Tudo muito complicado...
Porque ser hermético?
Como ser hermético?
Como não ser hermético?
Hermetismo se consegue abrindo os olhos,
Só não consegue cerrá-los mais.
Vendo, assim, muito e pouco
É muito mais simples
do que atentado.
É solitário,
Tanto quanto o direto e claro,
porque simples é edição
canhestra de moto-catástrofes dialéticas.
Objetividade provoca
Eu lírico.
sexta-feira, junho 04, 2004
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sábado, maio 29, 2004
"Sus, tomemos um escritor deveras límpido e irrepreensível. Não vale a pena submeter a um exame geral exatamente este ponto: se, em poesia e prosa, devemos preferir uma grandeza com alguns defeitos, ou uma mediocridade correta, em tudo sã e impecável?" (LONGINO. Do Sublime).
Certo dia me disseram que uma obra de arte tem que ser bela. "A beleza é a harmonia de todas as partes". Quantas pessoas se identificam com essa frase um tanto sintática? Dizei-me, então: "é nisso que está a perfeição de sua construção, pois é sintática e além disso é simples!". Respondo que quem engana estará fora da República, e essa simplicidade é forja da falácia.
Não quero dizer que existam frases assintáticas, mas que, como se pode ouvir em alguma música do Radiohead, o que se sente nem sempre existe. Harmonia, por exemplo, é algo um tanto fugidio, miragem etílica. No pós-tudo não há um impulso que, descoberto, é omitido em nome da forma sensível e da dosagem equilibrada. Por exemplo: a pobreza foi um tema não-grego, desarmônico, para Portinari, mas não há muito tempo, visitei à retrospectiva do artista plástico Milton Ribeiro, e lá estava a pobreza harmonizada. Algo pareceu conraditório: estudos do expressionismo.
Tanto o expressionismo quanto o meio, ou a mediação, marxista, podem ser condenados e executados sem merecimento. Todo meio é ignorância, assim é aceito na ligação fácil que se faz entre a beleza e os clássicos. Esse desconhecimento, entretanto, é uma das verdades do trabalho. Se atribuem ao modelado por veladuras status de técnica suprema, qual seria o motivo? Será que foi ingênuo o italiano que pensou que seu grande painel não era um rascunho, mas uma Obra com "O" maiúsculo?
Dedicar-se ao trabalho de imitação e ao ensinamento não gera equilíbrio, nem harmonia, a não ser em relação a uma estrutura singular. Assim, no momento em que colocamos na boca dos clássicos, e nossa, uma leveza atribuída tanto a eles quanto a Salvador Dali, lemos dos nossos antigos algo que demonstra nossa própria alienação quanto à fantasia surrealista. "Suponhamos que um pintor entendesse de ligar a uma cabeça humana um pescoço de cavalo, ajuntar membros de toda procedência e cobri-los de pernas variegadas, de sorte que a figura, de mulher formosa em cima, acabasse num hediondo peixe preto; entrados para ver o quadro, meus amigos, vocês conteriam o riso? Creiam-me, Pisões, bem parecido com um quadro assim seria um livro onde se fantasiassem formas sem consistência, quais sonhos de enfermo, de maneira que o pé e a cabeça não se combianssem num ser uno." (HORÁCIO. Arte poética). Eis a estrutura ora refutada, ora ensejada, à qual se costuma atribuir uníssono que não pode ser, senão, nosso mesmo, o público leigo dos OUTROS, distantes e mortos, nos quais só vemos espelho e contigüidade.
Todavia, de fato, a estrutura daquele trabalho ligado ao saber clássico, hoje, parece tão longe quanto os poetas latinos e o ditirambo. Em lugar desse, temos o baile funk, mas também conhecimento de várias verdades. Admite-se, por exemplo que, em lugar da veladura finíssima e delicada, metam-se empastos grossos, suculentos e desconformes e, em lugar da dedicação ao aprendizado da fineza, o afinco ao estudo da grossura. Todavia, o artista, nos dois casos foi considerado legítimo para expressar sentimentos da alma por repetir procedimentos. Tanta expressão não estaria, ao contrário, justamente naquilo que não é considerado? À margem corre o erro, a "grandeza com alguns defeitos" de um antigo anônimo, marginal, que hoje chamam de Longino.
Já que a perfeição, a beleza e a harmonia são vistas simultaneamente de pontos de vista tão diversos, poderíamos dizer: trabalhar é ser ignorante. Hoje, os croquis de Leonardo são expostos em grandes museus e em galerias internacionais, atraindo enorme quantidade de público leigo afeito à beleza clássica estratificada no meio de um sistema sem ordem e massificado. Justamente esses rascunhos subtraídos quando a pintura não tem furos, apenas é imagem convexa, são a prova do lesbianismo e da imperfeição enrustidos na idealização estéril, por mais prazerosos que sejam.
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sábado, maio 01, 2004
Dia do trabalho
Só em São Paulo -
Milhares na Praça da República.
Em Brasília, doze horas.
Há dois anos eu pisava naquela cidade: meu eu retrógrado entrou em revolução.
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E o filme proibido está no ar. Senhoras e senhores, mais que o enterro de Di Cavalcanti, o poema de Glauber Rocha:
http://www.dicavalcantidiglauber.us/
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sábado, abril 17, 2004
A surrupiação
UnB - segunda-feira, 12 de abri de 2004: a história do Centro Acadêmico de Artes Plásticas da Universidade de Brasília foi queimada após seu armário ser arrombado e Departamento ter dado baixa no móvel. Não se identificou ainda o autor da surrupiação. Nem todos a rondar a área são confiáveis e o próprio VIS (Departamento de Artes Visuais) esteve, durante a semana, levando para o depósito móveis sem dono que ocupavam o antigo espaço do Centro Acadêmico.
O armário contendo toda documentação do CAPLAS, incluindo atas das reuniões e registros diversos desde sua fundação, ocupava espaço provisório, definido em votação do colegiado e intercalado com aulas. Lá mesmo se perdeu o maior e mais relevante patrimônio representativo da participação política organizada dos Estudantes de Artes Plásticas. O evento marca o cume de uma série de golpes sofridos contra a reestruturação de base tentada desde o início de 2003.
De lá pra cá, inúmeros incidentes desgastaram a relação entre os representantes dos estudantes e a chefia de departamento. Nesse ínterim, merecem destaque crítico tanto a inexperiência do CAPLAS e sua atuação informalista quanto postura ambígua da Chefia a despeito das reivindicações dos estudantes, o que também é validado pela informalidade generalizada. Alguns eventos exemplificam essas prerrogativas negativas e valem ser postos novamente à tona.
Quando se sabia, diante de anúncio oficioso, mas sem assinaturas, da participação do CAPLAS em comissão para reestruturação de espaço, a tal resolveu às escuras reunir-se à parte, esquecendo, cinicamente, os estudantes. Nessa mesma ocasião, por três vezes, duas seguidas, o mesmo assunto de pauta foi omitido pela chefia em reuniões de Colegiado. O assunto era a reinclusão do CA nas conversas sobre reestruturação do espaço físico do VIS.
Entretanto, diante de pressões e traumas a pauta foi aberta. Alegando que o CAPLAS não tinha atividade visivelmente constante, o Colegiado votou pela divisão do Ateliê 1 entre CA e aulas. A proposta abaixo-assinada pelos estudantes e encaminhada ao Chefe de Departamento era ocupação integral do espaço, bem como a melhoria de suas condições de segurança e início de direcionamento a atividades com a comunidade. A negação a esse pleito exacerba-se com o fato de dois alunos de Artes Plásticas terem sido pegos em flagrante furtando o PC do CAPLAS, doado por uma de suas colegas. O aparelho teve perda total ao cair das mãos de um dos criminosos.
Como atos exemplares, no entanto, vieram queixa à polícia e punição (à altura ou não), tanto do criminoso maior de 18 anos e de seu pupilo, quanto de todos os outros alunos. Reclamam os que não possuem micro que, além de serem prejudicados ao realizar seus trabalhos acadêmicos, ainda têm de conviver com impossibilidade de uso do laboratório localizado dentro do próprio VIS.
É de se espantar, portanto, que um corpo discente já descrente e apático com relação a políticas e reformas na Universidade, em seu currículo e na infra-estrutura de seu curso tenha passado por surrupiação tão pungente. A extensão histórica da passagem de gerações de aprendizes, que antes tinha seu espaço, ainda que pequeno, em algumas prateleiras de um armário velho, agora só existirá em fragmentos longínquos, em memórias tão fugazes quanto nossa carne. Apodreceremos todos em meio a esse mal, patético, que é a reivindicação egoísta da fala e do poder, do esqueleto, do espaço e das futilidades de que todo corpo oco diante de egos heróicos se enche ao tentar extinguir Histórias. A verdadeira tautologia do vazio.
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027
Quem morre faz poesia.
Viva.
A Língua grassa agonias,
Dita -
Doura
E finca a daga impávida
Chofra -
Dor sente quem a instiga,
Arde,
Pensando que poesia
Salva.
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domingo, março 28, 2004
repulsa ao sexo em uma introdução para dissertações de vestibular
Carol entrou no escuro. Do salão de beleza foi pra casa, fechou as cortinas, apagou as luzes. Esse é o aspecto alegórico de interiorização anômica visto em Repulsa ao Sexo, filme sobre o conflito pessoal de Carol diante da sexualidade e das suas relações familiares. Círculos de freqüência masculina, o bar, e feminina, o salão de beleza, constituem partes do drama da personagem. Assim, de limites do discurso social e familiar, vai-se a limitações do indivíduo.
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começo feliz
Cinco pessoas no primeiro encontro do novíssimo grupo de estudo de fotografia mostraram grande diversidade de intenções como fator preponderante. A qualidade marcada por cada participante dispensa a inflação exarcebada de pessoas, o que não impede a quantidade de adeptos estar aumentando pouco a pouco. Novos pensadores se apresentarão dentro de cerca de uma semana, quando todos proporão plano de ação individual para os próximos meses. Além dessa atividade pessoal, proposta de aprendizado e investigação conjuntos deverá ocorrer.
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Sobre a surrupiação: o que aconteceu de espantoso na semana passada.
O que é um oceano visguento? Aquele do qual não se vê o fundo, mas do fundo vem o que nos olha e novamente afunda. Assim, do fundo novamente surge algo mais de desconhecido que também nos olha. É assim a maré de que nos fala Didi-huberman, a que se dá ao conhecer do mundo; conhecimento que só percebe na medida em que todo o mais se oculta. Esse mundo se assemelha ao maior de todos os mistérios, que é o túmulo, sobre o qual pensar, em seu sentido simbólico e espiritual, levará sempre novamente à coisa-no-mundo, ao ser-no-mundo de Heidegger. Então o mistério que produz a sensação tanto do conhecer quanto do não saber, forma um sentido de existência, de presença de si no mundo.
Se o sentido daquele que olha é aquilo que é visto, então, o que acontece quando é surrupiado aquilo que se vê e que nos olha? O que ocorre quando algo ou, sobretudo alguém que nos agrada conhecer (logo, desconhecer) desaparece misteriosamente sem deixar rastro? Resposta (nunca) em breve.
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domingo, março 21, 2004
Hoje não tenho assunto, mesmo passada uma semana do último post. O motivo é o grande espanto que nesse momento procuro rechaçar e que está presente em todos os meus pensamentos, absolutamente irrefutável. Sim, porque me faz debelar com minhas crendices e ao mesmo tempo torna literais muitas metáforas e algumas hipóteses que sustentam teorias impressionantes.
Como é difícil encarar certos acontecimentos que mais parecem mitologias, deixarei uma pista novamente metafórica dessa angústia. Imagino, ao mesmo tempo, o quanto já deixou de ser dito para ser proposto assim, alegoricamente e esvaziado... Seguirei, entretanto, nesse rumo mais ameno.
A hipótese é: às 16h você está diante de uma paisagem que o agrada. Num momento em que ainda está em contemplação, certa brisa forte incomoda seus olhos. Então, você pisca, tampando a fronte com as palmas das mãos, franzindo o cenho e enclinando para baixo o rosto, como proteção. Logo cessa a brisa mais forte e você retoma sua posição de contemplar. Mas, para sua surpresa, não encontra mais a paisagem que antes via. Está no mesmo lugar, sentindo a mesma brisa, mas em lugar da paisagem há um recorte fulcral e somente negrume, como se uma tesoura houvesse destacado desde o céu até certa altura da vegetação e uma varinha de condão tivesse sumido com esse pedaço recortado. Você gela, tenta acordar, mas não é sonho, seu coração dispara; quanto mais tenta entender, maior o incômodo. E agora?
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Incomodado e vivo
Mas muita coisa ainda existe e coisas boas continuam acontecendo. Por isso, anuncio, o primeiro encontro do grupo de estudo de fotografia será amanhã, às 19:30h, no Espaço Cultural Renato Russo, na 508 Sul. É um encontro bom e importante. Você aí, que gosta de pensamento e de fotografia, está convidada(o).
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domingo, março 14, 2004
ponto refinal
Ah, o que dizer nessa hora que passa sem que ninguém descubra o que quer que seja? Passou... Acabou... Morreu... Mas aí tudo continua. Altares vão sendo erguidos para adoração de imagens cada vez mais vazias, mais invisíveis, a ponto de os adoradores pensarem que não adoram nada. Às escuras, toda fé aumenta a cada dia e adora ilimitadamente.
Amanhã vamos à Universidade. Em busca vaga por um ponto ínfimo, aquela questão que incomoda, será acrescentado mais um pedaço de merda ao altar imaginário. O pior é que "a pergunta que não quer calar" sequer existe. Os objetos desses pensamentos que buscam isenção e querem VERDADE são pura impotência travestida.
E eu estarei lá, com todo o meu ceticismo e sem esperanças na tal Universidade pública e de qualidade. Todos procurando aquela palavra, aquela COISA, aquela resposta. E o semestre vai passar sem que ninguém descubra nada. Isso é uma angústia, principalmente porque sou assim também, o tempo todo em busca, e posso dizer que é um incômodo. Preferível seria o Jardim do Éden com a Eva de perna aberta...
Dormir nas férias estava tão bom...
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Parabéns à poesia pelo seu dia!!!
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domingo, março 07, 2004
fotografando a Arte 1,99
Quem não foi ainda à exposição Arte 1,99 na galeria da UnB (406 Norte) precisa ir logo, caso não queira perder. Ela fica aberta de 13 a 19h, de terça a sábado. Acredito que não conseguirá manter-se até a quarta-feira, porque estão comprando tudo. Achei bastante surpreendente a elaboração que a Patrícia Bagniewski conseguiu nesse trabalho e pude notar que algumas questões interessantes para mim estão lá nela também. Adquiri um livrinho fofinho com uma tesoura, contendo instruções de ler o livro fofinho e picotá-lo com a mini-tesoura colegial. Isso, apesar de conter uma idéia de infantilidade nos objetos, me conduz diretamente ao pensamento do personagem de Dostoiévski em "Memórias do Subsolo" reconhecendo com um certo deboche o prazer que se tem em sofrer. E ele mesmo sofria, e sofria porque nisso tinha prazer. Mas, diferente daqueles que gemem quando estão doentes, não pretendia esconder sua vontade de dor sublimada no gemido. Não entrarei em pormenores psicanalíticos. Basta notarmos apartir de um semelhante - o personagem citado, auto-denominado um rato - essa vontade de auto-flagelar-se ou buscar o cáustico como fórmula do prazer. Isso basta, pois "a mente perspicaz é uma doença" (como seria entrar em pormenores psicanalíticos), visto que nos leva à negação desse princípio em função de um distanciamento da matéria e do sentir para instaurar-se a palavra no lugar da coisa. E vendo naquela inocência infantil dos materiais a minha própria incapacidade de ser mais do que uma criança, ou seja, de não poder sentir mais do que ninguém aquilo que se põe no meu caminho e que resolvo notar à minha maneira, me figuro imediatamente no livro. Tenho vontade, então, de picotá-lo até mesmo com a tesoura cega!!! Mas não abrirei sequer a embalagem.
É essa a dor inteira de uma obra de arte ou de uma fotografia e, além do mais, no caso dessa, um sentimento de que jamais algo fotografado será recuperado, mas justamente por parecer que sim, que de todas as maneiras o fotografado está ali impresso. Isso não passa de baixeza e enganação.
Comecei nesse assunto agora para falar do grupo de estudo de fotografia. Ele começou a ser divulgado ontem, amanhã será mais um pouco, e até a quinta-feira devo publicar no grafias o projeto completo para aqueles que aderirem ao grupo.
Bom domingo e ótima semana pra vocês. Não esqueçam de ir à "Arte 1,99".
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sábado, fevereiro 28, 2004
(foto)grafias
Na semana passada, falávamos dos livros empoeirados não lidos, acumulados em nossas estantes. Antes ainda, falávamos de "andarilha, criatura" andarilhando em auto-reverberações incessantes. Na semana trespassada, o assunto era a humanidade do artista, seu mundanismo laico, limitado e normal. Esses temas podem confluir muito apropriadamente para a abordagem filosófica da fotografia. E essa confluência é especial nesse momento em que surge um novo grupo voltado à fotografia, ao seu estudo, principalmente, voltado à pesquisa e produção independentes.
Temos, no próprio blog, uma das variáveis conversíveis em favor de ações que se pretendem independentes. Essa mídia é, talvez, a menos obliterada de todo o planeta. Esse eaudeparfum aqui, por exemplo, se tornou praticamente um periódico onde o autor publica o que quer. Realizando o trabalho também do Editor, seleciona para publicar, desde o início do veículo, textos segundo seu próprio critério.
Não que essa liberdade deva prevalescer em toda imprensa. Isso seria um jogo sujo contra a qualidade. Mas há o que se aprender com esse tipo de veículo de comunicação. Justamente pelo aspecto pouco profissional, ele revela um quê de despreocupação. Não há ações a perder, nem patrocinadores a espantar. E nisso (no contrário disso, precisamente) também reside o pouco profissionalismo de, por exemplo, jornais patrocinados pelo governo e por algumas empresas tradicionalistas.
O jornal é, por excelência, o veículo da instabilidade, e a ele seguem-se todos os outros periódicos, em menor grau voláteis. A falta de profissionalismo está, apesar da credencial dos jornalistas e da sua inquestionável dedicação e competência, na seleção do editor e na coordenação do veículo com fatias do poder de barganha ou político. Atrelar-se ao capital ou a governantes é entrar em sua lógica. Para essa lógica apenas há fatias, direitas, esquerdas, e aquelas diferentes desprezíveis que, se não entram nas matérias positivistas, também não aparecem nas críticas, espaço reservado à esquerda. Portanto, boa parte do conhecimento produzido e das ações possíveis que poderiam ser mostrados permanecem ocultos. A taxada esquerda vai, por sua vez, sendo tratada como malévola.
Essa possibilidade de abertura, se tem sido de certa forma subaproveitada pela imprensa, teve sua grande chance com um outro invento moderníssimo. A fotografia tem entre suas características desde os primórdios uma afinidade com o mundo externo. O ato fotográfico, como o artista em seu prosaismo, está intimamente associado às coisas circundantes. Ele recorta fatias e fragmenta a imensidão de possibilidades visionárias. Nisso reside a instauração de uma comunicação fértil.
Inevitavelmente, associa-se o ato fotográfico à linguagem, reverberante, como uma criatura andarilha, impossibilitada de simbolizar o todo, afeita mais aos significantes do que à coisa em si. As ambições de chegar a um todo convivem também com a fragmentação necessária à existência dessas ambições mesmas. Tenhamos, talvez, a impressão de evolução, que por sua vez não passa de acaso motivado pela nossa própria condição subjetiva. Não podemos senão conhecer vestígios do mundo presente ou passado.
Este é o lugar de um livro ou uma foto. O estilhaço. Ambos são pensamentos em processo e pós-processo. Ambos evidenciam a impossibilidade e a ausência. Nem um nem outro são a realidade, por mais realistas que aparentem. No momento em que escrevo essa palavra, infinitas outras deixam de ser usadas. E o melhor parece ser cometer esse assassinato, ou anonimato. É o que fazemos, severamente, talvez acreditando em algum flanco, ou fenda, ("riss", para Kant), ou ocultamento, "lichtung" (Heidegger), para o nascimento de um "Unverbogenheit", a reverberação da linguagem (Foucaultiana) em termos Heideggerianos. Essa perspicácia nos permite subjetivamente situar em meio à diversidade. E eis o sentido de ancorarmo-nos por nós mesmos, que é o sentido do ato fotográfico, literário, ou criador de modo geral: "Melhor um livro na mão do que dois mofando".
Esse é o princípio do grupo de fotografia que está sendo criado. O princípio da independência e da diversidade, fragmentário, que se podem combinar de infinitas maneiras. Convido todos os meus leitores que tenham algum interesse em pensar tendo a fotografia como auxílio ou parceira e a discutir toda essa imensidão possível em seu prório ato, seja de escrever ou produzir objetos de arte. Convido-os a integrar o grupo grafias. Vocês podem me contatar no e-mail à direita e acima, logo abaixo da imagem da pintura, para pedirem o projeto do grupo. Para associarem-se à lista de discussão, basta enviar e-mail em branco para grafias-subscribe@yahoogrupos.com.br. Para acessar a página do grupo após associados, usem o endereço http://br.groups.yahoo.com/group/grafias/. Quem tiver meu telefone, pode me ligar a qualquer hora.
Para dirimir a curiosidade sobre a marca, explico-a. O conceito de diversidade de caminhos tomados pelos diferentes componentes e coesistência harmônica entre os mais variegados conteúdos foi expresso na escolha do nome grafias, no plural, em letras minúsculas. A divisão do subtítulo do grupo na lista de discussão (foto)grafias, sugere essa diversidade sendo abordada apartir de um procedimento análogo ao da escrita com a luz. Ficam em aberto as problemáticas que a mídia, a técnica ou o processo suscitariam, bem como as formas de abordagem do tema.
Postado por allan de lana às 1:27 PM 0 comentários
sábado, fevereiro 21, 2004
auto-
Lendo algumas postagens passadas vejo o quanto são superficiais. Pelo menos divertem e fazem pensar. As últimas, em protesto aos mitos em torno dos criativos (que, aliás, somos todos), renderam exatos nove parágrafos cada. o que é isso? Talvez um carma? Sei lá, não acredito nisso, mas por via das dúvidas, darei vivas ao nove e vou chispar daqui bem rápido!!! Quero dizer, estou com medo, mas continuarei aqui, como prova da minha coragem.
o oferecimento
Meus cinco leitores ou talvez mais alguns (e posso me gabar de conhecer todos) talvez tenham estranhado o repentino patrocinador aparecido nas minhas últimas inquietações virtuais. Mas esclareço o oferecimento de "Melhor um livro na mão do que dois mofando". Chegou a hora da verdade, aquele momento ébrio, propiciado pelos estabelecimentos menos ostentosos e mais aclamados da nossa sociedade, os botecos copos-sujos.
Explico ainda que "copos-sujos" adjetiva "botecos", e "sujos" adjetiva o substantivo no plural "copos", por isso a flexão do vocábulo composto "copo-sujo". Com isso, sou o primeiro ser do mundo a flexionar corretamente para o plural o referido vocábulo-de-botequim.
Devidamente alegre, mas frustrado por me sentir solitário e longe da farra nesse carnaval, reivindico meu diploma de professor honoris causa, depois, é claro, da apresentadora de programa Hebe Camargo e do Presidente Lula. E viva o Brasil, Rio de Janeiro, futebol e mulata! Estou, de fato me sentindo um gringo nessa terra. Gostaria de falar Tupi, isso aparentaria mais patriótico (quem sabe?).
Mas enquanto a língua é ainda portuguesa, não estado-unidense (no lugar de inglesa) ou do naipe da disfunção italianista de grandes construções candangas, apresento-lhes o mais estrondoso programa de contenção de gastos para os compradores compulsivos de livros. "Melhor um livro na mão do que dois mofando" é o nome da campanha. Ela nasceu de uma incursão à segunda porta do meu guarda-roupas, quando verifiquei o alto volume financeiro gasto e mal aproveitado. Assim como as estantes de todos os pais do mundo, que acabam comprando coleções inteiras e não lendo quase nada, estava eu caíndo na obsessão antiliterária.
Poemas de Castro Alves, Alvares de Azevedo e Machado de Assis; clássicos como "Assim Falou Zaratustra" e "Crime e Castigo", todos subaproveitados. A libido, ainda assim, mandava-me à compra de mais e mais, além de tantos que retirava na biblioteca sem chegar a ler. Permiti-me avaliar dentre meus colegas a incidência do mesmo caso. Todos os que investiguei têm a mesma tendência. Faz-se urgente e necessária essa empreitada de aproveitamento do conhecimento contido e de contenção de aquisição de livros sujeitos ao mofo e à poeira. Por isso:
Esse post foi oferecido por:
"Melhor um livro na mão do que dois mofando"
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domingo, fevereiro 15, 2004
"Melhor um livro na mão do que dois mofando" oferece:
Andarilha, criatura
Nem um pouco vaidosa. Jamais parara, a criatura, em frente ao espelho, para notar seu rosto assimétrico ou sua escoliose? A pele, cheia de manchas, variações de matiz salmão, e cascalhoada, descamava-se, como se os poros penetrassem-lhe dentro à carne. Quase não demonstrava aflição. Aquilo de aparentar serena era um mistério. Humana e bípede, tocava o ar com facilidade. Sua verdade, para mim, era plana. Sua cidade mimetizava-se a si mesma de concreto bastante verossímil. O toque da criatura causava ondas concêntricas no plano sensível da cidade. Ao desdobrar-se, então, regurgitava-se pra fora e pra fora. Sempre para fora. Assim, ia caminhando, com os pés, vomitados pela boca, indo novamente ao chão e adiante, e os órgãos internos postos a flutuar. Em seguida, pela boca novamente o lado direito externalizava-se. Aqueles órgãos, deformados e fora de ordem, eram retidos no avesso. Repetir isso era sua vida de andarilha.
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O.B.S.:
1) Enquanto não encontro outra maneira de deixar que as pessoas me mandem e-mail, vou deixando ali à direita mesmo meu "Lan"zinho discreto. Confesso que não tenho me empenhado em descobrir essa nova maneira. É um péssimo costume, aliás, as pessoas acharem que conhecer e fazer amigos na mídia interativa deva ser necessariamente fácil e rápido... É o mesmo pensamento da indústria da putaria, que me manda mais de vinte e-mails por semana por causa dessa minha teimosia de deixar meu endereço no Blog. Pelo menos eles aproveitam a oportunidade, embora sejam uns idiotas.
2) Em breve ficaremos temporariamente sem imagens, problema que não deverá durar mais de duas semanas.
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domingo, fevereiro 08, 2004
Além da Orelha
Quem pariu Mateus que o embale, andam dizendo por aí. Em uma alusão ao amor próprio, é possível declarar-se o não comprometimento com o problema dos outros, como faria um João-Sem-Braço. Pensar olhando em torno e voltar a si, por outro lado, é um exercício que demonstra o contrário.
Olhar em torno significa notar o próximo. Notar o próximo significa compreender as relações de diferença entre ele e o meio em que vive. Voltar a si faz parte desse saber sensível, no qual está investido um certo conhecimento de causa. Há sempre uma pequena história envolvida por várias outras.
O isolamento de um fato conduz a análises postiças. Um exemplo é o silogismo "Van Gogh era artista habilidoso; sua esquizofrenia influenciou sua técnica e, além disso, ele morreu pobre; portanto todo artista habilidoso é esquizofrênico e morre na sarjeta". Entrementes, pode-se avaliar o exemplo sem excluir essa opinião equivocada. Quem crê também é história, por fazer parte do grupo dos que agem com determinado conhecimento e convicção.
Não é dispensável o caso, pois acreditar na seqüela criadora é estar com ela. A idéia bastante difundida e Romântica de que o artista não pode enfrentar a sociedade ou compactuar com ela, afinal, tornou-se um axioma um tanto quanto teso e intocável. Um Courbet, ainda hoje, vez ou outra é chamado de um bruto por não camuflar sua atitude escondendo a verdade objetiva da pintura, nem ignorar a força política contida nas artes.
Essa tísica epistemológica é, a bem verdade, a realidade ilusória à qual os cidadãos, e mesmo artistas, puritanos, fiéis e crédulos, fizeram suas oferendas. E, ainda, um campo de minas explosivas é o assunto da loucura, porque os que crêem piamente não julgam suas convicções, mas os que duvidam, por simplesmente citarem a loucura, correm o risco de incorrerem em preconceito, em seção e isolamento.
Afinal, quem pariu a loucura? Quem pariu a idéia de que faria a loucura bem às artes e as artes, bem à loucura? Parece que está-se falando de uma espécie de "Mateus sem pai". A idéia da loucura, que vidia a cêra no ouvido de Van Gogh e para a qual se pode olhar atualmente com uma certa distância, essa, sim, aparenta fraqueza. Principalmente, quando a reação dissociativa, própria dos que surtam em manias, parece formar os princípios fundamentais de uma sociedade mundializada.
Dizia Foucault que a loucura é um mecanismo de exclusão, não feito pelos maníacos, mas pelos que a diagnosticam. Uma breve beliscada com o olhar em uma das 300.000 obras do museu de imagens do inconsciente é capaz de arrancar comentários piedosos de multidões. Um psiquiatra místico despeja sua lista incessante de mitos, um espectador de Hebe diz que é uma gracinha. Todos tratam, enfim, de classificar quem produziu a obra, apressadamente, como desajustado, sobrenatural, frágil ou digno de pena. Até mesmo concedem, do alto de sua autoridade, autorização para que um louco possa ser Artista (com A maiúsculo, ainda por cima), coisa sobre a qual nada, a não ser a milagrosa OMB, e mesmo assim no campo restrito da música, conseguiu advogar. Mais gritante: alguns estudiosos da produção técnica criativa de psicóticos chegam ao descalabro ufanista de dizerem que somente os loucos são merecedores de tal adjetivo ou Título. Afinal, como aceitar um Fernando Diniz, talvez aberração, talvez um ET, talvez Deus?
Dessa maneira, um domínio, que felizmente tem sido desmanchado aos poucos, dentro da verdade aceita, prescreve o que pode ou não ser normal e ouvido. Assim, pessoas criadoras e originais, compositoras de novos e infinitos sistemas de raciocínio e subsistência, estiveram e continuam, juntamente com o falso e o feio, exiladas por longa data. Irônico também é ver aparecer primeiro suas influências, depois o seu trabalho.
O "exotismo" modernista, tão caro à arte soterrada ou enjaulada (fósseis e coleções de trabalhos de internos), levou para o mundo uma fagulha de algo estranho e inverossímil. Hoje se pode enxergar por entre a névoa uma dissociação neurótica se apossar de uma velha episteme, que é nada mais do que a parideira. Dissociar é criar defesas e produzir ilusões diante do que se aparenta intransponível ou ameaçador. Eis que o parido, de tão grande, não pode ser embalado, é intransponível e impossível de ninar, então, presenciamos um momento culminante, em que a falência dessa instituição em conserva vai ocorrendo.
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Esse texto foi oferecido por:
"Melhor um livro na mão do que dois mofando".
Postado por allan de lana às 4:33 PM 0 comentários
terça-feira, fevereiro 03, 2004
O texto abaixo tem um oferecimento de
"Melhor um livro na mão do que dois mofando".
O Caso Rembrandt
Rembrandt subiu na vida e caiu na morte. É fútil, o anúncio, mas menciona o caso mais impressionante dentre os pintores que se tornaram celebridades mundialmente bajuladas (e como dizer esse "mundialmente" em termos de tempo? Talvez baste um eternamente). Em sua obra, atada simultaneamente ao plano pictórico e ao real, como também à vida, foram antecipados os aspectos mais relevantes das artes desenvolvidas no século XX.
Se você disser que eu desafino, amor, dissonante, lhe digo, parece ser a composição ilusória com a qual Rembrandt conduz o espectador ao engano. Como se a sétima maior, tão bem disposta em certa harmonia, não ressonasse em tensão irreconciliável aos ouvidos mas, sutilmente, convidasse os instintos a perceberem um novo acorde, preparando-os sempre para um devir.
SinEsteticamente, há mesmo música na imagem? Existe mesmo cadência nas telas de Rembrandt? Responderia alguém que não, que leu n'algum folheto, jornal ou ensaio que música é arte dos sons a ser entendida primordialmente em sua duração. As artes visuais seriam, assim, artes do espaço. Não só Rembrandt contradiz isso, como também desmente que a arte seja a expressão pura do espírito do artista semideus. Sua história mesma descredita a hipótese de que arte é, por outro lado, narrativa institucionalista. Acrescento que não existem, também, as tais "artes integradas". Arte é integrada por excelência! Por último, Rembrandt desmente que artista bom seja artista morto.
O pintor nasceu em Leiden, Holanda, de família humilde, tendo viajado a estudos para Amsterdã e retornado à cidade natal. A partir desse momento, se torna rapidamente um homem rico e assediado. Não só pelo seu talento, mas pela sua "habilidosa" esposa Saskia, mulher de família nobre, consegue suceder ótimas vendas e recebe encomendas diversas. O sucesso dessa empreitada não está, entretanto, como muitos espectadores de Hebe imaginariam, na aliança com a alta sociedade, mas no não abandono da pesquisa, da dúvida, da investigação, da música.
Como um compositor de uma seqüência harmônica, o pintor compunha cada um de seus elementos, manipulava a composição e a dispunha de modo impossível, mas verossímil. "A Ronda Noturna", encomendada pelo Capitão Franz Banning Cocq, mostra "A Mudança de Guarda da Companhia do Capitão Frans Banning Cocq" (título original) em uma imagem móvel onde se notam movimentos dos militares e espectadores. Um músico levantou o braço e o descerá rumo ao tambor. Um guarda deu um tiro e a guarda está se posicionando. Esse gerúndio eterno é o acontecimento temporal. Não se vêm movimentos sem que exista o tempo e, então, a harmonia combinada com o tempo, se forem aceitos os argumentos dos mais conservadores, produz, literalmente, música. Rembrandt também reintroduziu a pintura com as cores todas dessaturadas e sem diferenciação significativa entre as tonalidades dos diversos planos, assim como Miles Davis sugeriu no século XX uma música com poucas notas na melodia.
O Capitão Cocq, um bruto idiota de um tipo bastante proliferado e chato, um intransigente diante da "piroca de Ulisses" criada por ele mesmo, "como quem vê sacrafuncho em cara de cavalo" (diz minha mãe), desfez a encomenda de uma das obras mais complexas das artes mundiais. Seria ela pintura? Seria ela música? Ora, imagem mais movimento é igual a cinema!!! E por nada nesse mundo poderemos dizer, portanto, que cada um em seu compartimento. Não faz sentido aclamar uma mídia em detrimento de outra ou validar um sentido em detrimento de outros.
Esse pintor por excelência, tendo explorado a romântica pintura, de coisas fugidias, representativas do indizível, por suas manchas inimigas da natureza, indutoras do intelecto e do conhecimento anterior, estava já declinando. Perdera três filhos. Sáskia morrera e, nesse ínterim, o talentoso homem somente ganhara a "piroca de Ulisses", quase um Oscar de idiotia, por ter sido complexo e profundo.
Nas profundezas de sua profundidade, após ter até mesmo galanteado e comido a babá do único filho restante, o aclamado artista de (de onde mesmo?) Leiden declina ao ser enxotado vagarosa e vilmente dos círculos pomposos de convivas. Outrossim, não é nessa roleta ostentosa e ignota que reside sua eternidade, mas no fato de que jamais abandonou o tempo (seja a perenidade ou a fugidez), os interstícios, nem a verdade daquilo para quê estava a serviço. Sua pintura nasceu para a superfície plana e para a sabedoria dos que a olham. Sua gravura jamais negou a ação do buril ou do ponta-seca, de tal sorte que, ao mostrar a cena da deposição de Cristo mostra também a ação própria e a dos assistentes no ateliê ao violentarem a chapa. Assim, estava a serviço da história, do ser, da inteligência e da autoria.
Depois de ter subido na vida, caiu no esquecimento dos comerciantes ingratos. Seu enterro não foi assistido. Sua pecúnia, não a via mais (e agora Rembrandt?). Duas vezes rico, entretanto, engana ainda a quem se engana, desafia o positivismo televisivo e a imagem em movimento. Coloca sob suspeita o gosto e a inteligência dos financiadores das artes. Diz para os sabidões e arautos passivos Heberianos: cada coisa fora de tempo; cada um fora de seu lugar. Que gracinha é a lhama que te cuspiu!
Postado por allan de lana às 10:37 PM 0 comentários
sexta-feira, janeiro 23, 2004
propaganda
Gente, tem uma propaganda de hemorróida no meu blog!!! Leitores, aproveitem para aliviar aqui o ardor e o comichão das suas hemorróidas. Antes havia um comercial de galerias de Arte e eu pensei que alguém tivesse feito algum trabalho de segmentação em função dos conteúdos de cada blog. Vê se pode! Mas como artista costuma mais se foder do que outra coisa, até que não espanta que suas hemorróidas sejam "comichonadas" (inovações moderníssimas da Estética performática pós-futurista - nem te conto!).
Deixemos o espanto inicial, provocado pelas irritações nas pregas, um pouco de lado, afinal, a verdade é que o jargão que diz que todo artista nasceu para o insucesso é pouco creditável. No campo da Pintura, por exemplo, cujo nome mais citado para comprovar essa máxima infame é Vincent Van Gogh, os casos de sucesso somente depois da morte são raríssimos.
Na tentativa de justificar a qualquer preço tal falácia, criam-se mitos em geral associando a arte à loucura do artista. Eis o mesmo Van Gogh no centro das atenções. Por causa de uma orelha marketeira, responsável por todo o trabalho de memorização de sua marca como o modelo a ser seguido e nomeador de toda uma categoria, como uma "Bombrill" ou uma "Gillete", a fama de todos os criativos é a de serem loucos.
Outro fenômeno da mesma natureza de "O Médico e o Monstro" instaura uma conspiração ainda maior. O mais exato criador, aquele davinciano preocupado com os cálculos na base da sua invenção, acabou por ser chamado também de louco. A sensibilidade, por mínima que seja, chegou a ser colocada na lista dos sintomas da loucura, por envolver delírios apaixonados e a recriaçãoo fantástica do real: o sur-real!
Eis que por alguma ironia desconhecida, somente as ironias são conhecidas. Parte da história é omitida e o sucesso, então, da maneira como é conhecido, é ser fodido (não me pergunte como). De fato, muitos artistas morreram na sargeta, ou por não administrarem bem o seu sucesso ou por algum vínculo político pouco saudável, mas nesse caso houve ascensão e queda.
Existem também os artistas anônimos nas noites metropolitanas e aqueles que jamais apareceram na lista dos televisionados e das celebridades. Nesses casos a confusão ocorre porque, por um fenômeno um pouco estranho para quem o passa a notar, a TV e os veículos voltados para as massas passaram a ser confundidos com a verdade para a qual conspira o mundo.
Diferentemente do que transparecem, tais veículos são dirigidos e editados normalmente por profissionais convictos do que querem. Parte deles declaram suas ideologias para mantê-las em diálogo com as de seu público, aprimorando-se e possibilitando que o público se aprimore. Outra parte, na pretensão de que todo um emaranhado de personagens políticas conservadoras os adulem e os façam influentes, oferecem seu retrato bem bolado com cara de espontêneo para que legiões de leitores o imitem. São mantidos estes, dessa maneira, afastados de sua maior arma: o pensamento.
Por alguns artifícios da mídia, somados a crueldades sociais e discriminações que por toda história fizeram vítimas no campo do sensível, a arte que se conhece hoje é aquela feita há quase um século. O caso se complica ainda mais com a relativização que poucos leigos conhecem, uma ruptura em todos os sistemas artísticos, que deu margem à transversalidade entre esses e outros, à transdisciplinaridade, bem como à dissolução da idéia de arte.
Para ser artista, em breve, poderá bastar viver. Não viver inerte como um telespectador, mas tão ativo quanto um louco: tanto cientista quanto apaixonado. Isso sim é obter sucesso!
Postado por allan de lana às 7:55 PM 0 comentários
quarta-feira, janeiro 21, 2004
teste hum : concluído
falhas no teste dois : provedor.
Postado por allan de lana às 9:16 PM 0 comentários
sexta-feira, janeiro 16, 2004
O romance desvanece por ser romântico.
Aspira a seta em flama a rasgar a si mesmo,
Chama baixo e surdo para ser a chama
Segredada entre solidões periclitantes.
Não é forma, não tem matéria. Não é.
Não é senão essa razão desconsertante
Que, sem intento de alcançar, 'inda reclama:
"Tuberculose, que me aflige amar na cama".
A partir de hoje novas pequenas mudanças terão início nesse blog. Imperdível!
Postado por allan de lana às 9:24 PM 0 comentários
domingo, janeiro 04, 2004
Impressionante, Cassandra!!!
Hoje acordei e fiquei puto em seguida, meu pescoço está duro e dolorido, é um torcicolo do lado direito, mas eu ainda acredito. Você acredita? Um abraço para aqueles que acreditam.
VIVA O PAC-MAN!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
"Caia nessa água, venha se molhar", porque "quem acredita sempre alcança". "Você tem fome de quê?".
Postado por allan de lana às 12:37 PM 0 comentários
sexta-feira, janeiro 02, 2004
Contraste simultâneo
Do carvão nasceu a cor,
e quem dá valor à pintura
vê intensidade e temperatura
em Luiz Áquila, feito da luz
que o Carvão com pincel fabricou.
__________________________________
Veja Daniel Senise no Tribunal de Contas da União e seja feliz por alguns segundos.
Viva a geração 80
viva o Atari
viva o Chaves
viva o Jaspion!
Antes eu dou vivas, depois paro pra pensar (ouvir). Somos o avanço máximo de tudo o que os "rebeldes" oprimidos sonharam. Que liberdade de merda que eles conseguiram! Que cavalo de batalha escroto esse discurso de "eu sofri pra você jogar minha luta fora"!
Eu nasci em 1980 e amo meu tempo, porque vivo aqui e não ignoro a puta que me pariu. E a gente nasceu da mesma, magnífica, (...(..(.(( liberdade é o caralho na puta!!!)).)..)...).
Ter levado cacetada não é cultura...
Mas tudo bem, eu entendo quem disser que eu tenho que me revoltar e tomar o espaço público de volta. Eu entendo quem disser que naquele tempo havia intelectuais e que eles se reuniam fora do poder instituído e que hoje deveria haver essa mesma prática. Entendo que os intelectuais sempre foram uns chatos e que quando se juntam com os artistas acabam querendo "parar as rotativas" (expressão de DINES) e fazendo bossa nova ainda hoje. Entendo que também tenho essa vontade e essa falta de raciocínio. Entendo que não há sequer a enésima chance de se comparar a violéncia desses anos 00 à dos últimos anos 60 e 70. Entendo que os nossos velhos e mestres se borrem quando ouvem falar no Figueiredo, por não saberem se ele foi um militar temido aliado da ditadura, ou uma personagem louvável da Anistia. Entendo que se gabem por levar porrada, enquanto nós, de 1980, temos que nos cuidar contra DORT e LER. Mas entendo também que o que Eles (os "deuses" que nos antecederam) querem é impossível. Subverter o quê? No entanto, continuamos sendo vigiados, o espaço público continua sendo invadido sem respeito ao povo. Além do mais, nossa política é coronelista, nosso Estado é praticamente uma mega-empresa familiar emperrada cheia de bichos papões e bons-vizinhos querendo dançar uma valsa com a nossa irmã mais gostosa e comer a nossa tia velha rica. A qualidade que se exige é aquela que favorece quem está no poder. Entremos na Secretaria de Cultura no governo Roriz e lá está a gangue do Roriz, entremos em outro governo (cadê o outro governo?), ou no que já teve de diferente, e lá estará a gangue do outro governo... O que mais deve doer para nossos velhos (e amados) antecessores é que diante disso, eles e nós parecemos ter brochado de maneira incurável. Mas alguns, deles e nossos, querem outra vez aquele passado, aquela angústia - só em meio a ela se pode ser subversivo da mesma forma -, outros querem pensar e sentir, querem uma "poética do banal" e...
Ah! Esqueça tudo isso. O que eu quero dizer mesmo é que comprei um celular.
Pronto, chega de sofrimento.
Postado por allan de lana às 11:45 PM 0 comentários
segunda-feira, dezembro 22, 2003
Depois de mais de um ano desse blog, ainda não falei de mim, só falei mesmo... de mim.
24,5 (meu último poema postado no ano de 2003)
Eu digo a comida que vai no meu prato
e a nutricionista fica de cara,
porque eu sou mesmo é, de esfomeado,
Aquilo que não como,
imagem e semelhança da ausência,
e tudo o que tenho é falta.
Um ser inteiro é sempre cortado ao meio.
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A imagem abaixo é de Cecilia Tovini. Se quiser vê-la ampliada, vá ao site do usefilm (sim, agora sou burocrático).
www.usefilm.com
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... mas você nem imaginaria que tudo o que você faz com amor e carinho pode provocar ódio em alguém.
Se isso acontece com você também, podemos assinar um acordo de coração:
Façamos por merecer: continuemos sendo odiados até o raivoso morrer de infarto.
Odiemos com todo trabalho e dedicação.
Executemos com todo carinho e maldade.
Assassinemos com todo esforço apaixonado.
Irritemos com toda calma e pureza.
Sepultemos com margaridas e feitos impossíveis.
Festejemos com champanhe, pois 2004 está chegando.
Que o ódio construtivo e o ócio criativo tomem conta de todos vocês, meus amigos, leitores e simpatizantes.
FELIZ NATAL E MARAVILHOSO ANO NOVO!
Postado por allan de lana às 9:14 PM 0 comentários
domingo, dezembro 21, 2003
Respeitável público!!!
A grande serpente!!!
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Postado por allan de lana às 11:33 AM 0 comentários
