncio, de suspensão.

segunda-feira, novembro 22, 2004

fragmento de um quarto


Como um diafrágma, vertia a ausência semelhante à descoberta, para um gozo de solidão.



quinta-feira, novembro 18, 2004

Extra!
a bienal depois de um mês e dois dias
Me perguntas: e a Bienal? Toda crítica a depreciou.
Algumas propostas de fato são descamadas ou perturbadas até a queda pelo ambiente conturbado, principalmente no térreo. Mas de início dois momentos me fizeram bem. Agrupei-os com o nome de "obras-descanso", pois seu primeiro impacto foi reter a turbulência e sugar meus sentidos para tateá-las. Laura Vinci e Jorge Macchi foram seus autores. Ambos utilizam materiais não-sólidos e que causam sensação de algo fluido: o som de caixinha de música (ar), em Macchi, o vapor d'água (ar e água) em Laura. A natureza nos dois são diferentes, porque em Macchi o som é associado à imagem de vídeo em loop de uma avenida larga vista de cima, com carros passando em diferentes velocidades, o que deixa o rastro de seu contexto original do cotidiano, que é crítico se estivermos em Sampa. A natureza de Laura deixa espaço maior para a potência do fenômeno natural em si, a evaporação e a condensação. Eles abrem grandes espaços para o gozo fora da experiência e a recombinação de Macchi provoca situação estranha, de desfamiliarização com algo muito conhecido e já carregado de significados, mas ele resiste, provoca como uma criança teimosa e não cai no reino comum dos significados.
Mas esses foram apenas os primeiros a me seduzir. Minha reação foi diferente com Batchelor, por exemplo (imagem acima)... E foram tantos outros...


blog temático
Alguns dos próximos meses serão temáticos. À direita está o tema para novembro. No fundo já são votos para 2005.

domingo, novembro 14, 2004

Com Barthes, por uma estética da dor.
"O estereótipo é a palavra repetida, fora de toda magia, de todo entusiasmo, como se fosse natural, como se por milagre essa palavra que retorna fosse a cada vez adequada por razões diferentes, como se imitar pudesse deixar de ser sentido como uma imitação (...) Nietzsche fez o reparo de que a 'verdade' não era outra coisa senão a solidificação de antigas metáforas (...) O estereótipo é esta nauseabunda impossibilidade de morrer".

sábado, novembro 06, 2004

Quem não foi à vernissage de ontem à noite não viu a infância das "Duas maneiras de furar a si mesmo". Os papéis se modificaram. O vento os torceu e a umidade da chuva invadiu a galeria. O lugar não é mais o mesmo. Convido-os para que assistam a essa metamorfose.

Breve comentário do Matias Monteiro
"A exposição de Allan de Lana na galeria de Bolso da Casa de Cultura da América Latina resiste a escrita. Ele constitui um espaço á parte; Allan nos lança irremediavelmente a um espaço outro, onde elementos flutuam em um desdobramento espacial que não se limita. A idéia dos furos e perfurações (já não recente nas pesquisas de Allan, mas só agora aberta ao público) não perde de vista a agressividade inerente no ato de perfurar, de vencer camadas, forçar caminhos e irromper superfícies. As pequenas inscrições pueris que Allan dispõe sobre as paredes revelam essa agressividade. Mas há também nelas muita suavidade. A perfuração neste trabalho se insere entre o ato violento de romper, e uma poética do não-limite, da não barreira, uma tentativa de igualar interior e exterior em um só espaço. A escolha de Allan pelos grafos infantis parece, neste aspecto, bem acertado. Não se trata de uma ingenuidade, mas de uma clara percepção da infância em si. O mundo também nos irrompe, nos adentra de forma violenta, ou na ambigüidade inerente a violência (furar o papel não com a ponta do prego, mas com sua outra extremidade umidecida). Disso advém uma possibilidade de amplitude.
Os pregos na parede sustentam com certa suavidade os textos e inscrições poéticas. O prego desconhece, ou conhece mas despreza, os limites físicos da sala. Ele quer ir além, ir através... O enxame de maribondos (são todos um nesse jogo de réplicas do coletivo) transfiguram-se em um só ataque, em uma só ferroada. Allan possivelmente não sabe, mas é discípulo inegável de Thanatus; seu furo aponta para uma possibilidade de equilíbrio de suspensão tencional, esse corpo perfurado é o corpo da não resistência, um corpo não mais tencionado, um corpo sem interior... um corpo que dessolve mediante a crueldade do furo, em total amplitude espacial".

segunda-feira, novembro 01, 2004

Voltei pra convidar vocês
Eu eu professor Vicente vamos abrir três exposições ao público dia 5/11, sexta-feira agora, 19:30h, na CAL - Casa da Cultura da América Latina.
A CAL fica no Setor Comercial Sul Quadra 04 - Ed. Anápolis, perto das Lojas Americanas.
Ocuparei a Galeria de Bolso com "Duas Maneiras de Furar a Si Mesmo". O resto é por conta do Vicente.

Duas Maneiras de Furar a Si Mesmo é composta por duas proposições inéditas. Uma são apropriações e pastiches de desenhos meus quando criança, outra é baseada em "Como furar papel-de-seda-azul-com-bolinha-branca", uma técnica sádica para realizar furos industriosos em papel.
Os desenhos infantis apropriados e imitados, o "Como furar papel-azul-com-bolinha-branca" e uma série que não é inédita, de desenhos sobre insetos, estarão expostos na Galeria de Bolso da CAL - Casa de Cultura da América Latina - a partir de 6/11/2004. A abertura da exposição acontece na noite dessa sexta-feira, 5/11.

sexta-feira, outubro 15, 2004

reclamações, ora bolas
Só o metrô salva. O ônibus faltará.

quarta-feira, outubro 13, 2004

Nunca vi Derrida antes que ele morresse.
Ele enfartou no Viaduto do Chá
Caiu no Teatro Municipal.
Rastejou até a Avenida das Quitandas
Quis tomar um mokaccino
Mas já estava louco o suficiente
Quase satisfeito.
A palavra o fez quedar o resto.


sexta-feira, setembro 24, 2004

A partir de hoje teremos mais imagens. Espero que o fato de boa parte delas ser fotografia, entretanto, não as façam bonitas e burras, nem feias e inteligentes. A primeira é bonitinha, bem executada, depois editada, pra ficar mais babaca ainda. Veja como ela é patética, veja como a beleza pode ser horroroza e como não cabe nesse espaço aqui, do eaudeparfum, nem em outro espaço nosso, íntimo. Por isso a publico: gosto de coisas feias, principalmente quando desacatam autoritarismos por si mesmas. Chacotas!: esse é um olhar pra fora, um olhar inconveniente. Adiante voltaremos à nossa leveza, uma ventania de quem tem pesos insuportáveis em suas cabeças-cheias, e que por isso sabe ter momentos de deleite a dois (ou mais).




Tratada de outra maneira, esvaziada da beleza e da harmonia, essa é a imagem de um templo, onde a meditação é usada para, justamente, harmonizar, expandir-se no espaço azul ou branco, vazio. Mas, nesse vazio tão cheio de sentido que se torna agressivo dependendo do blog que o expõe, algo há de ser notado: a mediação. O teto busca a imensidão onde, supostamente, moram espíritos. Mas atrás de um muro preto mora São Francisco, dando de comer aos pássaros. Joões de barro, suas moradas tão singelas, arrebatando de revés as alturas gloriosas de templos com frisos extendidos até as nuvens, são tanto quanto a lembrança pelos sentidos, nada mais, tudo o que se procura sem êxito noutro paraíso. A Beleza com "B" maiúsculo não é terrena.

sábado, setembro 18, 2004

Senhoras, não eduquem seus filhos.

domingo, setembro 05, 2004

Merz
Conhecer o merz é simples e importante. Ele é uma negação sarcástica da razão utilitária.

Como a dialética de Hegel, na denúncia de Michael Peters, composta por negações que constroem a afirmação segundo um princípio de diferença, pode-se pensar o merz em termos do que não é. Peças cheias de "styling" feitas com sucata e ferro velho não o são. Elas podem captar o sentido mercantilista da reciclagem, o mesmo buscado por marqueteiros preocupados em aparentar responsabilidade com o meio ambiente, mas são falsas obras de arte.

O merz verdadeiro, como eu e você praticamos, não se deixa conduzir por moralismos do momento, ele não tem a utilidade como razão de si. O seu autor não abdica do estar-aí, do "ser-no-mundo" e no outro, como primazia da consciência-de-si-no-mundo. O gênio, ao contrário, despreza valores que possam contrariar o luxo idealizado por seus compradores e faz um lixo estilizado.

Para avançar ao conceito, uso a sintaxe anti-nazi de W.Benjamin: afinal, o que é o merz? É uma experiência singular, composta de elementos espaciais e temporais, mas também de relações plásticas, tensões visuais, e sensações conceituais geradas pela descontextualização do elemento descartável. Foi nomeado por Schwitters em 1919, quando usou em sua colagem um folheto de um banco comercial (comércio em alemão = kommerz).

Um dos princípios fundamentais do método de Schwitters consistia em escolher materiais descartados, ordená-los, sobrepô-los e pintá-los parcialmente, de modo a tornar muitas de suas características e textos quase completamente ilegíveis. Obtinham-se relações de tensão compositiva e novas leituras para os "Descartes". Conceitualmente esse princípio pode ser resumido como alteração das relações funcionais com o objeto. Da importância à massificação e do apelo utilitarista vai-se à experiência única, tanto de criação quanto de uso. Das coisas mais ignoradas nas relações despersonalizadas e anômalas vai-se à plasticidade e à percepção. Não há a mínima necessidade de asfixiar a falta de originalidade dos materiais utilizados.

segunda-feira, agosto 30, 2004

porra, blogger, devolve meu texto!

domingo, agosto 01, 2004

031
Seu andar confuso não fazia som.
Toda fotografia é muda.

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